Dedo no gatilho

Capítulo 3 – É a guerra neguin.

Nas favelas do brasil o tráfico é pesado, a desordem impera e todos sabemos se admitirmos atitudes violentas como algo normal no desenvolvimento de crianças, o padrão será de maior violência quando essas crianças se tornarem adultas, e na favela a violência é a melhor amiga das crianças.

Aqui os de menor se tornam homem mais cedo e o armamento dos traficantes que nem sempre já passaram da adolescência são de calibre alto, os mesmos usados por soldados em guerras, temos armas que furam carros blindados como se fossem papel, armas que com rajadas podem derrubar até helicópteros.

Para garantir a eficiência do negócio temos hierarquia e Mike é o líder que todos queriam ter, ele planeja e faz com que o abastecimento de cocaína, maconha e outros entorpecentes sejam constantes, fora a organização dos soldados para segurança da boca que é prioridade, pois policial e membros de outras quadrilhas não sobem o morro dos palhaços.

Mas o tráfico é como uma empresa, ela cresce e tem mais funcionários e gera mais dinheiro, ao ponto de ter de expandir o negócio. E essa noite eu e meus parceiros estamos fazendo isso, vamos transformar um novo morro em território nosso, escolhemos o morro do menor e para isso trouxemos artilharia pesada, o inimigo nem imagina que hoje vai ser seu último dia na terra.

Os primeiros a serem abatidos são os aviõezinhos com tiros silenciosos para não alertarem os outros na favela sobre a invasão, o grupo de Bárbara é bem treinado, Mike já fora policial, mas foi expulso da organização e preso por muitos anos por corrupção, conseguira fugir e agora se tornou líder de uma quadrilha, Brian quando entrou para o bando disse que é um lobo solitário e que matava homens por dinheiro, Roger por outro lado já argumentou que trabalhou como braço direito de outros donos de morro, por isso conhece bem as favelas e tem respeito e privilégios em vários morros, Bárbara apesar de nunca ter lutado ou matado alguém no tráfico, foi treinada desde cedo por seu pai que fora soldado do exército brasileiro, ele a ensinou a caçar e sempre incentivou a filha a praticar lutas, como muay thai e jiu jitsu, fora a pilotar carros, motos e a praticar tiro ao alvo.

– Caralho Bárbara os dois nem perceberam que morreram, tenho certeza. – Disse Mike com um sorriso estampado no rosto.
– Tenho uma ótima pontaria, treinava muito com meu pai. – Mas essa história fica para depois que terminamos aqui.- Bárbara completou com um sorriso nos lábios, segurando sua AK Colt com silenciador.

Cada grupo se espalhou para as posições que Mike planejou e todos estavam indo para o ponto de encontro que era o alto do morro, e pelo caminho a ordem era matar todos e qualquer um que vissem nas ruas, era madrugada, fazia frio e estava com uma neblina no ar, as primeiras gotas de chuva começavam a cair então na cabeça de Mike teria apenas os soldados do morro do menor, mas esse erro custou caro, mal ele sabia que naquela noite o morro do menor estava cheio de porcos de farda.

Brian avistou um policial conversando com um sujeito que segurava uma AK-47 e estava sem camisa, de bermuda e chinelo, o policial parecia contar o dinheiro que fora entregue em um envelope, satisfeito estava voltando para o carro quando um homem do nosso grupo deu um tiro de sete meia dois na cabeça do traficante que acabara de entregar o envelope, o policial se assustou e atirou no palhaço, que perdeu metade da cabeça e ficou estirado no chão, o policial se virou novamente e viu Bárbara, Mike e Brian de esguelha na parede com fuzis de assalto na mão e começou a atirar neles, mas um outro palhaço acertou o policial no peito, que caiu, mas não morreu pois estava com colete aprova de balas, a polícia que já estava no local começou a revidar, os traficantes do próprio morro começaram a sair dos seus postos de vigia e em poucos minutos aquilo se tornou um campo de guerra.

O céu estava rifado de balas. As ruas sangravam, e naquela madrugada policiais matavam traficantes, milícia atirava na polícia e traficantes matavam traficantes e a guerra estava armada, o caos fora estabelecido com o dedo no gatilho.

Homens, mulheres e crianças morriam.
Balas perfuravam crânios, pessoas e casas, inocentes morriam e se escondiam em baixos de suas camas, balas perdidas podiam encontrar e matar qualquer um que passasse.
Isso é a guerra, a tensão triplica e quando a chapa esquenta, alguns morrem, outros fogem, vários correm e largam a ferramenta no chão.

– Porra, porra, caralho o que está acontecendo aqui, não era para ter polícia. – Gritou Mike desesperado, enquanto atirava em um ou outro que aparecia na sua mira.
– Vamos recuar, gritou Mike apontando para Bárbara voltar na direção dos carros.

Granadas explodiam e mutilavam pernas e braços, jogavam estilhaços em todas as direções e em uma dessas Roger fora atingido no meio da testa na frente de Bárbara, seus miolos ainda estavam na sua máscara e seu sangue na camisa xadrez dela, que de preto e branca ficou de um vermelho vivo, Bárbara não estava conseguindo enxergar direito por conta do sangue na máscara, e tomou a decisão de tira-la.

A trupê começou a correr e atirar, a maioria voltando para os carros, outros estavam em posições menos privilegiadas e eram obrigados a ficar na batalha, Bárbara já ouvia sirenes que indicava mais polícia chegando, e gritava para Mike; – Vamos sair dessa, não sei o que aconteceu aqui, mas vamos sair dessa…
– Cadê a porra da sua máscara? – Gritou um Mike furioso, enquanto Bárbara dava de ombros e continuava correndo e atirando.

Mas quando estavam chegando na saída da favela do menor, aonde se encontravam o impala e os outros carros, uma bala atingiu a perna de Mike que caiu estatelado no chão.
Brian foi rápido e o pegou, jogando seu braço no ombro, Bárbara se ajoelhou e deu cobertura aos dois, dando tiro nos homens que estavam em seu encalço, mas outra bala veio de uma laje acima deles e acertou as costas de Mike fazendo um rombo e o arremessando para frente, já morto.

Bárbara matou o sujeito que estava segurando uma doze de cano serrado, ela voltou a correr. Estava a poucos passos do impala, Brian a seguia e dava cobertura, ele disparava com uma Colt AR-15 enquanto ela abria o carro, quando ela conseguiu abrir a porta, ouviu o barulho de um tiro muito próximo, fechou os olhos pois jurava que fora atingida e quando se virou para olhar para trás, percebeu que Brian acabará de salvar sua vida, levara um tiro que era para ela, e estava de joelhos com a mão na barriga, o traficante na sua frente com uma M4A1 prestes a finalizar o serviço, a arma apontada para cabeça mascarada de Brian, o homem já com o dedo no gatilho, Brian com os olhos fechados esperando o segundo tiro, houve o estrondo do disparo.

E ele achou que tinha morrido por um momento, mas ao abrir os olhos o traficante na sua frente estava no chão morto com uma bala entre os olhos.

– Brian, Brian tente ficar de pé, vamos até o carro. Bárbara tirou sua máscara e o beijou e disse; um passo depois do outro, vamos.

Brian só pensava em uma coisa, enquanto caminhava cambaleando; – por que se jogou na frente de Bárbara e levara um tiro por ela, ele sabia que gostava dela depois que ficaram algumas vezes, mas não havia percebido até aquele momento que estava apaixonado, ela era uma vagabunda, mas era uma boa pessoa. Brian continuou andando e sacudindo a cabeça, dizendo pra sí; – estou vivo… ainda estou vivo.

Bárbara o deixou no banco de trás, fechou a porta e foi para o banco do motorista, acelerou e saiu o mais rápido que podia dali, viu o caos que se encontrava a favela, sangue, fogo e tiros por todos os lados.

É a guerra neguin, ali era a linha de frente, viramos a notícia que alimenta a imprensa, naquela noite noticiários e jornais do mundo inteiro marcaram presença e quando Bárbara pensou que estava livre para fugir daquela violência, ouviu o barulho de sirenes e helicópteros da imprensa a sua espreita.

O que seria noticiado e lembrado durante anos como a guerra dos três coelhos, havia apenas começado.

 

Anúncios

Sobre Thiago D.

Minha maior arte é a forma que eu vejo o mundo e as coisas que acontecem ao meu redor, tenho uma empatia muito grande, entendo como as coisas estão acontecendo ou devem acontecer e isso ajuda na minha percepção para fazer sistemas, estruturar raciocínios lógicos e a construir textos, contos e afins. Busco colocar em palavras os mais diversos sentimentos e sensações, o que escrevo não é autobiográfico, eu chamo de usar a vida como matéria prima. Meu jeito de escrever é esse, e se me perguntarem isso é ficção? Ou não é ficção? – Está no papel(no caso, tá no blog), aconteceu ou não, é ficção.

0 comentário em “Capítulo 3 – É a guerra neguin.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: