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Survivor

Bill tinha depressão e transtornos psicológicos, esse era o diagnóstico do ponto de vista psiquiátrico, mas esse fato é muito pouco para falar sobre quem era ele.

Às vezes ele se sentia bem, e o problema é esse; só as vezes. Era um homem que tinha uma sensação constante e persistente de tristeza.

Tinha dias que acordava e seu primeiro pensamento era; quero morrer.

E esse é o problema; são 365 dias em que acontece isso com ele, mas não se apegue ao detalhe, que isso acontece há alguns anos.

Ele era um  homem que se angustiava de ser quem era.  Bill era um homem que sentia que o mundo não dava o que ele precisava e sempre se sentia vazio, totalmente insatisfeito com a vida.

Mas não se engane. Existem os dias em que Bill levanta e, já quer logo ligar seu som, coloca-lo no máximo e dizer para o mundo que está vivo, para que todos escutem o quão feliz alguém pode ser, mesmo sendo infeliz. Não atoa esses sentimentos são opostos, pois eles se atraem.

De fato Bill era um homem que não sabia lidar com as frustrações do mundo. Tinha uma sensação constante de ser rejeitado. De não fazer parte.

E ninguém ainda percebeu que o click da sua câmera, o filtro do seu instagram, juntamente com seu compartilhamento no stories, mostra o labirinto de solidão onde ele se meteu, e que desde então não conseguiu nunca mais sair de lá, pois isso mostra o quanto um sorriso borrado engana até as melhores lentes.

Até que um dia a vida fez Bill entrar em uma grande crise existencial, então seu casamento acabou, perdeu o emprego e, ele passou a não poder mais entrar em contato com sua angustia, ele não suportava sentir, não podia sentir. Ele precisava superar, mas não conseguia confrontar sua angustia e começou usar drogas, álcool e se afundou nesse mundo.

Ele precisava de uma fuga da realidade, ele queria não ter sensações, ele precisava esquecer o mundo onde vivia, precisava ser alguém diferente de si mesmo, pois não se suportava mais, não suportava aquela realidade e encontrou suas válvulas de escape.

Notou tarde demais que andava perdendo a vitalidade, sentia-se um velho com vinte e poucos anos.

Mas não é sobre idade.

Não é sobre não se encaixar.

É sobre não ter energia.

É sobre se sentir congelado em um dia ensolarado.

É sobre não querer fazer o que gosta, pois de mais nada se gosta.

É sobre se cansar de ser você e se perder em si mesmo.

É sobre querer ficar só, mas não para ler um livro ou ver um filme, é querer não ter ninguém ao seu redor, pois você não suporta você mesmo, então imagina os outros.

É sobre estar doente e não poder falar, pois se falar vão dizer para você parar de frescura, que você precisa se levantar da cama e ir trabalhar, pois foda-se seus problemas, que depressão é coisa de quem tem tempo e dinheiro ou que você tem que dar um jeito de melhorar logo, se não ninguém vai querer mais ficar do seu lado.

E continuam falando esse monte de baboseira achando que é assim fácil, a vida não é fácil, nada é tão preto no branco, se as pessoas soubessem como suas palavras tem poder, talvez fosse mais fácil para Bill se abrir sem ser julgado e taxado de fraco.

Mas Bill adorava usar uma analogia sobre isso, sabe você não chega em uma pessoa com câncer e diz a ela para parar de frescura, você não diz a ela para que levante e dê um jeito de “melhorar”. Você não diz para um cara que quebrou a perna para que levante e ande.

Essa analogia de Bill mostra o quão  insignificante é dizer para um doente com câncer que ele deve sair dessa, chega a ser ofensivo, percebe? o doente não escolheu ficar doente, aconteceu. Mas eu ouço as pessoas dizerem sobre como Bill deveria ter sido, de como Bill foi um alcoólatra, drogado enfermo, que perdeu tudo para as drogas.

Eu não acredito que Bill perdeu tudo para drogas, o que Bill perdeu foi a si mesmo e sem ajuda ele nunca mais voltou a se encontrar, ele estava estilhaçado como um vidro que se quebra, e cada caco seu refletia suas angustias, seus medos, seus receios, seus problemas, mas ninguém o ajudou a recolhe-los e tentar remenda-los, e não me surpreende tudo  ter acabado com um dedo puxando o gatilho.

Hoje ouço pessoas dizendo sobre como sentem falta dele, de como ele era gente boa e o amavam, e só consigo pensar o que ele diria a essas pessoas se ainda estivesse vivo: Namastê filhos da puta.

 

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O culto à masculinidade

Gosto de refletir, quem acompanha meus textos já percebeu isso.

E dessa vez quero falar sobre um assunto que vêem me incomodando faz um tempo, mas gostaria de falar dele quando tivesse uma opinião formada, uma clareza de ideias, não que seja absoluta a minha verdade e ou meus pensamentos, longe disso. Quero falar com vocês sobre masculinidade e como ela vêem erroneamente sendo ensinada as pessoas, em como essa masculinidade tóxica que aprendemos e passamos de geração em geração vêem causando efeitos colaterais em nossa sociedade.

Bom, hoje o texto vai ser longo, pesado e muito reflexivo, então se estiver disposto: embarque nessa viagem e vamos pensar.

Primeiro quero deixar claro, que a crítica desse texto é sobre como nós homens estamos nos prejudicando e prejudicando outras pessoas, por acharmos que masculinidade é uma dessas coisas abaixo:

“homem não chora”, “homem tem que ser forte”, “homem não deve falar sobre sentimentos”, Macho de verdade quer sexo sempre que possível, nunca nega uma trepada. Se não transa, é um bosta. Agrada mulheres para no final das contas, transar.

E se fosse possível ter sexo à vontade sem um relacionamento estável e comprometido, soltaria fogos. Macho de verdade não entende sinais, não pode entender isso de emoções também, pois tem que deixar essas coisas para as mulheres.

É agressivo e usa a força com quem ultrapassa seus limites, que devem ser sempre entendidos e respeitados, mas nunca esse homem respeita os limites dos outros e diz que é controlado, mas no final é impulsivo quando ofendido. Tem que ser ambicioso, desdenha de quem não deseja mais da vida, fora que despreza comportamentos que indiquem fraqueza, vindos de outros homens. Pois a fraqueza de mulheres já é esperada, e ele mesmo agir assim? isso é totalmente intolerável.

Sabe masculinidade e feminilidade, até certo ponto, são cultuadas, ora mais para uns, ora mais para outros. Desde primórdios sabemos que os homens e mulheres deveriam restringir-se ao seu papel social de acordo com a sua identidade biológica, de macho e fêmea, e por isso, sua escolha afetiva e sexual deveria voltar-se para o sexo oposto ao seu. E a norma desviante desse padrão era totalmente repelida e punida.

Mas hoje sabemos que isso não é o que ocorre de fato, tivemos algumas revoluções nos últimos séculos e algumas foram satisfatórias e que fizeram com que a sociedade tivesse uma aceitação maior de homossexuais e bissexuais, ainda que exista preconceitos contra esses grupos, a sociedade caminha para que esses preceitos não sejam algo normal e tolerável. Assim como sabemos que movimentos feministas causaram grande impactos fazendo com que a mulher tenha um papel social mais participativo em todas as áreas, com direitos iguais aos homens e isso, meus amigos, é demais.

A luta delas ainda é árdua, pois existe muito machismo e com esses avanços, a masculinidade toxica foi crescendo, e os homens foram criando mais barreiras para não se parecerem com os esteriótipos femininos, então na mente desses machões para ser homem você tem que ter culhões, seu orgulho nunca pode ser quebrado, fora que uma vez dito algo, jamais poderá voltar atrás sobre o que foi dito, assim colocando muitas vezes sua parceira em situações abusivas, e não se esqueça que homem não chora não, você é homem ou não é ?

Os homens cresceram ouvindo que demostrar qualquer coisa faz dele menos homem, que ser sentimental é coisa de mulher, que qualquer coisinha e eles ficam parecidos com uma mulherzinha, sendo que não tem nada de errado em ser uma mulher e muito menos em demostrar sentimentos.

Vi e ouvi essas coisas minha vida inteira, vejo até hoje e sendo homem sempre digo que homem não tem que seguir nada disso, homem é gente, homem é humano, homem tem sentimentos sim, pode chorar sim, pode fazer o que quiser, desde que não prejudique outras pessoas. Sabe não afeta sua masculinidade falar sobre os sentimentos, você não tem que provar nada para ninguém, não tem que pegar trinta mulheres numa noite para falar que é macho, não tem que assediar ninguém para depois contar para os amigos, não tem que tratar mulher como se fosse descartável ou lixo, não tem !

Sua virilidade não é o que vai definir se você é homem ou não, acho que somos todos mais frágeis do que demonstramos, mas ai você é pilhado e bombardeado por esse machismo desde cedo, isso afeta os homens com toda certeza, por isso vemos homens achando que mulher é inferior, que mulher só é pra pegar e descartar, que mulher é isso e aquilo… é difícil tomar consciência de que esse pensamento é errado, de que esse comportamento hediondo e machista é injusto para dizer o mínimo, é complicado entender isso sendo que tudo que você escutou desde pequeno era que isso é uma verdade absoluta sabe ?

E então os caras se reprimem, não falam sobre seus sentimentos, sobre suas tristezas, pensam que precisam ganhar dinheiro para sustentar suas famílias se não nunca estarão fazendo seu papel de homens na sociedade, que são uns bostas, tem muitos caras que estão sofrendo por aí com seus psicológicos arruinados, e não é por acaso que a taxa de suicídios entre homens é muito maior do que em mulheres, homens não estão falando sobre seus traumas, sobre suas tristezas, sobre as coisas que os deixa efêmeros, homens não estão liberando a pressão social que carregam nos ombros e isso está causando consequenciais terríveis sobe eles.

Precisamos efetivamente mostrar que homens também são gente, que também podem ser seres humanos e ensinar desde cedo para a nova geração que eles não são feras de pau duro que caminham.

Suas competições de quem tem o carro melhor, a mulher mais gata do lado, ou quem ostenta mais do que o outro, vemos os machões tentando mostrar sua virilidade com quantos filhos conseguiram ter e falando somente sobre seus paus ou quantas vão pegar e ou pegaram… Homem é ensinado assim, desde pequeno, nas rodas de amigos, é o que vemos em filmes, séries e novelas, a maneira como a imagem do homem é construída, que é passada.

Sabe até quando uma tia ou um parente próximo vê o moleque e já fala bem assim:

Esse aí vai comer todas as menininhas… Mas quando esse mesmo menino se machuca à primeira coisa que falam para o garoto é:

Não pode chorar, segura esse choro menino, você é homem ou não é ?

Essas coisas influenciam na criação da criança, e o garoto cresce achando que masculinidade é isso, se torna adolescente com esse monte de merda na cabeça e se não tiver pegando ninguém acha que tem algo errado consigo, pois na roda de amiguinhos só o que falam é de como a fulana tem um rabo grande ou como os peitões da outra são maravilhosos.

E esses adolescentes crescem mais e se tornam adultos, e ai vemos o que acontece hoje em dia, mulheres sendo assediadas em transportes públicos, na rua, no trabalho e até em suas casas, fora na vizinhança. Deixamos o mundo hostil para elas de um jeito que existe até uma palavra para o crime que causamos diretamente a elas: feminicídio.

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Ficamos tão machistas que alguns pensam que é certo aquele ditado que lugar de mulher é esquentando a barriga no fogão e esfriando no tanquinho, e que pensam que ser macho é dar cantada em mulher na rua, que é bonito ficar assediando as garotas no ônibus ou no trem, que é legal tratar à colega de trabalho um pouco melhor por ela ser mulher e quem sabe possa comer ela depois.

Sabe esse texto é para aqueles que esperam a garota passar para falar algo no ouvido dela, é para os babacas que gritam de seus carros coisas do tipo OLHA QUE SAÚDE, O LÁ EM CASA, QUER UMA CARONA? COISA LINDA. GOSTOSA SE EU TE PEGO TE QUEBRO NO MEIO, entendam que esse texto é para mostrar a essa sociedade machista, que acha que masculinidade é ser superior, esse texto é para mostrar que o machismo já deu, que isso é errado, é coisa para ficar no passado, esse texto é para conscientizar as pessoas e a sociedade de que em uma pesquisa no datafolha em 2015 mostrava que 74% dos entrevistados que afirmaram que já foram assediados eram mulheres e que dessas 39% dizem que foram assediadas na rua, em uma outra pesquisa no mesmo ano de 2015, ao todo, 77% das entrevistadas afirmaram que foram vítimas de algum abuso físico sexual e 10% desses crimes ocorreram dentro de casa. As jovens foram abusadas por irmãos, pais ou parentes próximos.

Você consegue entender o quão hediondo isso é? o quão repugnante essa porra está se tornando?

Já em 2016 em uma nova pesquisa esse número aumentou para 86% das mulheres brasileiras que sofreram assédio em público e o Brasil registrou, nos dez primeiros meses do ano de 2016, 63.090 denúncias de violência contra a mulher, isso sem contar muitas que não contam o que estão passando e não entram nas estatísticas e somente com os dados da pesquisa de 2013 o brasil já entra na lista do quinto pais mais violento contra as mulheres.

E isso não é por acaso, é por conta da forma que criamos e deixamos cultural essa masculinidade tóxica, toda essa baboseira que homem pode e mulher não, que homem é superior e coisas do tipo. Mas sabe isso não quer dizer nada se não fizermos diferente, se você que está lendo tem um filho, o ensine diferente, não de exemplos de que ele possa se espelhar mesmo que inconscientemente, não deixe que o machismo seja natural para ele.

E se você for homem, pense à respeito do que você faz ou deixar de fazer achando que vai afetar sua masculinidade.

Tudo isso é foda para caralho, eu sou um cara que reflete muito sobre isso: masculinidade, sobre machismo e sobre como a cultura que vivemos, a criação que temos vai nós influenciando sabe? Claro que não determina quem você vai ser, mas influência.

E se você não parar para pensar sobre essas coisas, você vai fazendo e achando que é normal, que é natural e quando vê se tornou um boçal, que faz mal para as pessoas ao seu redor e achando que tudo que importa é você ser o durão, o macho alfa e o restante que se foda e te sirva, e isso tudo é bullshit, o máximo que você vai ser é um babaca.

Sou homem, tenho minha masculinidade e sou heterossexual, mas quando estou numa roda cheia de caras, as vezes tenho nojo deles, sabe a maioria não vê mulher como uma pessoa, como alguém que tem sentimentos, só vê como objeto mesmo, tratam como se fossem lixo, acho ridículo. Sabe as coisas que falam, que se vangloriam de terem feito, é  tão raso, são pessoas sem caráter, é patético, chegam e batem palma, disputam quem comeu ou pegou mais e não sei o que, com a maior naturalidade do mundo, para eles realmente isso é normal e é por isso que vejo bem com quem fazer amizade, somente porque não suporto essas coisas, esse tipo de pessoa !

Falar de mulher todos falamos, não estou querendo dizer que isso é errado, os puritanos que se fodam, ambos machos ou fêmeas falam sobre de quem gostaram ou tiveram atração, com quem sairão, se pegaram ou enfim… foda-se, o que estou querendo dizer é quando pessoas são apenas objetos umas para outras, e sei que para os machões que tem essa masculinidade toxica e que precisam se provar o tempo inteiro as garotas não passam disso: Sexo.

E se você é um desses e está lendo, digo para você que não adianta você comer uma loirinha, morena ou uma ruivinha, e discutir sobre qual delas gozou melhor com seu pau e ou qual era mais habilidosa em um blowjob, isso não vai te fazer mais homem, mais masculino ou menos afeminado. Isso só quer dizer que você teve uma transa muito boa.

Eu cresci ouvindo e vendo coisas machistas minha vida toda, por um tempo da minha infância e adolescência achei até que era normal, mas com o tempo fui vendo o quão horrível isso era, o quão errado eu também estava e que não queria ser mais um babaca no mundo, pois esse mundo está lotado deles já !

Eu choro, eu demostro meu amor pelos meus amigos, sim até os homens! Pela família e não tenho vergonha disso… sei que sou homem, tenho minha masculinidade e sei do que gosto e não é uma demonstração do meu afeto que vai mudar isso !

Mas todos somos mais frágeis do que demonstramos lembra ?

Então a maioria dos caras precisam de auto-confirmação, precisam se provar… e sua maior fragilidade está em não conseguirem demostrar, em se privarem de ser pessoas e terem relações afetivas verdadeiras com os outros, em pensarem que não podem porque se não vão ser viadinhos… e tá aí outra coisa que acontece para machões se acharem no direito de serem idiotas, babacas e ou brucutus; para não se parecer viado, bicha ou qualquer uma dessas palavras que eles amam usar para dizer que o cara é homossexual, afeminado, ou algo do tipo.

Como se por eles serem homossexuais fizessem deles menos do que outras pessoas, essa correlação que acontece é complicada demais, essa homofobia generalizada, esse preconceito que misturado com o machismo se potencializa e faz da masculinidade tudo que ela não deveria ser, como as características abaixo:

  • agressividade excessiva
  • medo de ser gay
  • medo de ser fraco
  • medo de ser feminino
  • busca por ser percebido como altamente sexual
  • fechamento emocional (evitar vulnerabilidade)
  • obsessividade com poder e dinheiro (expressadas de modo comum em relações auto-destrutivas com o trabalho)

O uso da palavra “medo”,  está relacionado ao motivo para usarmos como xingamento constante o fato de alguém ser gay, fraco ou feminino.

Odiamos aquilo que de algum modo tememos – seja por medo do contágio ou da identificação com o outro Jose Léon Crochik comenta sobre, em seu livro Preconceito, indivíduo e cultura.

Existe até mesmo o absurdo argumento de defesa “gay panic” (pânico de gays), que pode ser usado nos tribunais dos EUA para atenuar as penas em casos de assassinato. A “gay panic defense” diz que avanços indesejáveis de homossexuais podem levar a “violenta insanidade temporária”.

Essa construção de identidade baseada no medo é explicada na imagem a seguir:

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A imagem foi originalmente concebida pelo professor, psicólogo e pesquisador Jim O’Neil [ http://jimoneil.uconn.edu/ ]. A versão acima foi apenas traduzida por http://www.geledes.org.br.

Nesse contexto alguns clichês aparecem e não é atoa demostramos nossa força a todo instante, no auge de nossa capacidade de machões.

nos dividimos em quatro partes:

Os musculosos: malham, brigam, exibem os bicéps e tricéps.

Os inteligentes: articulam, comandam, estudam, dominam temas complexos e exibem seu conhecimento.

Os bons em games: acumulam mortes, pontos, rankings, medalhas e os exibem nas comunidades online, notórias pela presença massiva de outros homens.

Os ricos: gastam, acumulam, vivem experiências de riqueza, se gabam sobre como o que importa não é o que você tem, mas o que você é, e em seguida ostentam o que possuem.

O ponto é ressaltar o narcisismo tão comum a nós. Sabe esse desmedido senso de auto-importância, talvez só equivalente ao pânico de sermos desimportantes, fracassados e ou fracotes.

E esse tipo de esteriótipos prendem nós homens ao que é conhecido como “The Man Box”  que significa em uma tradução livre “A Caixa do Homem”:

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Com uma pequena analise da caixa do homem, você consegue perceber que o resultado dela são homens com emocionalidade restrita, sufocados, que acabam por adoecer e morrer, ou se autodestruir mais cedo.

Para se ter uma ideia, no Brasil, a expectativa de vida de homens está sete anos abaixo das mulheres.

Muitos homens ao redor do mundo sofrem de “Alexitimia”, uma condição caracterizada pela dificuldade em identificar e expressar os próprios sentimentos. Há pessoas que se sentem confortáveis sendo desse modo, mas outras tantas, não.

É como se homens passassem tanto tempo temendo se associar a qualquer coisa vista como emocional demais – ou seja, supostamente “mulherzinha demais” – que, quando precisamos dessa habilidade, nem sabemos como usar. E não por má vontade, mas pela mais pura e simples falta de treino.

No ápice, quando o homem se vê em um limite, isso leva à depressão, até mesmo ao suicídio.

Essa masculinidade que vivemos, aprendemos e repassamos é toxica, faz com que busquemos a todo momento provar que somos machos, fiquemos com tendencias a violencia, nós fechamos emocionalmente e nos tornamos homofobicos, fora nossa obsessão por dinheiro, mulheres e poder.

Ao meu ver precisamos eliminar e combater essa ignorância, essa irracionalidade que temos, e começar a pensar a respeito do que fazemos, de nossas atitudes como homens, não importando se é negro,branco, pardo, deficiente ou não. Com isso vamos fazer do mundo um lugar melhor, iremos passar a ensinar nossas crianças que masculinidade não tem nada ver com gênero ou orientação sexual, mostraremos que somos todos humanos complexos, nada é tão simples quanto parece e a vida vai nós ensinando isso.

E não significa que devemos proibir homens de expressarem sua agressividade ou sexualidade, existe à personalidade das pessoas também, mas repense ou reflita ao menos uma vez o porque você é do jeito que é.

Não quero com meu texto obrigar ninguém a sair falando dos sentimentos ao acordar.

Não quero que você mude o que você é, quero que pense e reflita a respeito do que você está se tornando, do que você está repassando para outros, de como suas atitudes vêem afetando você e as pessoas ao seu redor.

Atacar a masculinidade tóxica é buscar liberdade para todos, é deixar enfim a vida mais leve.

É permitir as pessoas escolherem sobre como desejam ser, sem que isso coloque em risco o quão homem ou mulheres elas são.

E para finalizar quero deixar aqui alguns termos e seus significados, para que vocês machos entendam que algumas de suas atitudes podem ser até crimes:

Assédio verbal
Palavras desagradáveis, ameaças ou cantadas sem consentimento de ambas as partes. É uma contravenção penal e o autor pode ser multado.

Ato obsceno
Ação de cunho sexual em local público a fim de constranger ou ameaçar alguém. É crime.

Assédio sexual
Constrangimento ou ameaça para obter favores sexuais feito por alguém de posição superior à vítima. É crime.

Estupro
Obrigar alguém, ou tentar perante violência ou ameaça, a ter relações sexuais ou a praticar outro ato libidinoso. É crime.

Bom vou deixar aqui as fontes da pesquisa realizada, que apontam dados e afirmam argumentos mostrados no texto acima e alguns podcast com depoimentos para que possam ouvir:

 

https://www.papodehomem.com.br/os-homens-estao-morrendo-porque-nao-conseguem-falar

https://www.geledes.org.br/masculinidade-toxica-comportamentos-que-matam-os-homens/

2013
https://economia.uol.com.br/empregos-e-carreiras/noticias/redacao/2013/03/08/52-das-mulheres-ja-sofreram-assedio-no-trabalho-falta-de-provas-dificulta-condenacoes.htm

2015:

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/brasil/2015/06/02/internas_polbraeco,485270/pesquisa-revela-que-77-das-mulheres-foram-assediadas-sexualmente.shtml

http://g1.globo.com/hora1/noticia/2015/05/pesquisa-revela-que-77-das-mulheres-ja-foram-vitimas-de-assedio-sexual.html

data folha 2015:
http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/2015/11/1703472-mulheres-sofrem-mais-assedio-no-transporte-publico-segundo-datafolha.shtml

2016
http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-05/pesquisa-mostra-que-86-das-mulheres-brasileiras-sofreram-assedio-em

http://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,brasil-tem-1-denuncia-de-violencia-contra-a-mulher-a-cada-7-minutos,10000019981

VIDEO SOBRE com estatisticas 2016:

http://noticias.r7.com/jornal-da-record/videos/estatisticas-revelam-nove-entre-dez-mulheres-sofrem-assedio-sexual-no-brasil-20052016

http://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2016-05/pesquisa-mostra-que-86-das-mulheres-brasileiras-sofreram-assedio-em

DENÚNCIAS
O Ligue 180 foi criado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres para servir de canal direto de orientação sobre direitos e serviços públicos para a população feminina em todo o país.
A ligação é gratuita e a principal porta de acesso aos serviços que integram a Rede Nacional de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher, sob amparo da Lei Maria da Penha, além de ser uma base de dados privilegiada para a formulação das políticas do Governo Federal nessa área.

 

Pele.

Com os dedos encravados no seu couro cabeludo eu puxo. Quero te puxar para dentro de mim ao mesmo tempo que estou dentro de você. Te puxo, puxo seu desejo para tudo que deseja, quero que você seja a mulher mais feliz do mundo durante estas horas. Se existe o desejo mais certo, este provável se torne o desejo louco. Não existirá nada além de você e deste lugar, dos cheiros e das sensações. Estes minutos se tornarão eternos, estas horas serão os próximos minutos e não haverá esquecimento até a próxima noite. Encravo os dedos e puxo seu cabelo. Sinto a força e escuto o gemido. A sua bunda bate no meu tórax num barulho que poderia acordar a vizinhança. Não há gemidos, tudo seria o silencio mais completo se pele não espalmasse com pele. O desejo externa no puro gozo da carne e estar dentro de você é o melhor lugar que eu posso estar.

Você geme a primeira vez.

Poderia pensar que estaríamos nus às três da manhã de uma terça-feira quando você me conheceu? Quem bebe vodka naquele horário não pode prever o próximo passo. Nós somos estrelas cadentes, moradores de terrenos baldios, sujos por natureza, não haverá uma história certa, concreta, abstrata, medonha que não possamos contar. Não sei, olhei e você olhou também. Bebemos juntos durante muito tempo e isto me rendeu o seu número de telefone. Tudo isso para que eu o esquecesse no fundo do meu casaco durante todos estes meses. Eu tenho este problema, penso nisto enquanto sua bunda bate na minha barriga. Tenho este problema e sinto o calor da sua boceta no meu pau. Tenho este problema e sinto o gozo vim, daí penso nos problemas e ganho mais uma hora de sexo selvagem com você.

Lembrando que você não atendeu da primeira vez, mas da segunda conversamos toda a madrugada. Não sei qual é a graça de se masturbar pelo telefone. Mandei algumas fotos, você outras, e já éramos íntimos à distância. Quando um relacionamento digital se torna completamente líquido, sua xota ao vivo não teria a mesma graça, pois já vi, já sei todos os seus segredos graças a tecnologia suprema do celular. Muitos nerds reunidos em uma garagem pensaram no sistema operacional que me fez enviar a foto do meu ereto pau para uma mulher em outro lugar, bem longe. Toda a inventividade da internet investida em pornografia barata, as vezes errada. Progresso.

Pensei nisto tudo porque queria gozar.

Quero te culpar pela boceta apertada, desgraça. Seus cabelos negros estão colados nas costas. Meu quarto é quente e você bate a bunda na minha barriga fazendo um barulho de pele com pele. Como bater uma costa da mão na outra. Te segurar pelo cabelo e te xingar: vadia, vadia, vadia, vadia. Sou machista só para fazer elas gozarem. O cheiro da carne com carne, o suor, o escuro e o barulho dos carros. Sempre terá aquele cachorro latindo a esmo, ou a buzina no cu da madrugada. Estamos intensos na nossa brincadeira e já penso nas conversas pós foda que dariam um bom texto. Quatro garrafas de cervejas vazias no pé da cama. Ela comprou cervejas de ótima qualidade com seu salário de funcionário público de um banco. Ela comprou uma noite em um motel que nunca poderia pagar, mas isso será no futuro, em uma outra história. Agora estamos aqui, no meu sétimo andar, fodendo e escutando cachorros latindo no cu da madrugada.

Os pensamentos acabam e o gozo vem. O gêiser primordial se entranha naqueles pelos pubianos. Tão raro uma mulher que não se depila. Ela, ainda de quatro, se vira fazendo escorrer partes minhas pelo travesseiro que irei me deitar depois. Suas unhas passeiam pelo meu corpo e sua boca chega cada vez mais perto. Nos beijamos e caímos novamente na cama. Logo mais, o terceiro tempo. Agora ela me contará de sua vida, das escolhas, dos sonhos e dos desejos. O sexo é a tampa aberta da intimidade. Escreveremos na carne todos estes momentos e no dia de amanhã seguiremos nossas vidas com esta intimidade guardada. Para sempre esta noite será nossa, para sempre este amor será seu.

Seu beijo me acorda pela manhã. Está vestida e pronta para partir. Ela se vai com sua vida, trabalho e seus sonhos. Eu fico com seu cheiro nos meus lençóis.

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Sobre Livre Arbítrio e Responsabilidade

Antes de debater se o livre arbítrio é ou não real, precisamos primeiro definir o que significa ser livre. Isso não é tarefa fácil, já que acaba envolvendo outros conceitos como os de responsabilidade, autocontrole e destino. Vejamos o que alguns autores têm a dizer sobre isso.

A concepção mais comum de “liberdade”, e que as pessoas costumam usar para argumentar sua não existência, é a de que liberdade é “fazer o que quiser”. Se não posso fazer o que quero o tempo todo, não sou livre. Tomás de Aquino, no entanto, tinha outra ideia de liberdade: Simplesmente fazer o que quer quando se tem vontade é ser escravo de seus desejos. Para ele, a liberdade consistiria na disciplina, que seria a capacidade de dizer “não” a algo que se deseja muito, por que se escolhe fazer isso.

Já Sartre afirmou que o homem é condenado a ser livre. O homem tem controle e é responsável por todas as suas ações, e dizer que ele agiu por qualquer outro motivo que não pela sua própria vontade, é cometer má fé. Essa visão se aproxima da dos estoicos, que diziam que nós não temos controle sobre nada do que acontece no mundo ao nosso redor, exceto de nossas próprias escolhas, pelas quais somos responsáveis.

Esses filósofos, junto da maioria dos racionalistas e positivistas, acreditavam que o homem possuiria controle de si mesmo, e com isso, livre arbítrio. Eles consistem no lado mais numeroso de pensadores na história da filosofia, mas sempre existiram aqueles que foram contra essa ideia:

Schopenhauer foi um deles. Esse pensador se interessou por estudar não a razão, mas a vontade humana, acreditando ser este o motor das ações do homem, e diminuindo o poder que ele acreditava ter sobre si mesmo. Foi ele o autor da frase “o homem pode fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”. Nesse sentido, mesmo que tenhamos controle sobre nossas escolhas, tudo o que podemos fazer é escolher ir a favor ou contra ao nosso desejo, sendo que é ele, e não a razão, que têm o maior poder sobre nós.

Outros filósofos “antirracionalistas” também acabavam questionando o livre arbítrio do homem: Hume afirmou que a razão é escrava das paixões, sendo sua função apenas a de encontrar a melhor maneira para satisfazê-las. Espinoza, por sua vez, escreveu sobre o conatus, ou “potência de agir”, a energia que move o homem, e afirmou que o homem desconhece as causas reais por trás de seu comportamento, e por isso pensa que é livre.

Mas talvez o mais famoso dos filósofos a seguir essa ideia tenha sido Friedrich Nietzsche. Nietzsche afirmou que, na verdade, nos comportamos como se houvesse dois de nós, sendo um deles nossa parte consciente. A sensação de livre arbítrio acontece quando essas duas partes entram em acordo e você consegue fazer aquilo que deseja.

Por exemplo: Quando você sente vontade de comer um bolo, mas consegue resistir e seguir sua dieta, você tem a sensação de que tem controle sobre suas ações, e que, por isso, o livre arbítrio é real. Já se você tenta fazer o mesmo, mas fracassa, aí então sentirá como se não tivesse escolha, e como se forças externas mais poderosas controlassem suas ações. É interessante que nesse caso, a definição de liberdade acaba se aproximando da ideia de Tomás de Aquino.

Nietzsche afirma que, quando assumimos o crédito por uma de nossas ações, é como se um rei assumisse o crédito de uma vitória sozinho, quando na verdade todo o seu reino participou da batalha. Para o filósofo, nossas ações são causadas por constantes conflitos internos entre forças inconscientes ativas e reativas, dos quais só vemos o resultado. A ideia de liberdade, portanto, existiria pelo fato de não termos acesso direto a essas forças, que são a causa do nosso comportamento, da mesma forma que Espinoza havia escrito.

As ideias de Nietzsche foram muito utilizadas por Freud na criação da sua psicanálise, com algumas pessoas chegando a afirmar que ela seria a filosofia nietzschiana aplicada à clínica (apesar de adeptos da esquizoanálise odiarem isso). Freud chamou as forças internas de Nietzsche de “pulsões”, a vontade de potência de “desejo”, e o conatus ou força vital de libido. Para o autor, a relação entre nossa consciência e nosso inconsciente, ou nosso desejo, seria como um cavaleiro sentado sobre seu cavalo: O cavaleiro está no controle, aparentemente, mas só na medida em que o cavalo permite ser controlado.

Saindo agora do campo da filosofia, vejamos o que a ciência tem a nos oferecer sobre a ideia de livre arbítrio.

Russel K. Standish define livre arbítrio como sendo a capacidade de agir contrariamente à razão. Saber qual é a escolha mais racional a ser tomada, e, ainda assim, agir de outra forma, é possuir livre arbítrio. Pode parecer uma definição estranha, mas faz sentido quando você pensa que outros animais agem da maneira que foram programados – seja por seus instintos, seja por condicionamento – e que inteligências artificiais não conseguem agir de forma irracional, e talvez por isso sejam tão perigosas.

Mas o fato de sermos capazes de agir de maneira irracional significa que possamos escolher agir dessa forma? Ou essa decisão é simplesmente tomada por nós e nós apenas sentimos ter uma escolha?

Segundo Standish, uma das teorias evolucionistas que explica o surgimento da autoconsciência, que é o primeiro passo para o desenvolvimento da ideia de livre arbítrio, é a seleção natural, que atua na competição entre predadores e presas: Ambos os competidores possuem vantagem sobre o outro se forem capazes de prever seu comportamento, e estão em desvantagem se seus movimentos forem previsíveis. A racionalidade e os instintos tornam os comportamentos dos animais e humanos previsíveis a um observador atento, então a capacidade de agir contrário à lógica, ou até mesmo aleatoriamente, em uma situação de confronto, pode ser questão de vida ou morte.

A autoconsciência surgiria, então, da contínua autoanálise do homem sobre seu próprio comportamento e da observação do comportamento dos outros. E o homem conseguiria, portanto, refletir sobre suas próprias ações e as consequências delas no ambiente a sua volta, tornando-se cada vez mais consciente de sua própria existência no mundo.

Essa autoconsciência, diz o autor, daria a ideia errônea ao ser humano de que, só por que ele tem consciência das suas próprias ações, ele seria capaz de controlá-las. Pior do que isso, faria o ser humano acreditar que ele, sua parte consciente, é causa primária de todos os seus comportamentos.

Isso não poderia estar mais longe de ser verdade, já que além da contribuição dos filósofos e psicanalistas para a discussão, hoje possuímos o auxílio da neurologia. Essa ciência descobriu recentemente, para a surpresa e indignação de muitos, que nosso cérebro toma decisões por nós segundos antes de termos consciência delas. Isso talvez comprove a ideia defendida por fulano, já que faz da consciência um mero observador dos processos de decisão que ocorrem em nossa mente. O que acontece é que esses processos são inconscientes, e ocorrem tão rapidamente que acreditamos ser a fonte deles.

Então, ao que parece, a ideia de livre arbítrio pode ser apenas um mito. Mas como ficaria então a questão da responsabilidade sobre nossos atos? O fato de não termos liberdade nos exime dela?

Paradoxalmente não, e essa é a tragédia da existência humana que Lacan descreveu em seu seminário sobre a Angústia, ao usar da tragédia grega para explicar a condição humana. A peça escolhida por ele para análise foi Antígona, de Sófocles, a terceira parte da trilogia de Tebas, iniciada com a famosa história de Édipo, já analisada por Freud anos antes.

A peça conta a história de Antígona, filha-irmã de Édipo, que desafia o rei de Tebas, que havia proibido o sepultamento de seu irmão Polinice, mesmo sabendo que seria condenada à morte por isso. Antígona afirma não ter escolha, já que as regras sagradas, as leis não escritas dos deuses a obrigam a realizar aquela tarefa, e essas leis são maiores do que qualquer proibição de um rei mortal.

Lacan afirma que essas leis não escritas tratam-se da lei do desejo, que é aquilo que move o ser humano. Essa lei condena o indivíduo a buscar a realização do seu desejo, independente das consequências que tal busca possa lhe acarretar. Isso vai além do princípio do prazer freudiano ou de qualquer moral externa que o homem possa criar.

O ser humano, portanto, é movido pelo seu desejo, independente de sua vontade, ou de estar consciente disso. A intencionalidade ou o uso da razão são irrelevantes, já que o inconsciente do sujeito (ou o sujeito do inconsciente) se moverá, de qualquer forma, na direção de seu objeto de desejo. Por isso, para este psicanalista, assim como para Freud, estamos mais pertos de nosso desejo real – e, portanto, das forças ativas por trás de nosso comportamento – quando nossos atos falham, e não quando acertam.

Todo o processo de planejamento e deliberação de nossas ações ou falas é feito pelo nosso Eu (ego), nossa parte consciente. Mas como uma das funções do Eu é reprimir o conteúdo inconsciente perturbador, muitas ideias acabam sendo censuradas, e não chegam à nossa consciência quando estamos fazendo planos. Já quando somos surpreendidos por uma palavra dita ou um gesto feito na “hora errada”, pode ter certeza que este é o seu desejo reprimido que conseguiu se manifestar pelo lapso.

Dessa forma, mesmo que o indivíduo não tenha controle total sobre suas ações, sendo escravo de atos falhos e desejos reprimidos, e por isso não sendo totalmente livre, ainda assim, seus atos são a manifestação de seu desejo inconsciente, e portanto, ele é responsável por eles.

Essa não é uma conclusão muito animadora, mas é uma forma de aliar a ideia de livre arbítrio e responsabilidade com a do determinismo psíquico dos irracionalistas: Não somos livres, porém, somos responsáveis pelas escolhas que nosso inconsciente faz à nossa revelia.

Somos dois, como Nietzsche havia escrito. Resultados de forças internas das quais não temos conhecimento ou controle, como Schopenhauer e Espinoza haviam afirmado. Mas ainda assim, condenados à responsabilidade por nossas ações, sem direito a recorrer à má-fé, como Sartre nos ensinou.

Essa coisa de existência é realmente complicada.

Resenha do Livro Preciosa

Esse livro relata a vida de Claireece Precious Jones e sua evolução. Uma adolescente do Harlem que sofreu abuso físico e psicológico do pai e mãe desde a infância, e acabou engravidando duas vezes. Ela nunca tivera amigos ou alguém com quem pudesse contar.

Sem saber se comunicar, ler e escrever, Precious é inspirada a mudar de vida por meio da professora que conhece na escola onde passa a frequentar, de maneira que conhece novas garotas e se tornam suas amigas com o passar do tempo. Sendo assim ela passa a ouvir outros relatos tristes de outras pessoas. Uma realidade que talvez não esteja em nosso cotidiano, mas nos faz perceber que existem seres humanos cruéis e infelizmente estão ao nosso redor, mais próximos que queremos e/ou imaginamos.

Conforme a narrativa é abordada nos é mostrado que embora uma situação esteja difícil ela pode piorar, mas também reforça que com vontade podemos e conseguimos vencer qualquer empecilho e obstáculo, mas nunca só, sempre com a ajuda de alguém. O que chama atenção nesse enredo é o quanto mais praticamos algo, isso nos leva a perfeição, no caso da Precious a leitura e escrita foram primordiais para uma vida diferente, com mais esperança. Recomendo a leitura!

Melancolia

Mais um daqueles dias…

Uma certa melancolia me abate

Não sei o porquê

Nunca sei

Algo que me lembra muito

Um mar de águas frias e cinzas

Mas calmo de certa forma

Não sei se devia desistir de entender

Ou se devia investigar com mais afinco

Não sei de nada

Talvez eu devesse me distrair

Talvez eu devesse procurar o que fazer

Talvez eu devia fingir

Que essa melancolia não é real

Por hora

A única coisa que me ocorre

É ouvir Nina Simone

E navegar na internet

Com licença

Se.

Talvez, se eu tivesse te conhecido antes. De todos os sorrisos dados no passado, provavelmente eu seria dono de uma parte deles. Nosso tempo juntos tinha prazo de validade, eu sei, quando eu te conheci sabia muito bem quando iria dizer adeus. Também penso que quando te conheci, não saberia que deveria ter te conhecido antes. Somos frequentemente invadidos pelos sentimentos confusos, pela ideias difusas, pelos minutos, segundos e horas que não pertencem a nós. Nos nossos opostos, seguimos caminhos paralelos, destrutivos, e distintos.

Você me disse que já tentou morrer.

Todos nós tentamos morrer pelo menos uma vez na vida. Nas marcas da sua alma, nas marcas da sua pele eu entendi que a morte, quando te sorriu, também quis te fazer sorrir. Mas não devemos confiar na morte, ela mente para nos levar. Ela é tão solitária quanto eu e você, ela é tão triste quanto eu e você, ela nos quer, nos deseja, talvez por sermos especiais, talvez por sermos estes Kamikazes indo em direção ao vento divino. Talvez, se eu tivesse te conhecido antes, te ensinaria que estes remédios que aos montes matam, podem curar quando não tomados. Que este passado que marca a pele, também pode ser uma força vinda do obscuro, para que a pele esteja mais forte. Que rir faz parte, chorar também, que amar é a maneira mais concreta de se enganar.

E de se entorpecer.

Eu te disse, você precisa amar!

Eu te disse, você precisa aprender!

Você precisa se masturbar numa manhã de sábado solitária, escutando Chet Barker, afogando-se no próprio deleite da alma.

Você precisa deixar de ter medo. Mas, o medo é você, tu me disseras, que o medo é o que te faz estar aqui. Que sua briga, sua vontade de estar viva é a briga com o medo. Eu também tenho medo, também tenho medo desta briga, de perder, de me encontrar perdido, desencontrado.

Lembrei do seu sorriso.

E os cabelos cacheados molhados.

Se eu tivesse te encontrado antes, talvez teria sido dono dos seus sorrisos, dos seus beijos, do seu corpo.

Do seu prazer.

Das vezes que te ensinei sobre as estrelas, e sobre tomar decisões. Quando me meti na sua vida tentando concertar, mesmo sendo o ferreiro do espeto de pau. Na honestidade da nossa despedida, na honestidade do te vejo amanhã, vejo também a honestidade do “dificilmente te verei de novo”. Mas imagino-te no futuro, vitoriosa, cansada, crescendo. Imagino que não se esquecerá tão fácil de mim, pois a semente que pus em sua cabeça germinará. Quando menos esperar terá se lembrado de mim.

E das coisas que eu dissera.

Mas, eu me tornei um animal otimista também. Me dissera para abrir os olhos e o sorriso. Terei isto na minha parede até que a cola se termine e na minha mente até que meus dias se acabem. Terei nas quartas e quintas algumas nostalgias. Pensamentos estes, do passado, que serão ainda mais um bloco no eterno quebra-cabeça da vida.

Mas se eu tivesse te conhecido antes, quem sabe não seriam as semanas todas.

Eu te imagino na minha cama às seis da manhã, pensando na besteira que acabou de fazer.

Eu te imagino na sua cama, às seis da manhã, com insônia, medo e planejando o que vai fazer.

Nestes dos universos paralelos, você é você, com seus erros e acertos, na eterna busca do sorriso. E agora, ao sorrir pensará que pelo menos este que está estampado no seu rosto agora me pertence.

Como também o que está no meu rosto também te pertence.

E nestes dois universos paralelos, em um meu cheiro ficou no seu travesseiro, no outro, na sua mente. Nestes dois universos eu serei distante, um pouco ranzinza, mas te farei rir. Nestes dois universos você, através do seu jeito teimoso fará o mundo acontecer, aprendendo cada passo (tardio), aprendendo cada sentimento, palavra, gesto, silêncios e barulhos. Me faria professor, mas também aluno. Ensinaria a ti coisas mundanas, tu me ensinaria coisas angelicais, e nesta completude nosso tempo decairia, pois somos almas que vivem na ampulheta dos desejos.

E um dia te veria partir, de qualquer forma.

Este dia chegara antes das nossas descobertas. Mas se tivéssemos nos conhecido antes…

 

Cinco garrafas enterradas na areia.

Eu enterrei a garrafa vazia de cerveja na areia da praia. Está nublado e é tarde. As ondas vão, as ondas voltam. Poucas pessoas caminham, conversando, com os filhos, sozinhas, vendendo. Me livrei do vendedor que me importunava e continuei observando o ir e voltar das ondas. Eram quatro garrafas vazias na areia, uma na sacola e outra eu estava abrindo. Elas esquentam com o passar do tempo, perdendo o sabor do “recém saído da geladeira” E as coisas frias são as melhores para os paladares bobos.

Sem nenhum contexto especial, era minha forma mágica de matar a crise de ansiedade. Pegar um ônibus, comprar algumas cervejas e ver o mar reclamar. Estar em casa respirando num saco fazia a voz da morte falar no meu ouvido. Meus discos e meu lugar escuro não ajudariam a pobre alma arranhada que eu tenho superar mais uma vez meu estado psicológico sobrepujar meu estado físico. Me ver definhando no escuro, deitado no sofá, assistindo a patética programação da televisão. Suando picas numa sala quente, onde a ventilação do mundo se torna um ventilador, morto como a alma do bêbado Josué da esquina lá de baixo. Aqui, nestes pensamentos mundanos que ululam na minha cabeça sempre, consigo abstrair.

Os roupantes de raiva, as vontades de auto-destruição e de destruir. Mais uma garrafa na areia, mais um pouco de gosto amargo na boca. Beber é sofrer, viver é sofrer. O mar parece convidativo para um mergulho sem volta, será que se eu nadar em linha reta chego nos Estados Unidos ou na África? Não me importa, seria comido por tubarões no mínimo. Lembro que não sei nadar e abro a última. A noite vem caindo devagar, estou aqui aprumado a não sei quantas horas. O cinza se tornando azul, o azul tamborilando na areia, encharcando os pés de uma criança barulhenta. Seus gritos e risos não eram incômodos, eram divertidos, uma pequena fagulha de alegria. A mãe arrastava a menina pela areia, falando ao celular. As duas desaparecem na longitude da minha vista. Tudo vi ficando cada vez mais denso e as luzes do pier se acendem.

Pouco a pouco as meninas e os meninos chegam, toda a juventude que vem para se divertir. Hoje é sábado, eles vão brincar e sorrir. Penso nas coisas que fiz e que deixei de fazer. Muitos anos antes eu era um daqueles, lá no pier, aproveitando também a vida. Você fica velho, prefere a solidão, faz parte. Estar sozinho é a melhor companhia, pois já sabemos em que vamos nos decepcionar, e este é meu caso, o velho e a decepção. Com esta garrafa já sem nenhuma temperatura negativa, ficando cada vez mais leve, o fenômeno da sede mesmo com bebida acontece, é o ruim de ficar vendo o mar por tanto tempo. Como se tivesse mergulhado espiritualmente nestes braços vagabundiais deste elemento azul alquímico.

Enterro a quinta garrafa na areia, vou deixar este lixo aqui para que as tartaruguinhas morram. Toquei um que se foda para a vida. Vou matar o resto da noite em algum bar, resolver minha ansiedade com outro veneno.

E logo o mar virou um borrão escuro nas minhas costas, levando minhas sobras para a sua profundezas. Misturando o vidro, o plástico e as lamentações em mais um pecado que eu cometo.

Mais um ano…

Ano novo, meta nova.

Mais um ano se inicia

Não sei o que esperar

Pode ser incrível

Pode ser terrível

Não há como saber

Mesmo consultando a melhor vidente

Pois cada decisão

Modifica o futuro

E a beleza dele é a incerteza

Neste novo ano

Defini apenas uma meta

Vou tentar

Com todas as minhas forças

Da forma que for

Ser o mais feliz possível

Uma meta só

Talvez assim seja melhor

Do que fazer uma lista

Repleta de coisas impossíveis

Ou improváveis

Tente você também

Apenas um objetivo em seu horizonte

Tente com todo afinco

Você pode se surpreender

De uma forma positiva

Por que não?

Apenas tente

Faça desse ano o seu ano

E não se preocupe

Alguém certamente estará lá

Caso você não consiga