Dedo no gatilho

Capítulo 6 – Pé na porta e tiro na cara.

São Paulo, Favela do menor

Agora.

As câmeras do helicóptero da emissora de jornal, gravavam as cenas e transmitiam ao vivo para o mundo, tudo que acontecia no complexo do menor.

– FILMA ALI, aquele blindado tá subindo o morro, e aqueles moleques encima da laje tão olhando diretamente para ele. – Disse a jornalista eufórica.

Os traficantes avistaram a porra de um blindado subindo o morro e quando subia blindado, os menor corriam, pois sabiam que quem ficasse morria, mas hoje era diferente, nessa noite era GUERRA.

– Traz a bazuca, gritou um moleque que não devia ter mais do que dezesseis anos.

Hoje era tudo ou nada, pai de família morria, menores morriam, palhaços faleciam, fardados iam para vala, familiares perdiam entes queridos e atrás das câmeras marmanjos sorriam.

A câmera capturou o momento em que três dos moleques estavam carregando a bazuca com dificuldade e quando chegaram na beira da laje se agacharam, o maior que pediu a arma, a posicionou enquanto os outros seguravam, e puxou o gatilho.

Mas dar tiro de trinta e oito, sete meia dois e Glock é uma coisa, o coice as vezes é forte para o tamanho deles, mas nada surreal e com submetralhadoras a situação já muda um pouco, pois eles são pequenos. Mas quando você dá um tiro de bazuca o negócio é diferente, o barulho é ensurdecedor, a pressão gerada é forte o bastante para arremessar os quatro moleques para trás.

A câmera filmava tudo, e naquela noite um míssil acertou o blindado em cheio, a explosão foi grande.

– Porra você viu o que aqueles moleques fizeram? Eles atiraram a porra de um míssil no blindado cara, um míssil você está entendendo? – Disse a jornalista em desespero.

As imagens que eram mostradas ao mundo chocavam centenas de milhares de pessoas, que não desgrudavam os olhos de suas televisões.

Naquela madrugada o mundo vivia um momento histórico.

Nas redes sociais do mundo inteiro as pessoas comentavam, compartilhavam as cenas que subiram para Youtube daquele caos, era a globalização na era da internet fazendo seu trabalho de casa.

Em um outro ponto estavam dois policiais que queriam acabar com aquele caos de uma vez e avançavam no morro rapidamente, matando todos que apareciam na sua frente, matavam palhaços e traficantes do menor.

Um carregava uma metralhadora UZI que é uma arma portátil, para ser usada com apenas uma mão, e ideal para operações de campo e o comandante estava com uma BERETTA MTR Mg Mg72, Leve, a metralhadora é usada para operações de assalto. É a mesma arma que equipa as Forças Armadas brasileiras e ambos estão indo em direção a casa do menor, que ficava bem no cume daquele morro.

Ambos escutaram o barulho dá explosão, mas continuaram avançando. Tinham que terminar a missão, matavam todos que podiam nas ruas, mas nas lajes haviam muitos traficantes, os blindados e o falcão estavam a caminho e iam ajuda-los a limpar o morro, conforme os esquadrões subiam o morro, uma equipe de retirada de civis resgatavam as pessoas de suas residências, muitos morriam, gritavam, brigavam, choravam, se mijavam de medo e desespero, não por menos pois da casa confortável aonde as pessoas viam a cenas na TV era fácil assistir, do apartamento era impressionante ver aquele bando de favelado morrer, mas quero ver quem fica calmo quando no meio da sua sala entra policiais fardados armados até os dentes, querendo te retirar de uma zona de guerra, quando no meio do jantar sua mãe falece com um tiro de fuzil ar-15 bem na sua frente ou quando depois de meses e anos de vida trabalhando que nem um condenado para mobiliar sua casa todinha e manter sua família bem com muito suor, você ver tudo ser destruída por centenas de balas, pois nós estamos sempre em despedida, sem saber.

Do Tríplex é fácil compartilhar e comentar, quero ver você colocar a sua na reta como todo favelado coloca todos os dias, nessa selva de pedra e dizer depois que é isso mesmo, polícia tem que invadir morro e matar geral.

O falcão emergiu no céu, que tá rifado, porém não é de estrelas… é de balas, alguns contariam histórias sobre esse dia e diriam que o morro estremeceu quando aquela máquina de guerra surgiu no ar, era negra e fazia um barulho ensurdecedor com suas turbinas, impulsionado por duas turbinas (turboshafts) de oitocentos e noventa cavalos cada. Essa força pode levar o helicóptero a velocidade máxima de duzentos e setenta e oito quilômetros por hora e permite levar cerca de setecentos quilos de armamentos, como foguetes e mísseis anti-tanque fora que é equipado com duas metralhadoras BROWNING.50, que pesam doze quilos cada, com aproximadamente 1,65 cm de comprimento e uma velocidade de disparo equivalente a seiscentos tiros por minuto, essa “ponto-cinquenta” tem alcance útil de 1500 metros e é capaz de abater até helicópteros com suas rajadas.

Essa maquina é feita para guerras e no brasil é utilizada para invadir morro, você consegue entender o quanto hediondo isso pode ser para sociedade, os primeiros a serem atingidos foram os garotos com as bazucas, as imagens gravadas eram impressionantes, as balas rasgavam os garotos como se fossem papel.

Nos trends topics mundiais estava a Hashtag #TaComDóDeBandidoLevaPraCasa , só se via comentários do tipo;

– Tá com dó do bandido ? Leva pra casa pra cuidar, tem que matar bandido mesmo, bandido bom é bandido morto.

– Nós vamos ficar sustentando bandido? Tem que morrer tudo, vai pra vala.

Nesse ritmo milhares de pessoas davam suas opniões e um vlog brasileiro publicou um vídeo que rivalizou em instantes, se destacou com centenas de milhares de compartilhamentos no Facebook, Twitter, Youtube e Whatsapp, o cara escrachava a parada e tentava focar no real problema e falava assim no vídeo;

– Em primeiro lugar, vamos começar a falar aqui o bagulho. Por que você acha que no período de um ano, lá na suíça, por exemplo, não acontece a quantidade de crimes que acontece em uma tarde em São Paulo?
– Será que é porque o povo de São Paulo é sem vergonha? A gente gosta de fuder os outros? do tipo: não to fazendo nada aqui, acho que vou pegar uma arma e assaltar a galera, ou será que tem alguma relação direta com o fato de que na suíça ninguém passa fome, e que lá não existe miséria, desigualdade social, má distribuição de renda, corrupção.

– Será que tem alguma relação com o fato de que lá ninguém vê o filho passando fome ? Morrendo, porque não tem uma caixa de leite pra dar pro moleque não morrer de fome !

– Você acha que alguém gosta de ser criminoso ?

– Você acha que não tem uma relação, entre onde existe condição para sobreviver não existe crime, você consegue fazer a conexão do bagulho ?

– Mas agora já sei o que você vai dizer:
Que eu to defendendo bandido.

– Não tem que ter piedade, não é isso que to falando aqui.
– O que eu to tentando fazer é chamar a atenção pro foco do problema.
Para o epicentro da caralha.

– O bandido, ele não é o protagonista, ele não é o pivô da desgraça ele é só… como eu posso dizer ?

ele não é o vírus, ele é o catarro que sai do seu nariz, entendeu ?
ele não é o vírus, ele é o catarro.

– Você tá lá soando o nariz e tentando tirar o catarro, mas o problema é o vírus.
Olha que analogia escrota, jesus.

Ai você vai falar: é mais tem um monte de gente passando necessidade ai que nunca precisou roubar, porque a pessoa não vai procurar um trabalho ?

nem que seja para fazer malabarismo no semáforo, mas vai roubar porquê.

Mas é fácil falar, né mano ? você ai usando seu computador, dentro do seu lar confortável, tem almoço pra você todo dia, sua mãe te fala boa noite na cama, aquela história linda, aquele romance maravilhoso.

Ou então você que trabalha e paga suas coisas, mas só tem emprego porque teve estudo que sua família pagou e te tornou uma pessoa mais qualificada para o mercado de trabalho, você tem uma boa roupa, uma boa cara, todos os dente na boca e tal, é fácil se orgulhar de uma honestidade que nunca foi posta à prova, né ?

Mas “Eu queria te ver lá, tiriça, pra ver aonde você ia enfiar essa merda do teu senso de justiça”. ♪
– Emicida.
e finalizava o vídeo.

Enquanto as pessoas no mundo assistiam e comentavam tudo, o comandante chegará no cume do morro, na casa do Edmilson, vulgo menor.

O comandante e o seu parceiro estavam do lado da porta da casa, mas fazia silencio demais lá dentro, era estranho. A brisa da madrugada passava por eles gélida, os dois estavam apreensivos, nervosos e de suas bocas saiam vapor por conta da neblina que imperava naquela noite, o comandante fez o gesto para o arrombamento.

E quando o pé do parceiro arrebentou a porta, abrindo-a, uma rajada de fuzil da AK-47 do menor, que dispara até seiscentos tiros por minuto, de grosso calibre e que é capaz de inutilizar um automóvel com seu poder de fogo, acertou a cabeça do policial.

O comandante horrorizado vendo a cabeça do parceiro explodir na sua frente, arremessando miolos e sangue em toda a sua farda e rosto, jogou uma granada de flash bang, dentro da casa que produziu um clarão que causa desorientação por alguns minutos, mas o menor fora rápido e se jogou para fora, caiu por cima do comandante arremessando sua metralhadora para longe, então iniciaram uma luta corpo a corpo.

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Sobre Thiago D.

Minha maior arte é a forma que eu vejo o mundo e as coisas que acontecem ao meu redor, tenho uma empatia muito grande, entendo como as coisas estão acontecendo ou devem acontecer e isso ajuda na minha percepção para fazer sistemas, estruturar raciocínios lógicos e a construir textos, contos e afins. Busco colocar em palavras os mais diversos sentimentos e sensações, o que escrevo não é autobiográfico, eu chamo de usar a vida como matéria prima. Meu jeito de escrever é esse, e se me perguntarem isso é ficção? Ou não é ficção? – Está no papel(no caso, tá no blog), aconteceu ou não, é ficção.

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