Essa deve ser a primeira resenha que escrevo desde os deveres de casa da professora gostosa de português do ensino médio. Apesar de eu ler vários textos desse gênero, nunca pensei em escrever nele. Mas eu escrevo sobre a minha existência, e as vezes um filme pode ter um efeito mais forte do que um evento vivido pessoalmente. Eis o caso do documentário Be Here Now – A História de Andy Whitfield.

Acredito que a história de Whitfield tenha colaborado com a formação da minha visão de mundo. Eu havia conhecido o ator no seu papel de protagonista na série Spartacus. Spartacus era um gladiador bombado e super saudável, interpretado por um sex idol australiano. A série e o personagem fizeram muito sucesso e Andy estava morando em Los Angeles, realizando seu sonho de ser ator.

Mas aí veio o câncer. E Andy morreu antes que pudesse gravar a segunda temporada de Spartacus. Ele tinha 39 anos. Outro ator foi chamado para interpretar o escravo rebelde e a série continuou por mais duas temporadas.

O que vemos no documentário Be Here Now – nome dado por causa da tatuagem dessa frase no braço de Andy – é a luta angustiante de Andy contra o câncer, mas é uma luta que já sabemos qual será o final (tanto é que nem posso chamar isso de spoiler).

Mas o filme não é só um sadness porn de tragédia, ele nos leva a profundas reflexões filosóficas. Por exemplo: Quando Andy descobre que tem câncer, o médico fala que aquele é o melhor tipo de câncer por que é muito fácil de curar, 80% dos pacientes sobrevivem. Andy foi pra Índia consultar um astrólogo védico e este disse que seu mercúrio na casa seis indicava que ele teria uma vida curta. Quem acertou? O astrólogo.

Ele nos leva também a, como Andy diz, “questionar sua própria mortalidade”. Ele diz que teve que passar por um luto devido a sua história: Engenheiro por falta de opção, foi encontrado por uma fotógrafa que o transformou em modelo e então em ator. Ele então começou a ir a audições e correr atrás de agentes. Sua esposa engravidou. Ele disse que teria que largar esse sonho de ser ator para sustentar sua família, mas aí sua mulher disse:

– O que você prefere contar ao seu filho? Que desistiu de tudo que lutou pra conquistar por causa de dinheiro? Ou que foi lá e fez mesmo assim?

Isso o motivou, e ele gravou o filme Gabriel, sem ser pago. Um ano depois foi contratado para Spartacus, e aí tudo mudou: Pedidos de participação em filmes vinham de todos os lados, agentes o perseguiam, ele estava com um caminho pronto em sua carreira, só precisaria andar por ele.

Mas aí veio o câncer.

E ele teve que passar por um luto de todos os sonhos que ele havia investido em sua carreira. Será que não fazemos isso as vezes? Depois disso, ainda teve que aguentar dois anos passando por quimioterapias, quimioterapias mais fortes e então radioterapia. Andy se alimentava bem, fazia acupuntura, meditação, yoga.

Mas nada disso conseguiu deter o câncer, e Andy percebeu que não tinha jeito: Ele ia morrer.

Ele passou mais um tempo com sua família andando de muletas enquanto sua perna parava de se mexer e tiveram que mudar de casa por que ele não conseguia subir escadas. No fim foi para a Nova Zelândia fazer acupuntura. Sua mulher foi chamada para buscá-lo num hospital. Ele pediu e ela o levou de volta pra casa. Pouco tempo depois, foi levado ao hospital.

Disse aos filhos que o papai estava quebrado como uma borboleta, e borboletas quebradas tinham que ir pro céu. Depois disso sua esposa se deitou ao seu lado e ele morreu. Mas ela e o filho ainda recebem a visita de Andy, pois um dia uma borboleta com a asa quebrada surgiu na casa e se deixou ser pega pelos filhos. Seria magia indiana? Eu sei lá.

Então o que o filme nos mostra é como um homem bem sucedido, realizando seu sonho ao lado de uma linda família com uma carreira promissora pode passar, em apenas alguns anos, a ser uma casca vazia e sem vida sem que ninguém precisasse tocá-lo: Seu corpo destrói a si mesmo.

E a mensagem que o filme passa é a que está em seu título: Be Here Now. Várias vezes, para resistir, o casal aprendeu a viver um dia de cada vez, sem grandes expectativas, mas curtindo o momento presente. E, ironicamente, como Andy diz, aquele foi o melhor ano da sua vida.

Mas a imagem de ver Andy impotente definhando até a morte é pior do que a morte de Alex Supertramp que vimos em Into the Wild. E o foda é saber que o Andy não está atuando, aquilo é real, aquilo é a filmagem da sua morte, e poderia estar nos ABCs da Morte.

Então é, talvez esse doc seja mesmo um sadness porn pesado, mas talvez ele seja necessário. Talvez sejam necessários mais filmes como esse para nos tirar do automático e nos forçar a refletir sobre a existência.

Nesse sentido Andy contribuiu para um avanço mental e filosófico da humanidade… E acho que não são muitos os que conseguem fazer isso como ele fez. E eu o admiro por isso.

Enfim não sei se isso foi uma resenha ou um resumo, mas seguem as recomendações: Eu era chamado de ogro na faculdade e tenho um coração de pedra, e mesmo assim chorei a porra do filme inteiro até ficar com dor de cabeça e enjôo. Então se você se impressiona fácil com esses dramas, NÃO ASSISTE, CARALHO. Fica só na resumenha mesmo.

Mas se você estiver disposto a sofrer pra caralho por uma hora e meia em troca de uma reflexão foda sobre a existência e a sua vida, esse filme é pra você. Ouso dizer que ele pode mudar sua vida.

Eu assisti esse filme na Netflix, foi lançado na semana passada. Então quem quiser não tem tempo a perder. Boa sorte, depois me conta.

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Participe da conversa! 1 comentário

  1. Não fui capaz de assistir ao filme de forma contínua, pois realmente é forte e triste.
    Mas escrevestes muito bem, de forma clara e objetiva, o que se passa na sua quase duas horas de filme e o desdobramento para nossas próprias vidas que o mesmo pode trazer.
    Recomendo que todos assistam e façam uma reflexão.

    Curtido por 1 pessoa

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Sobre davidconatus

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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