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Uma rocha desmorona no mar, ninguém vê o espetáculo.

Ninguém vê o espetáculo de uma árvore cair na floresta.

Vi uma notícia interessante sobre um rochedo, que foi cenário para um importante seriado televisivo, que desabou. O rochedo foi noticiado porque ele é a pedra do cenário do seriado e nada mais.

Você precisa ser a pedra do cenário do seriado, senão não será noticiado em sua morte.

Existe um espetáculo miraculoso em uma árvore que cai em uma silenciosa floresta.  Existe um espetáculo no poeta apertando suas frontes, tentando espremer o texto para o papel.

O mundo é cheio destes exemplos.

O mundo é um lugar engraçado.

O rochedo do seriado tomou seu holofote no fim de sua morte, antes dele desabar, era apenas um pedaço singular de pedra noticiada em algum conglomerado de notícia. Não se sabe o porquê dela ter ido ao fundo do mar, também pouco importa quantos anos a natureza demorou em esculpir tal beleza.

No final, virou um link compartilhado pelos amigos.

Tudo sempre pode se tornar algo ínfimo, algo de uma importância boba.

O pai de família com problemas financeiros, o rico empresário que foi preso, a mãe que morre atropelada, a atriz que foi encontrada com drogas, os holofotes ligados que pegam fogo e destroem um museu, a vela que tomba e queima uma comunidade carente inteira. Será notícia, será peso e será medida. Ainda que a tempestade venha a cair para ambos, apenas o guarda-chuva será o fiel escudeiro daquele que tem o poder para compra-lo.

Mas compra-lo não é errado.

A árvore cair não é errado.

A pedra também não está errada, ela não pediu para ser famosa.

Mas isso aconteceu, não há como voltar. Quem você ama morreu e você não pode se despedir, o prédio onde você passou as suas primeiras memórias de vida não existe mais, fora demolido. Aquele quarto com aquela cama com sua primeira namorada também não existe mais.

A árvore cai, a pedra afunda.

Você vai morrer.

Eu também vou, é inevitável.

Porém espero que não seja noticiado, seja algo velado, algo simples e singelo, que ninguém de fato note quando eu não estiver aqui para assistir o próximo filme da Marvel nos cinemas. Que ninguém chore quando tais palavras não forem mais escritas com tamanha violência em um pudico papel. Quem ninguém lembre-se de desligar o ventilador e fechar as gavetas, pois aquele ocupante nunca mais voltará.

A árvore terá caído, não tem volta.

A pedra terá afundado, não tem volta.

Não sou um cenário do seriado famoso, nem alguém que tenha feito algo realmente notável. Realmente estes que são notáveis são meros acasos, pequenas exceções.

O mundo engraçado também é estranho.

Despedidas acontecem.

Aquele tempo bom acaba.

Tudo vira recordação, memórias. Os insetos que moraram na árvore não estarão vivos até o amanhecer, o rochedo que foi o cenário também não poderá ser mais utilizado. Ninguém iria notar se fosse outro rochedo, apenas as pessoas que sabem que você existe notam que você pode deixar de existir.

Mesmo assim as flores continuarão a nascer, mesmo assim o relógio continuará a realizar o seu tosco trabalho. Os animais estarão vivos, as pessoas estarão vivendo. A água das torneiras pingará durante a noite e as baratas saborearão as migalhas de nossa sujeira. O mundo vive, mesmo que você não esteja nele.

Mesmo sem a árvore, mesmo sem a pedra.

Porém, o mundo sempre ficará sem aquele pequeno pedaço que se foi, o mundo sempre fara seu eterno giro com aquele pequeno pedaço faltando. A pequena poeira que fara sua falta.

A perda desabou.

A árvore caiu.

E este poema foi escrito.

 

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