São Paulo, Favela do menor.
Uma hora antes.

Era noite. Estava frio e com neblina.
aguardávamos dentro dos carros, a ordem do nosso líder.
enquanto isso ouvíamos rock ‘n’ roll em uma estação do rádio e nós preparávamos.

– Passa a garrafa pra cá Mike, arranco de sua mão e dou um gole, sinto o liquido descer queimando por minha garganta.

O único som que escuto é dos goles e do líquido balançar na garrafa.

Acendo o meu cigarro, meus sentidos estão bagunçados e por um momento sinto como se o mundo girasse em torno da minha cabeça. O efeito do álcool é intenso e por alguns instantes faz com que esqueça do que estou prestes a fazer.

A noite está fria, mas não tão fria como o medo e indecisão que percorrem o meu ser.

– Vamos Brian, Bárbara e Roger está na hora. – Mike falava enquanto colocava a sua máscara.

A garrafa de Whisky está no fim, meus cigarros estão no fim e por coincidência o tempo de espera chegou ao fim, puxo do porta luvas minha máscara de palhaço, olho para ela por uns segundos e penso se vou mesmo coloca-la, dou um último gole no Whisky, guardo-o no porta luvas dou mais uma tragada no cigarro, jogo ao relento e coloco a máscara.

– Lembra das regras? Questiona Mike sem demostrar a quem perguntava, apenas soltando a frase no ar. Nunca chame por nossos nomes, na hora que estiverem invadindo. E não faça reféns, esses caras vão te matar se tiverem oportunidade e por último… seu dedo nunca deve deixar o gatilho e atire se achar que deve, não importa quem seja.

Olho ao redor e vejo todos já mascarados, com armas e alguns com mochilas nas costas, onde carregavam mais armas, munições e granadas. Somos em quatro no impala 67, eu sou a única mulher no meio desses homens, se não fosse Mike talvez eu nunca estaria junto deles, mas Mike disse que sou durona, que dou conta e todos confiam em Mike, não vou desapontá-lo.

Nos outros carros temos mais pessoas, mais homens e mulheres que também são durões, essa noite estamos com toda a trupê. Vários opalas diplomata e versão SS, fora os Golfs GTI e Gol quadrados todos carros de malandros com insulfilm e a maioria rebaixados, o que estou dirigindo é o único impala, que é de Mike o nosso líder, o silêncio incomoda, os sentidos bagunçados pelo álcool e drogas prejudicam a nossa intuição nessa noite. Mike levanta minha máscara e me beija, diz entre sorrisos que me ama e que vai dar tudo certo, retribuo e digo que está tudo bem. Mas não está, estou com medo.

Nunca fiz isso antes, bom pode parecer bem clichê essas máscaras de palhaço, um grupo armado e com um carro v8 sedan.

Mas isso não é filme de Hollywood e estamos no Brasil.
Não vamos assaltar bancos, e nem qualquer tipo de comércio local ou empresas.

Nós vamos tomar um morro, invadir uma boca e isso quer dizer meus amigos, guerra.

O que não sabíamos, que nesse mesmo dia o líder do morro pagava o “arrego” para polícia corrupta e milícia, para eles não subirem o morro, e não atrapalharem o negócio, porem a Narcóticos de São Paulo tinha montado uma emboscada para pegar a negociação de ambos e prender os evolvidos, afim de acabar com o tráfico naquela região.

E entre nós os “palhaços”, tínhamos um traidor que nos levou para o abate.

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