– A música sertaneja pode ser uma bosta, mas pelo menos eles sabem dar o que o povo quer. Você tem que admitir que o marketing deles é incrível.

– Hum…

Grunhi, como eu costumava fazer com a maior parte das coisas que meu tio dizia. Eu já sabia pra onde aquela conversa iria levar.

Estava em uma pousada no interior com minha família, algum lugar com uma represa. Tínhamos ido passar a virada do ano com a família dos meus tios, o que normalmente não era uma experiência agradável, mas normalmente incluía diferentes tipos de comida e bebida de graça, então normalmente eu ia.

Eu já havia dado um fora mais cedo, por ser talvez um pouco sincero demais.

– E então, tá fazendo o que agora, David? – a mãe de meu tio, a matriarca daquela família perguntou, enquanto os outros iam sentando à mesa – tá dando aula em faculdade?

– Ah não, eu acho isso meio chato.

– Chato?

– É, fazer todas aquelas provas, ensinar as mesmas coisas de novo e novo pra gente que não quer aprender, obedecer todas aquelas normas da direção…

A mesa ficou em silêncio, e me lembrei que tanto ela quanto seu falecido marido foram professores durante toda sua vida. O marido havia sido praticamente um heroi, adorado por toda a cidade, e aquela profissão era tida quase que como sagrada por aquela família. Não que aquilo fizesse alguma diferença pra mim.

– Não quer dizer que não seja importante, é claro – disse, tentando corrigir o estrago.

– Entendi… Mas e então, Luciana, como tá o Heitor?

A crise foi evitada e a matriarca mudou de assunto. Terminamos o café e alguns de nós foram para a beira da piscina, que era onde eu estava tendo a discussão com o professor jr.

– É o que eu chamo de paradoxo do artista. Eles querem fazer o que eles gostam e querem que as outras pessoas comprem, sem fazer nenhuma pesquisa de mercado!

– A função da arte não é dar o que o mercado quer, e sim ser uma expressão verdadeira do artista. Se as pessoas gostarem, é lucro.

– É, e se não gostarem, não ganham dinheiro nenhum.

– Esse não é o objetivo.

– Ah não? Eles não querem ganhar dinheiro? Preferem morrer de fome?

– Você entende tanto de arte quanto eu entendo de carros, tio: Porra nenhuma. Você acha que o objetivo de todas as bandas que eu tive e que tocaram com a gente era o dinheiro? Que todos eles largaram seus empregos e pensaram “é, agora eu vou viver só da música, compor o que eu quiser e parar de trabalhar!”. Claro que não! Não importa se alguém vai ouvir o que a gente tem a dizer, ou se vão entender, ou o que irão fazer com isso, o que importa é que tem algumas coisas que simplesmente precisam ser ditas!

Acendi um cigarro. Ele ficou em silêncio por alguns segundos e então disse:

– É, pelo menos é bom que a gente tem alguma variedade, não fica só o estilo mais popular, o normal – ele disse, fingindo ter entendido – até por que eu percebi que não faço parte da curva de normalidade.

Não consegui segurar e ri. Se engenheiros brancos de classe média, uniformizados, capitalistas, conservadores e pseudo-intelectuais estivessem tão fora da curva de normalidade dos padrões sociais, talvez esse fosse um país melhor.

– Depende da curva – eu disse.

– É, e você também não faz.

– Claro, claro…

Saí daquele lugar e fui em direção aos chalés. Minha mãe estava lá, conversando com minha tia, que reclamava, entre outras coisas, da homofobia do resto da família.

– Foi um absurdo! Eu ouvi elas conversando no café, falando de novo do tal do Tommy! Depois de todo esse tempo! Aí uma falou que recebeu o amigo do filho em casa, e que respeita, mas que “ninguém tente dizer pra mim que isso é normal por que não é!”, por que “deus fez o homem e a mulher pra reproduzir, e não esse tipo de coisa!”. Me poupe!

Tommy era um fantasma, uma mancha negra na família dos meus tios. Filho de amigos da família, foi adotado por um casal a contragosto do marido, que nunca o considerou como filho. Ninguém disse pra Tommy que ele era adotado, e ele foi descobrir só quando tinha uns quinze anos, quando seus pais verdadeiros o procuraram e contaram que sua vida era uma mentira. A partir daí, segundo contam, ele entrou em crise e fugiu de casa. Era homossexual e passou a viver nas ruas e se drogar. Ninguém sabe o que aconteceu depois disso, mas acreditam que ele tenha morrido e sido enterrado em uma vala de indigentes.

É claro que como uma boa família tradicional brasileira, nenhum deles admitiu culpa nessa história. A culpa era das drogas, da homossexualidade, da adoção, dos artistas que querem se expressar e morrer de fome ao invés de se comportarem como a sociedade quer. O mundo não precisa de mais artistas, ele precisa de carros, médicos, engenheiros e advogados, redes de fast-food e linhas de montagem. E antidepressivos. Deus, como precisamos de antidepressivos.

– Quando o argumento de uma pessoa pra justificar qualquer coisa séria hoje em dia é “por que deus fez”, ficar com raiva é perda de tempo. Você não vai conseguir convencê-la. Em casos como esse tudo o que pode fazer é rir e manter distância, para o caso de ser contagioso – disse. Minha mãe riu, mas minha tia pareceu espantada:

– Também não é assim, né, David…

Me esqueci por um minuto de que também falava com uma religiosa. Alguém que havia me educado para ser falso, para não expressar minhas emoções, por que o mais importante na vida é não causar conflitos e deixar todo muito sorrindo. Alguém que, de uma forma menos nítida, era tão intolerante quanto aqueles a quem criticava.

– Enfim – disse – vou na represa.

– Agora?

– Aproveitar que o sol não tá tão forte.

– Chama alguém pra ir com você.

– Pra quê?

– É perigoso, chama algum dos seus tios.

– A única coisa com que eles poderiam me ajudar é em estragar minha experiência. Eu vou sozinho.

– Cuidado!

Ela disse, e segui a pé pela trilha que levava do chalé até a represa. Não era longe, mas era íngreme e cheia de pedras. Quando cheguei na margem, pude ver o enorme rio e a vista era fantástica. Um dos funcionários trouxe um caiaque e colocou na minha frente na água. Era a primeira vez que eu iria fazer aquilo e o troço era menor do que eu imaginava.

– Alguma dica? – perguntei para o funcionário enquanto ele prendia o colete salva-vidas em meu peito. Ele sorriu e fez que não com a cabeça.

Subi no caiaque e comecei a remar. Eu tinha uma hora. Remei sem parar até que fosse difícil ver a margem de onde tinha vindo e então me deitei no caiaque e fiquei lá boiando por um tempo. O silêncio daquele lugar era incrível. Não era como o silêncio de meu apartamento em São Paulo, ou minhas caminhadas sozinho nas noites na selva de pedra. Era um silêncio diferente, tranquilizante, no qual você podia ficar horas sem se importar e sem ligar praquela merda toda.

Eu olhei para as margens aos lados e me lembrei de Alexander Supertramp e de Thoreau. Me lembrei das minhas aulas de psicologia social e de aprender sobre toda a merda que nós criamos pra defender nossa tão amada civilização. E então me lembrei de Tommy. Tommy talvez teria sido mais feliz ali, com os pássaros e os peixes e as árvores do que com os humanos, essa raça maldita. Tommy talvez ainda estaria vivo.

No fim a hora acabou e tive de voltar. De qualquer forma o sol já tinha se tornado escaldante. Comecei a remar e voltei pra perto da margem. Quando me aproximava, pude ver minha família na margem com o carro, tirando fotos, sorrindo, ansiosos por registrar aquele momento para seu próprio prazer.

Parei de remar e decidi aproveitar o silêncio por mais alguns minutos antes de voltar praquele hospício.

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