Essa era uma das épocas em que eu estava mais na vibe de acreditar em coisas espirituais, o que significava que eu estava na vibe de ouvir Norman Rocha. Ele havia me falado várias vezes sobre um mestre-pastor-professor-de-técnicas-vocais-massagista-cozinheiro que dizia ser muito foda e conhecer as paradas de como controlar “energia” e usá-la pra por fogo em papel com as mãos entre outras coisas legais e inúteis do tipo. Norman insistiu que eu treinasse com ele, mas eu tinha minhas objeções:

– Cara, no estado físico que eu tô, se eu der uma volta naquele campo correndo eu desmaio. Mas eu vou pra assistir e falar com o cara.

O treino era num sábado de manhã, por que por algum motivo orientais adoram brincar de energia antes do sol nascer. Eu nunca havia sido uma pessoa que funciona bem pela manhã e depois que me formei nunca mais acordei cedo de novo, então decidi que era melhor nem tentar. E lá estávamos nós, sete horas da manhã num parque público da cidade. Acendi um cigarro, sentei em um dos degraus que o povo usava pra treinar e observei os garotos sofrendo. O tal mestre acertava socos e joelhadas na barriga deles para calejar e criar resistência. Eu tava de boa só olhando.

Um tempo depois eu conversei com o mestre, e ele me falou algumas coisas sobre energia, qi gong e pontos de pressão. O corpo dele era impressionante, mas ele parecia meio convencido demais. O treino acabou, os alunos fizeram um tipo de energização lá e depois fomos liberados. Na época eu até pensei em começar a treinar, mas eu já estava morando em São Paulo, então não seria possível.

De novo no carro, fui conversando com Norman enquanto andávamos. Ele me contou algumas coisas bizarras sobre seu relacionamento, como ele havia tido contato com sua anima negativa que aparecia em seus sonhos como uma bruxa seca que tentava destruí-lo. Seu relacionamento havia acabado um tempo atrás, e quando ele tentou voltar, descobriu que sua ex já estava com outro, um amigo, e as coisas saíram um pouco do controle…

– Eu pirei, cara. Disse pra ela que ia me matar, matar o cara e me matar depois. Ela ligou pra minha mãe… Aí tive que ficar com ela uns dias.

– E você ia?

– Eu tava querendo.

– Até o cara?

– Por que não? Eu ia me matar depois mesmo.

– Sei lá… Você tem razão, não faria diferença, mas a vida das pessoas já é fodida demais… Eu não mataria um cara que mal conheço só por causa de uma garota.

Disse isso e soltei a fumaça do cigarro pela janela, enquanto ele dirigia. Norman era um bom garoto, só um pouco instável, e as vezes tinha essas explosões emocionais. Nunca chegou a machucar ninguém, no entanto, e eu não achava isso possível, sua culpa não permitiria. Ele ficou quieto, pensativo, e decidi falar alguma coisa pra quebrar o gelo.

– E como você faria?

– O que?

– O suicídio.

– Sei lá… Meu pai tem uma arma… Mas é muito sujo… Pensei em encher a cara com meus remédios.

– Nah, é muito instável… Seu corpo pode começar a vomitar tudo antes de sequer começar a fazer efeito.

– Uma forca, talvez?

– Arriscado. Você pode ficar tetraplégico ou com uma marca permanente no pescoço, se sobreviver.

– Como você faria?

– Eu sei lá… Dei uma pesquisada e é mais difícil do que parece. Pensei que o melhor jeito seria se trancar numa garagem com o carro ligado, mas parece que até isso eles conseguiram consertar nos carros novos, agora se você tenta só desmaia e acorda com uma puta dor de cabeça depois.

– Foda.

Paramos o carro perto do centro e decidimos procurar um lugar pra comer, mas só aí percebemos que ainda eram 9 da manhã. Continuamos andando, procurando alguma padaria aberta, mas Norman parecia não saber pra onde ia, andando aleatoriamente enquanto falava.

– Por aqui tem uma padaria – eu disse.

– Nah… Tô sentindo que a gente devia ir por aqui.

Isso era uma coisa que eu não acreditava em Norman Rocha, mas como não o via há um bom tempo e estava entediado, decidi entrar no jogo.

Seguimos pela rua que ele indicou e saímos perto da praça da igreja, sem nenhuma padaria por perto. Viramos à esquerda e continuamos andando, quando passamos ao lado de uma rua sem saída que me era familiar.

– Rá, tem um centro espírita nessa rua.

– Sério?

– É, eu lembro que vim aqui quando tava no ensino médio pra pegar uma mina espírita da minha sala.

– E isso deu certo?

– Não – acendi um cigarro enquanto olhávamos pra rua deserta.

– Vamo lá – ele finalmente disse.

– Pra quê?

– Quero saber os horários dos encontros. Eu tô estudando o Espiritismo agora.

– Ah vai se foder, Norman – eu ri, não acreditando.

– Tô falando sério, vamo lá! – ele parecia realmente animado. Suspirei e o acompanhei até o lugar. Havia um cartaz com o nome do centro, mas sem informações de contato. Norman tocou a campainha. Uma velha abriu o portão e falou com a gente. Norman disse que éramos jovens interessados na doutrina espírita e que queriam saber dos horários dos encontros. A velha disse que estavam tendo um naquele momento. Norman perguntou se podíamos entrar. Ela disse que sim. Entramos e eu descobri que odiava Norman Rocha.

Fomos até a sala e nos sentamos em um círculo, enquanto um tipo de professor falava. O tema do encontro era “quem pede com fé sempre será atendido?”. Puta tema. Chegaram à conclusão que sim, que surpresa. Mas aí uma das mulheres que parecia ter um QI um pouco acima do que a média daquela sala disse:

– Mas se um avião tiver caindo e a pessoa orar e pedir pra não morrer o avião não vai deixar de cair.

Eu segurei pra não rir. Mas o professor parecia estar preparado:

– Mas aí é que está: A oração será atendida, mas será que o que a gente quer que aconteça é realmente o que precisa acontecer? E se eu tiver que desencarnar naquela hora? Eu vou pedir pra deus e não vou desencarnar? Se fosse assim, ninguém morria, né?

Deus deve ser um cara muito foda mesmo. Pra criar um sistema de logística que altera o destino de 300 pessoas para que todas elas, incluindo os pilotos, aeromoças e crianças estejam no mesmo avião no mesmo dia em que está marcado para ele cair. Genial. Mas ninguém mais pareceu chegar a essa conclusão e a mulher que fez a pergunta aceitou a explicação e se calou.

Ficamos lá mais um tempo, ouvindo as evidências que se adequavam a uma conclusão pré-estabelecida. Norman falou alguma baboseira científica neurológica que explicava algumas experiências de quase morte, mas ninguém pareceu se importar. O encontro acabou e nós fomos embora.

– E aí? – ele perguntou assim que passamos pelo portão.

– Um monte de explicações cheias de buracos – respondi e acendi um cigarro.

– São metáforas, cara. Eu acredito que as explicações deles são apenas metáforas simbólicas pras teorias científicas. Nós temos muito o que aprender com eles, e é nosso dever levar a eles esse conhecimento, para que eles saibam da verdade.

– Não é nosso dever porra nenhuma – disse e traguei o cigarro – nós consideramos como metáforas, mas eles não. Pra eles é tudo real, espíritos, carma, possessão e tal. Não tem por que a gente querer entrar no espaço deles e tentar ensinar qualquer coisa.

– O que você tem contra eles?

– Como assim?

– Você diz que não se importa, mas você parece desconfortável perto deles, parece que isso te incomoda.

– O que é foda, Norman, é que esses caras dizem querer libertar o povo da culpa católica com uma religião menos punitiva e não mudam porra nenhuma. Você mesmo disse: Sua tia procurou um padre pra perguntar por que o filho dela nasceu sem cérebro e ele disse que era por que ela tinha se divorciado. Ela largou a igreja – traguei o cigarro – aí ela pergunta pra um espírita o porquê disso e ele fala que foi por causa dos erros que o filho dela cometeu em outra encarnação. E pra ela tudo bem!

Atravessamos uma rua e entramos no carro de Norman. Abri a janela para poder fumar e ele ligou o motor. Continuei:

– E o engraçado é que quando alguém é estuprado ou morto e falam que aquela pessoa merecia aquilo a gente chama de culpabilização da vítima, mas quando você joga essa culpa pra pessoa numa outra vida de repente isso vira algo louvável!

Norman foi dirigindo em silêncio, talvez se arrependendo por ter perguntado.

– E qual é o propósito disso tudo no final? – soltei a fumaça – tanto pros budistas quanto pros espíritas o objetivo final é parar de reencarnar. Você volta pra cá uma caralhada de vezes pra repetir seus erros e aprender com eles, mas no final, você simplesmente morre e tudo acaba. Então qual a diferença? Eles só atrasam a inevitabilidade da morte por mais algumas gerações. Por que não poderíamos ter simplesmente uma vida, uma chance de resolver tudo o que precisarmos pra nos tornarmos “iluminados”? Se bem que com o tanto de neurose que esse povo tem, umas 70 vidas não devem ser o bastante pra consertar.

– Pra onde vamos agora?

Senti meu estômago doer e lembrei que graças à aventura de Norman ainda não havíamos comido. Já eram 11h30, então algum lugar já devia estar aberto.

– Vamos procurar algum restaurante pra comer. Tô com fome pra caralho.

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