Dedo no gatilho

Capítulo 8 – Estragos irreversíveis.

Ela abriu os olhos e não reconheceu o lugar.

Tentou se levantar, mas tudo… absolutamente tudo doía, é quase como se estivesse sido atropelada por um caminhão.

Tudo que ela pensou foi que queria tomar um porre da vida.

E sorriu, um sorriso torto nos lábios pensando em como pode pensar nisso enquanto está morrendo.

Então ouviu uma voz, atrás de si.

– Não sei se você sabe o que é capotar a duzentos quilômetros por hora. – brincou o homem se aproximando.

Bárbara se virou em direção a voz e desejou não ter se virado, por um momento achou que estava morta e ali era o inferno, pois cada músculo do seu corpo deu um espasmo dolorido, e pensou que nem o inferno poderia lhe causar tamanha agonia, mas a realidade sim, o mundo que vive é mais hostil que a selva, os animais que lida, pensam e matam sem precisar de motivos para isso, mas agora sentindo a mão tocar a sua cabeça e acariciar seus cabelos soube realmente que estava viva.

– Minha jovem, você e seu carro capotaram umas dez vezes, foi lindo você precisava estar lá… ops você estava lá, digo na minha perspectiva entende ? – Gargalhou o sujeito e emendou: foi do caralho, você foi incrível…

– O seu amigo girou no ar e caiu esbugalhado no chão, você teve mais sorte estava de sinto de segurança, mas iria morrer mesmo assim, o que sobrou do carro estava pegando fogo e você não estava cociente dentro dele, sabe ninguém foi salva-la, mas eu fui.

Barbara estava fraca, pálida, perdera sangue demais, só ouvia a voz e sentia a mão do homem passar por seus cabelos.

– Tentei abrir a porta, estava emperrada, chutei várias vezes com toda força que tenho. Não sabia que era você, pensei que era Mike que estava dirigindo o impala, mas sabia que deveria ser rápido para ajuda-lo. Ouvia sirenes e barulho de helicópteros se aproximando, vocês fizeram algo grande né ? – Sem deixa-la responder o homem continuou.

– Você tem que ver a quantidade de policia que tem ali fora, estão te caçando até agora.

Bárbara tentou apoiar seu braço no chão, mas sem sucesso. Estava falecendo e sabia disso, sentia medo e o fato de ouvir o nome de Mike, era devastador e doeu mais que o tiro que levará minutos atrás, mas ela soube que o homem que arfava seus cabelos era alguém que poderia ajuda-la a sair dali.

– Qual o seu nome ? – Perguntou Bárbara com um voz arranhada.

– Pode me chamar de Doug, todos me chamam assim.

– Doug hein, certo… você mencionou o nome de Mike, o conhecia da onde ?

– Sou do morro dos palhaços, Mike já me dera uns trocados para usar meu caminhão de carga, e já vi você com ele, como é seu nome mesmo ?

– Bárbara, meu nome é Bárbara.

– Sim, Bárbara sei que estavam juntos.

– Sim estávamos, mas agora ele se foi e como você pode ver Doug não estou nas melhores condições. E ela apontou para a camisa que o sujeito usou como bandagem em sua barriga para estancar o sangramento.

– Preciso de cuidados médicos se não vou morrer. – Bárbara já falava arrastado, uma voz mansa e sem forças.

– Lá fora está infestado de policiais, falei para todos mentirem dizendo que você saiu se arrastando pela estrada. Estamos de baixo do assoalho do bar, quando eles entrarem com os cachorros aqui vão nós encontrar, não tem jeito de fugir Bárbara. Acabou.

– No noticiário ouvi dizer que o morro do menor caiu, mataram todos lá. Doug disse com pesar.

– Agora a policia está indo para o morro do palhaço, pois nessa noite eles querem acabar com tudo lá também, eles sabem que o morro está enfraquecido, sem comando de verdade.

– Acabou. – Disse Bárbara gargalhando da sua própria desgraça.

– Você pode se entregar, eles vão te levar ao médico e você pode viver na cadeia por alguns anos e depois sair e continuar sua vida aqui fora. – Doug dissera sem esperanças.

– NÃO VOU ME ENTREGAR.- Gritou Bárbara em desespero e emendou: nós dois sabemos o que devo e vou fazer.

– shhhhhii, não grite eles vão nós ouvir. – Doug fez o gesto de silêncio com o dedo enquanto sussurrava.

– Doug me escute, durante a minha vida sempre precisei estar me relembrando que há coisas, pessoas e simplicidades que fazem a vida bonita sabe ?

– Senão, só sei me apegar à tristezas. – Confessou Bárbara enquanto escorria lagrimas de seus olhos.

– Tem gente que nasceu, cresceu, estudou, se formou, namorou, noivou, casou, comprou a casa, o carro, o filho nasceu, cresceu, estudou, se formou, namorou, noivou, casou, comprou a casa, o carro, o filho nasceu, cresceu….

– E minha vida por muito tempo foi isso, tediosa, cinza e triste.

– Mas hoje não foi assim, e não me arrependo, a vida sem um frio na barriga não tem graça, pois se pudesse ver toda sua vida, inicio, meio e fim, você mudaria alguma coisa doug ? o que mudaria? – Questionou Bárbara enquanto a dor transbordava em seu rosto.

 

– Acho que eu só diria o que sinto mais vezes. – Doug confessou de maneira visceral olhando para Bárbara e sacando uma trinta-e-oito da cintura e colocando na mãos de dela.

Ambos já ouviam o barulho de passos e latidos acima de suas cabeças, foram encontrados.

– Faça o que tem que fazer, algumas coisas precisam ser feitas. É melhor fazê-las do que viver com medo delas porquê a vida não é tão linear assim. – Disse Doug se afastando, sabendo que fizera tudo que podia e agora era com ela.

Ouviu Bárbara dizer suas últimas palavras;

– As vezes o céu está azul e de repente fica acizentado sabe ?

– Hã ? – Doug ficou sem entender, mas Bárbara continuou.

– As vezes o céu estava limpo e de repente ficava nublado e eu ouvia no meu fone Jhonny Cash em seu violão dramático, o timbre dá sua voz velha percorria minha alma, via a vida sob os trilhos lá fora passar rápido enquanto estava sentada naquele banco.

– E a vida por um momento aparecia para mim como ela realmente é.
– Sem mentiras ou pudor, só o que ela é.

– Reverberando de estação em estação, enquanto não batia em nenhum muro.

Doug ouvia enquanto caminhava, com a camisa ensanguentada por conta de te-la carregado nos braços, estava indo embora por uma saída atrás do assoalho que dava para o lado de fora do bar, caminhando em direção ao seu caminhão com lagrimas escorrendo pelo rosto ele ouviu o estrondo que ressoou por sua alma, o som de quando o dedo puxa o gatilho e retira mais uma vida do mundo.

Aquela moça se eternizara nele para sempre, como quando marcamos um gado com brasa quente, mas a marca que ela fez nele não seria visível aos olhos.

FIM

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Sobre Thiago D.

Minha maior arte é a forma que eu vejo o mundo e as coisas que acontecem ao meu redor, tenho uma empatia muito grande, entendo como as coisas estão acontecendo ou devem acontecer e isso ajuda na minha percepção para fazer sistemas, estruturar raciocínios lógicos e a construir textos, contos e afins. Busco colocar em palavras os mais diversos sentimentos e sensações, o que escrevo não é autobiográfico, eu chamo de usar a vida como matéria prima. Meu jeito de escrever é esse, e se me perguntarem isso é ficção? Ou não é ficção? – Está no papel(no caso, tá no blog), aconteceu ou não, é ficção.

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