Poemas

Bizarro.

Vejo algumas pessoas acordando as 04:30 da manhã.

Tomam um banho gelado e um café magro e vão trabalhar. Tomam uma vida inteira de precauções e estratégias, porém todas as manhãs, faça chuva ou faça sol, elas vão trabalhar.

Alguns são vendedores, outros são pedreiros, muitos são empregadas, outros no telemarketing, parte recepcionistas, outra garçons, garçonetes, digitadores, bibliotecários, assalariados, mínimos salários.

Os filhos nascem quando menos se espera.

Se adia os sonhos por mais algumas horas.

Se adia o acordar com o modo soneca.

São 04:30 da manhã, muitos de vocês que leem este texto ainda não acordou. Muitos tem águas quentes para banhar-se, cafés fartos em suas mesas. Ainda moram com os pais e estes te enchem de mimos e sonhos, muitos tem festas para ir no final de semana e gastam o salário do mês de um pai de família em um camarote V.I.P.

Mal conhecem os bizarros que fazem a máquina funcionar.

Mal sabem da existência dos bizarros.

Eu sou um bizarro.

Os bizarros nunca sabem se voltam para as suas casas. Eles não tem seguranças particulares e os carros blindados são meras coisas de suas imaginações férteis. São acostumados a comerem em qualquer lugar, quando dá para comer Também são sábios nas restrições de alimentos, pois com aquele dinheiro que você gasta na cerveja importada, é tudo que ele tem para alimentar-se por alguns poucos dias. Um bizarro, não consegue ter algo particular, ele depende do público.

Do transporte público.

Do banheiro público.

Do hospital público.

Do banco público.

Do colégio público.

A única coisa pública que ele não tem direito é a universidade pública, isto porque uma vez bizarro, sempre bizarro. Universidade pública não acata quem acorda as 04:30, por isso que os seus cursos são no período matutino,  horário que o bizarro está lá, fazendo a máquina girar.

Fome, sentimento que só o bizarro sabe conviver. Uma coisa é estar com fome, coisa que você pode sanar com um pequeno docinho de quinze reais comprado em uma pâtisserie.

Eu, bizarro, tive que buscar no Google a forma correta de escrever pâtisserie.

Este docinho de quinze reais que tem um nome francês engraçado, nunca entrará na boca de um bizarro, nunca estaria na linha de vida de um bizarro. Nós, estamos fadados ao eterno arroz com feijão. O chuchu como carne. Este vegetal se adequa a qualquer gosto, porque ele mesmo não tem gosto nenhum, tal qual um bizarro. Não tem gosto nenhum, não tem cor nenhuma, todos são cinzas, todos se misturam aos rebocos dos prédios, invisíveis, inutilizáveis. Descartáveis.

Um bizarro está educando o seu filho, aquele que você coloca na creche as seis da manhã e vai busca-lo as cinco da tarde. Este bizarro está educando, e cuidando do seu filho, tomando cuidado para que ele não tenha um único arranhão, e o tratando melhor que a própria vida. Tomando conta dos brinquedos caros ele leva para a creche, pois se o bizarro se descuida e alguém quebra o brinquedinho dele, o valor sairá do pouco salário do bizarro.

Um bizarro é descartável. Existem milhões querendo o mesmo lugar.

Quando morre ninguém vai saber.

Quando vive, ninguém vai saber.

Estará o largo inteiro da vida sendo um bizarro, um inútil, o pária da sociedade. O cão sarnento, o acordador da madrugada. Se morre não tem onde cair. Se cai no chão duro, lá ele vai ficar.

Um bizarro ouve suas reclamações quando sua internet de cinquenta megabytes cai.

Um bizarro leva a sua comida para sua mesa, com a cabeça baixa, com os olhos tristes e você não o vê, nem o agradece.

Um bizarro vende o seu doce de quinze reais.

Traz suas bebida no camarote caro.

Eles acordam as 04:30 da manhã para o seu conforto. Para que você possa mijar num banheiro limpo e cagar em uma privada descente, enquanto faz compras e assiste o filme na sala de cinema mais cara.

Terá um bizarro rasgando os ingressos para que você não assista mais de uma vez o mesmo filme sem pagar.

Limpando os óculos 3D que pioram o seu filme.

Varrendo a sujeira que você fez.

São invisíveis na sociedade, se camuflam no dia a dia, no ir e vir. Nas notícias do jornal matutino. Ninguém se importa quando morrem, quando deixam de existir ou quando são demitidos. Ser demitido para um bizarro é semelhante a morte, a fome, a peste, a guerra. Alguns deles se perdem em templos religiosos tentando encontrar um deus tão bizarro quanto eles mesmos. Outros se entregam para o álcool, para as drogas, para a perdição.

É o jeito mais fácil de um bizarro suportar.

Mas tudo isso passa despercebido.

Você estará dormindo no ar-condicionado, e acordará as nove horas da manhã, com água quente para banhar-se e um bom café quente para alimentar-se. Terá as roupas limpas e belas, calças caras de marcas famosas, cuecas box de 50 reais a unidade. Esnobara as torradas crocantes de 6 unidades e levara uma fruta para o trabalho no escritório, do qual acabará esquecendo na bolsa, por ter sido convidado para um almoço executivo de vinte reais. Você estudou, você merece esta vida, este bizarro que escreve esta lamúria não tirará este direito de você regurgitar-se com sua vitória, nas duras regras da sociedade.

Você deu duro e estudou muito, por mais que não precisasse, pois seu pai, certa vez, disse que poderia pagar tranquilamente para que fizesse aquele intercâmbio.

Você deu duro, estudou nos colégios mais caros, e passou aquele vestibular dificílimo para medicina, depois de que seus pais pagaram o cursinho pré-vestibular mais caro do país.

Você deu duro, não tiro o seu mérito de ter sido o primeiro na turma de direito, tendo estagiado voluntariamente no tribunal de justiça, e depois ir para a faculdade com o carro que ganhara da família, gozando do ar-condicionado e se enfurecendo com o trânsito.

Você deu duro, merece aquelas férias nas Disney e o tour por todas as praias que um bizarro nunca terá a oportunidade de ir.

Merece a coxinha de seis reais da cantina.

Merece o motel de cento e cinquenta reais a pernoite.

Merece a cerveja alemã que não tem gosto de milho.

Tudo é muito merecido. Volte sempre.

Tudo é seu por direito, você conquistou. Volte sempre.

Sou um mero servente das suas vontades. Volte sempre.

Só peço para que lembre-se, durante o banho ou durante a academia, durante a festa na boutique, durante a visita do lounge de arquitetura, durante a viagem para a Europa, durante o café na livraria dos livros de oitenta reais, durante o camarote VIP ou quando for comprar o primeiro carro de trezentos mil. Lembre-se que para que você tenha uma vida de prazer e tranquilidade, há um bizarro acordando as 04:30 da manhã.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

2 comentários em “Bizarro.

  1. jessicaalexandra06

    Excelente texto! Parabéns!

    Curtido por 1 pessoa

  2. Puta que pariu. Que texto é esse? Muito bom este teu texto. Com uma clara visão dos privilégios de uma classe que é minoria porém dominante e o cotidiano fadado que nós bizarros enfrentamos desde o nascimento até a morte. Excelente.

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