Eu já fui acusado de muitas coisas, como Satã foi, e uma delas é de sugar as esperanças das pessoas que falam comigo. Eles dizem que pessoas passam alguns minutos comigo e vão embora como se estivessem de luto por alguém. Minha ex disse que iria colocar um alarme de 10 minutos no celular, que era o máximo de tempo que poderia ficar perto de mim sem se deprimir.

Eu não os culpo. Pelo menos eles podem ir embora. Eu também iria se não estivesse preso à este corpo de carne e tivesse de aguentar esse puto sozinho. Talvez por isso eu bebesse tanto.

Estava em um bar com minha ex Selene e meus dois amigos, Norman e Raquel, e nós jogávamos conversa fora. Selene tinha vindo visitar uma cidade vizinha e decidiu passar uns dias comigo, pelos velhos tempos. Trepamos que nem coelhos. Ela era da geração saúde, malhava e se alimentava direito, seu corpo era uma obra de arte. O que ela estava fazendo com um niilista gordo e futuro paciente da ala de câncer do hospital sempre foi um mistério pra mim.

Seu corpo era como uma escultura em mármore, mas quente e macio, e se retraía quando apertado ou mordido. Seu cheiro era doce e inebriante e sua língua gelada e molhada. Ela preferia que eu a comesse por cima, mas eu preferia que ela cavalgasse até que suas pernas ficassem moles, enquanto eu apertava seus peitos e olhava em seus olhos. Por fim ela deitou do meu lado, apoiando seu corpo suado contra o meu e nós dormimos, como nos velhos tempos.

No dia seguinte acordei com ela sentada na cama, escovando seu cabelo, nua. Fingi estar dormindo apenas para poder admirá-la por mais tempo, até que ela percebeu. Eu me sentei e a beijei. Estava de pau duro. Ela olhou praquilo e sorriu. Me beijou de novo enquanto colocou a mão sobre ele e começou a bombear, pra cima e pra baixo, pra cima e pra baixo enquanto eu enfiava a língua em sua garganta. Quando eu parecia não aguentar mais ela levantou da cama com um pulo, correu para o banheiro rindo e trancou a porta.

– Qual é, me deixa entrar!

Bati na porta e ouvi o chuveiro ligar. Ela não respondeu.

– Filha da puta.

Disse, e fui pra cozinha de pau duro fazer café.

Depois do almoço trepamos mais umas duas vezes e ela quis sair. Decidi apresentar a ela meus únicos dois amigos da cidade e marcamos de nos encontrar num bar perto de casa.

Norman estava falando sobre algum cara que deu comida pra umas crianças de rua e postou a foto na internet pra todo mundo ver e achar ele foda, além de um textão sobre alguma bobagem hinduísta de gratidão ou algo assim. Nós rimos, mas Selene decidiu bancar a advogada do diabo:

– Eu percebi que a gente não pode postar nada sem ser julgado. Posta uma foto de biquini, “ai, mina fútil”, posta um texto inteligente “ai, exibida”, posta que tá fazendo qualquer coisa, “ai, ego”. Eu me privei de postar várias coisas por causa dessas pessoas, agora eu só excluo quem eu não quero e a vida que segue. É legal compartilhar alguma experiência, nem sempre a pessoa quer se mostrar, as vezes é só vontade de dividir um momento mesmo.

– Na verdade a gente não pode fazer nada sem ser julgado. A internet só deu um espaço pra gente julgar.

– Ah, daí você tem força de vontade, né?! – ela exclamou – pra coisa que presta daí não tem… Daí é difícil.

Norman e Raquel estavam em silêncio. Acendi um cigarro, olhei pra cara dela com um sorriso irônico e esperei.

– Agora eu que tô julgando, né? – ela percebeu, com um riso envergonhado e todos riram.

– Vamo julgar então! – ela disse, por fim – falar mal de todo mundo pelas costas!

– Tô falando… – eu disse – é da natureza humana.

– Ai David, você me dá no saco! – ela ficou puta – pessoa faz merda, “é da natureza humana”, pessoa é incompetente, “ah, ele é humano”. Meu cu!

– Mas ué…

– Cala boca – Norman e Raquel não paravam de rir, e eu ria muito por dentro. Traguei o cigarro longamente e respondi:

– Tem sete bilhões de pessoas fazendo merda no mundo… Se isso não for parte da natureza humana eu não sei o que é.

Os três riram um pouco, mas logo ficaram em silêncio, como quando demoramos um pouco para entender a tragédia por trás de uma piada. Por fim, Selene disse:

– Eu vou abraçar o caos agora então. Vou aceitar o ser humano como ele é.

– Essa é minha meta pra esse novo ano – Raquel disse, nos lembrando que estava ali. Norman continuava em silêncio, observando. Eu bebi mais de minha cerveja e disse:

– Segundo vocês eu me alimento da esperança daqueles que fazem metas.

– Talvez você devesse fazer umas pra você então – Selene respondeu.

– Eu não faço metas, Selene – terminei o cigarro e o joguei fora – apenas me mantenho aberto à existência – disse ironicamente. Ela riu, e Raquel exclamou:

– Nossa, que lindo! – ela adorava frases poéticas.

– Seria mais lindo se a existência também fosse! – disse com um sorriso e terminei a bebida do copo. Norman e Selene riram, e o sorriso de Raquel se desfez:

– Ah cara, por que você tem que estragar tudo? – pensei para responder, mas antes que conseguisse, Norman nos surpreendeu com sua voz e disse:

– Por que ele é o papa da existência, Raquel. O admirador do vazio.

Eu ri, os três ficaram em silêncio. Coloquei mais cerveja no copo.

– Olhe em volta, Norman – disse, apontando para as pessoas daquele barzinho no centro, todas em suas mesas lotadas, com seus petiscos e suas torres de chope, jogando conversa fora, falando de fofocas, trabalho, futebol e problemas familiares. Norman olhou pra tudo aquilo e depois de volta pra mim, como se esperasse uma resposta, e eu disse:

– O que há mais para se admirar?

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