Crônicas

Meu nome? Ih, não sei, qual o meu nome?

– Por que você pausou o filme?

– Temos que comprar comida.

– O que? Agora?

– É, senão não vai ter o que comer a noite.

– Mas a gente pode esperar o filme acabar antes de…

– Eu quero comprar cigarro, tá bom?!

Catarina disse isso e se levantou, e eu pude olhar pra sua bunda redonda enquanto ela procurava suas roupas entre os maços vazios e latas espalhadas pelo chão e vestia o mínimo necessário para ir até a padaria. Colocou uma camiseta e um shorts e prendeu o cabelo enquanto se olhava no espelho. Eu me levantei, terminei de beber o resto da cerveja quente que ainda tinha na lata e peguei minhas próprias roupas: Uma bermuda, chinelo e minha camisa social listrada que me fazia parecer um tipo estranho de grunge.

Estávamos trancados naquele apartamento já fazia dois dias. Saíamos apenas para comprar bebida e cigarros. Quando estávamos descendo, no elevador, pude ver que alguém havia riscado “fedido do 13” na placa de metal que tinha os botões dos apartamentos. Nós éramos os habitantes do apartamento 13. E eles tinham razão, ele fedia.

O banheiro fedia a mijo, a cozinha fedia à gordura, a geladeira fedia à comida azeda, o quarto/sala fedia a porra, erva e cigarro.  E tudo naquela sala era gosmento: Livros, controles, como se o ambiente transpirasse gordura pelos poros. Quando você estava lá dentro, por algum motivo tudo isso era imperceptível, mas bastava sair e ter de entrar de novo para sentir o cheiro tóxico no ar.

Nós comíamos arroz e frango. Catarina comprava frango congelado, quebrava pedaços com a mão e os cozinhava direto no molho de tomate. Depois jogava tudo em cima do arroz e comia. Ela disse que cada frango durava por uma semana. Era nojento. Nós comíamos também ovo e hambúrguer feito no microondas.

E era assim que os dois sobreviviam, ela e Rodrigo. Drogados, desempregados e vivendo juntos em outra cidade para se livrar de suas respectivas famílias. E é claro que eu estava lá pra ajudar. Depois de uma discussão deveras agressiva com a minha eu peguei o primeiro ônibus pra Minas Gerais e resolvi passar uns dias com os dois. Depois de longas 13 horas de viagem sem conseguir dormir e sem drogas para me ajudar, eu estava em Uberlândia.

O problema é que não tínhamos porra de dinheiro nenhum. Rodrigo ainda não havia chegado, estava na casa da família em Araguari. Então enquanto esperávamos por ele, que tinha a grana, gastávamos o mínimo possível. Catarina fumava cigarros pela metade para poder fumar o resto depois e eu só comprava pão e hambúrguer.

Enfim Rodrigo chegou, e pra comemorar fomos pro centro encher a cara. Eu tinha levado um pouco de erva, mas ela já tinha acabado e tentávamos desesperadamente encontrar onde comprar. Por fim fomos em um boteco perto de uma praça e tomamos umas brejas. Com o tempo fomos pra fora fumar. Catarina estava bêbada e começou a perguntar pra todo mundo se eles sabiam onde comprar erva. Incrivelmente sua desinibição alcoolizada deu frutos e dois caras chamaram a gente para ir com eles. Nós os seguimos para longe do povo na praça em direção à uma rua deserta onde disseram ter estacionado o carro.

– Se prepara pra descer a mão – Rodrigo disse em voz baixa.

– Sério? – perguntei, meio embriagado.

– É claro! – ele exclamou, ainda em voz baixa – dois caras levando a mina bêbada pra longe da galera… Fica esperto.

Rodrigo era paranoico, mas naquele momento eu dei razão a ele. No entanto, nossos novos amigos pareciam com mais medo do que a gente.

– A gente não vende não, beleza? Mas vocês podem fumar com a gente – um dos caras disse, enquanto o outro abriu o carro, ligou um funk e começou a bolar. Ele continuou:

– Vocês não são coxa não, né? A gente não é traficante não, somos de boa, só tamo fumando aqui de boa.

– Relaxa, cara – eu disse, acendendo um cigarro – qual seu nome?

– Meu nome? Ih, não sei, qual o meu nome? – um grupo de homens desconhecidos passou entre nós e o cara perguntou para o primeiro deles – ei, qual é o meu nome?

– O que? Sei lá, “Pedro”.

– É Pedro, isso aí! – o grupo continuou andando, achando aquilo estranho, e o que estava bolando disse:

– Não leva a mal não, é que a gente não quer problema. Tô na condicional, tamo aqui de boa, não queremos encrenca com ninguém.

– Relaxa, somos de boa – Rodrigo disse e pegou meu cigarro para dar um trago. O cara terminou de bolar e nós começamos a puxar.

Depois que peguei o beck nada mais importava. Traguei e fiquei perdido em meus pensamentos enquanto Rodrigo tentava jogar conversa fora com eles e Catarina os encantava com sua bunda grande e a camiseta decotada.

– Então, a gente é novo aqui, na verdade somos de Araguari – Rodrigo disse – e tamo procurando lugar aqui pra comprar, vocês sabem onde tem?

– A gente não sabe de nada não, senhor, isso aqui a gente planta em casa – “Pedro” disse. A suspeita dos dois era irritante, mas eles deviam ter seus motivos.

Por fim estávamos os três bêbados e chapados. Os dois caras convidaram Catarina para um rolê que ela recusou com a parte de si que ainda estava sóbria e eles foram embora. Voltamos pra praça.

Ficamos mais um tempo, mas a erva e a bebida começaram a fazer efeito sobre mim. Fiquei com um puta sono, pressão baixa, e queria ir embora pra casa. Os dois já estavam entediados e drogados o suficiente – portanto, satisfeitos com a noite – e concordaram em partir. Enquanto íamos para o ponto de ônibus, vimos alguns caras vendendo brincos e colares feitos à mão, e eu decidi arriscar o estereótipo para ver se dava sorte.

– E aí, cara.

– E aí, dá uma olhada na mercadoria, vê se tem alguma coisa que você gosta, fica à vontade.

Rodrigo começou a conversar com outro cara sobre um brinco e ele o levou para passar o cartão em uma loja ali perto. Catarina não perdeu tempo:

– Vocês por acaso tem chá? – perguntou em voz baixa.

– Ah sim… – o homem disse em voz baixa e então aumentou o tom – abaixa aqui, dá uma olhada na mercadoria, vê se você gosta de alguma coisa.

– Não, desculpa, eu não tenho dinheiro…

– Não, só dá uma olhada mais de perto mesmo, vai que você se interessa…

– Desculpa, moço, eu não quero…

– Abaixa aqui logo, caralho – ele disse sussurrando, e mostrou uma bucha pra gente. Ela finalmente entendeu e se abaixou pra pegar a droga.

Catarina era meio lenta. Rodrigo voltou, eu paguei o vendedor e fomos embora.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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