fevereiro 28, 2017

O Coringa do Cemitério

John era viciado em erva. Erva boa, não daquelas buchas de cinco reais que você compra em biqueira, daquelas de 25 gramas que você compra de um cara no quintal da casa dele. Era assim que John lidava com a vida, com seus problemas, sua família e suas responsabilidades. Ele não era muito bom nessa coisa de viver na realidade, então passava a maior parte do tempo chapado e entretido com suas fantasias.

John e seus amigos maconheiros curtiam fumar em lugares isolados: Nos fundos de um lote residencial, em algum parque pouco frequentado ou perto da linha do trem. Mas um dos lugares que os maconheiros mais curtiam ir pra fumar uma erva era no cemitério. Não pra demonstrar algum tipo de rebeldia ou parecer legal, eles estavam cagando pra isso, mas simplesmente por que era um lugar tranquilo, onde ninguém que te vê tenta se aproximar o bastante para sentir o cheiro.

John, Paul e Stu estavam no cemitério nesse dia fumando, como um dia qualquer para se drogar. Mas aí eles viram um sujeito se aproximar com uma criança.

– E aí, molecada! – ele disse – tão afim de comprar um chá?

– De boa, irmão – John respondeu – já tamo fumando aqui.

– De boa, parça.

O homem foi embora com a criança e os três continuaram brisando e conversando. Mas aí ele voltou, dessa vez, sozinho:

– Desculpa aí, mas o que vocês tão fazendo aqui no cemitério?

– Ô, irmão, viemos fumar um chá – John respondeu – por que aqui é tranquilo e os coxa não cola. Mas já tamo vazando.

– Ah, mas vocês não são coxa não, né?

– Que isso, cara, eu com essa barba! – John tinha uma barba de Newton que ia até o peito.

– A gente não é não, véi, a gente veio só fumar um! – Stu disse. Paul ficou em silêncio.

– Não, seguinte, por que eu tô achando que vocês são coxa e aí o negócio vai ficar sério por aqui! – ele levantou a camisa e os três chapados puderam ver uma pistola enfiada em sua bermuda. O coração de John gelou e ele foi para o lado dos amigos, que ficaram alinhados na frente do homem.

– A gente não é coxa, cara! – Stu insistiu – viemos aqui na moral só pra fumar um!

– Ah é? – ele disse – deixa eu ver a carteira de vocês então.

Os três tiraram as carteiras dos bolsos, tremendo, e entregaram ao homem. Ele se distanciou uns dois passos e começou a examinar as carteiras. John estava estressado e tentou pegar um cigarro.

– Cê não chega perto de mim, irmão, a não ser que tenha peito de ferro! – o homem disse, colocando a mão no cabo da arma. John ficou paralisado, mas então tirou a mão lentamente do bolso com o maço, e o homem ficou tranquilo. Ele continuou examinando as carteiras e John acendeu um cigarro.

– Ceis não ficam preocupado comigo não por que a gente não é ladrão, tá ligado? Nois só vende droga, eu não vou roubar vocês não.

Ele disse isso e devolveu as carteiras pra eles, que ficaram mais tranquilos.

– Mas e aí, os coxa pagaram pra vocês virem aqui?

– A gente não tá com os coxa! Pronto! Acabou!

– Acabou o que?!

John percebeu que havia se exaltado e irritado a pessoa errada, então tentou disfarçar:

– Acabou o beck! – ele jogou a bita de cigarro no chão – aí a gente tava indo embora.

– Tô ligado. Mas quer saber? Eu vou roubar vocês! – ele colocou a mão na arma e avançou, e os três homens recuaram contra uma lápide, pressionando as costas contra ela – passa a carteira e o celular!

Os três ficaram novamente em choque, e subiram de novo a guarda, apavorados. Entregaram, um a um, os objetos para o homem. Ele viu o celular de Paul e perguntou:

– Esse aqui é novo, hein.

– É, lançamento, não terminei nem de pagar ainda.

– Se não terminou não tem como rastrear! – o homem riu e Paul percebeu o quão idiota aquilo havia sido, mas estava nervoso demais pra se culpar. O homem guardou seu celular no bolso e aí pegou o de John para olhar.

– Qual que é a senha? tem foto de mulher pelada nele?

O homem apontou o celular para John enquanto mantinha a outra mão sobre a arma. John colocou a senha e o homem começou a fuçar nas fotos. Ele viu fotos da casa de John, o que o deixou ainda mais preocupado. Depois disso fez o mesmo com os aparelhos dos outros dois, e Stu ficou feliz por ter transferido os nudes da namorada no dia anterior. O homem colocou o celular em uma lápide atrás de si e se voltou contra os jovens:

– Se eu passasse vocês aqui agora, vocês acham que alguém ia notar?

Os três ficaram em silêncio, e sentiram lágrimas começarem a querer sair.

– Não, senhor – John disse – mas não tem por que fazer isso com a gente, cara, a gente é de boa! Só tava aqui fumando um, a gente não é os coxa!

O homem encarou os olhos desesperados de John profundamente, e John pôde jurar que viu um sorriso de satisfação se formar no rosto do homem. Mas este logo se desfez e ele disse:

– Tô zoando, não vou roubar vocês não! – ele disse, rindo – eu já disse, não sou ladrão, eu só vendo droga!

Ele devolveu os objetos para os meninos, que estavam de novo em choque, não sabendo o que esperar a seguir. John estava tremendo. Ele tinha medo de loucos. Ele havia me dito uma vez:

– Cara, se a pessoa é má, ela é previsível, você consegue se preparar pra se defender. Mas o louco? Cara! O louco é imprevisível, você nunca sabe quando ele pode surtar e te atacar, é foda!

E agora ele sentia como se fosse um desses loucos na sua frente. E tudo o que ele queria era fumar um beck em paz, longe dos coxas.

– A gente pode ir então? – Paul perguntou.

– Claro que pode! – ele disse – não pega mal não, viu irmão? É que aqui a gente tem que ser prevenido! Eu tinha que saber que vocês não eram coxa. Mas não pega mal não, passa aí de novo um dia a desses pra comprar um chá com nois! Beleza?

Os três ficaram apavorados com a naturalidade que aquele homem falava com eles, como se não fosse ele a pessoa que havia ameaçado roubá-los e matá-los dois minutos atrás. Aquilo era um sociopata sádico. Como o Coringa. O Coringa do Cemitério. Mesmo com medo, foram andando pra longe e John conseguiu responder:

– Beleza, cara, a gente passa aí!

Os três rapazes nunca mais voltaram naquele cemitério.

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Sobre davidconatus

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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Crônicas

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