como-acabar-com-cupins

Descobri cupins no meu guarda-roupa.
Como um nefasto problema que decide surgir na pior hora da minha vida. Como um rosto sem nome que decide sorrir no momento onde eu preciso eternamente chorar. Chorar como se não houvesse amanhã, chorar como senão houvesse hoje.
Aqueles insetos minimalísticos andando na mais perfeita fila, indo e voltando na mediocridade das suas próprias vidas. A princípio achei que fossem formigas, mas a verdade me estampou tão podre que fosse. Cupins corriam todas as memórias do meu passado.
Corroíam o que eu fui, e quem eu sou.
Corroíam sem dó minhas anotações, meus antigos poemas, minhas dores e meus amores já sanados.
Corroíam com extrema voracidade tudo aquilo que eu deixei passar. Todas as oportunidades, os beijos não dados e os sorrisos maldados.
Corroíam e comiam cada pedacinho de papel importante, na sua idiotice sincronizada, com a menor falta de felicidade possível. Todas as minhas memórias misturadas em uma pasta marrom de merda de cupim perdida no tempo mais breve e composto da serenidade juvenil.
Eu tinha dezesseis quando escrevi grande parte daquele monte de lixo.
Aos dezesseis, ninguém é levado a sério já dizia o antigo poeta.
Eles debochavam de mim, debochava do gosto de velhitude que tinham meus antigos textos.
Debochavam dos arquivos perdidos em milhões de discos rígidos que se foram junto aos meus velhos computadores.
Debochavam da mais pura mania de engavetar todas as minhas ideias grandiosas que não deram em nada.
Debochavam por nada mais terem do que fazer naquela vidinha imunda que possuíam, a vidinha sem motivo e sem fim de estar indo e voltando naquela trilha de pobreza poética.
Nunca fui levado a sério.
Era pleno o carvão que todo se tornava.
O cheiro daqueles cupins – cheiro de madeira molhada, madeira velha das antigas cabanas das avós das histórias infantis – Cheiro carcomido, sem sentido. O cheiro de velho e de mofo que ela tinha em proporção bem inferior.
O cheiro do problema que empurro com a barriga.
O cheiro daquilo que está por vir.
Conto as semanas com pesares de rochas nas costas.
Conto cada dia como se fosse o último. Uma lâmina de barbear próxima a traqueia. Um verso de adeus escrito no espelho e milhões e milhões de filmes que eu ainda não assisti.
O cupim dá risada de mim da mesma forma que o grilo me aconselha.
Eles andam, quase como formigas, eles comem, quase como nós. Comem e cagam, cagam e comem de novo, fazem suas trilhas que, quando desmanchadas, em menos de alguns dias tornam a remontar e remoer.
Nada disse dos cupins, pois tenho muitos segredos escondidos naquele quarto.
Os mesmos segredos que se perderam nas páginas que foram comidas.
Qual gosto tinha minhas velhas poesias? O amargor do coração também afeta a língua da mesma forma que o remédio vencido dado aos loucos?
O amargor do sofrimento de vários e vários amores não correspondidos –    misturados a literatura de Goethe, ah, meus tempos de menino – teria o mesmo gosto horrível de uma cerveja de marca duvidosa escaldada no tempo e no sol?
Teriam milhares de baratas presas em latas de Coca-Cola repletas de açúcar, armadilha cruel, preparada pela vingança das mesmas me atacarem em meus sonhos?
Barulho de madeira mastigada ao anoitecer”
Ainda escuto meu estômago de gordo reclamar, não pela comida e sim pelas unhas roídas e pela angústia de acordar mais um dia mergulhado na merda.
Pouso a faca sobre a margarina – desejando a, desejando a – velha iguaria perene no pão de cada dia.
Remendo o meu cinto da forma mais rústica possível para que minhas calças não caiam enquanto corro.
Remendo meu coração com as fagulhas mais fortes de amores roubados, com filmes de televisão paga e com livros surrupiados de bibliotecárias desatentas.
Remendo meu quarto com visões periféricas de mim, M.I.O.P.E. desejando um meteoro, uma turbina de avião, um raio, ou a fúria dos deuses que não acredito.
Remendo meus versos os rescrevendo noite a fio no desejo de me tornar o próximo Ginsberg ou Whitman.
Remendo minhas doces lembranças quando abraçava meus amigos sinceros e falava palavras reais.
Remendo minhas roupas.
Remendo minhas memórias.
Remendo minha gordura.
Remendo minhas dores.
Evitarei rimar, por hora.
Evitarei desistir, por hora.
Evitarei o suicídio, por hora.
Evitarei os cupins, por hora.
Pois este problema cresce, este problema corrói, este problema destrói. Terei que sana-los em algum momento, terei que resolve-lo em algum momento. Tudo terá que estar “ok” em alguma hora, mas não sei quando.
Minha barriga não é tão grande para que eu possa empurra-los por mais distante.
Todas as suas cores marrons e seus cheiros de madeira podres se misturaram ao barulho irritante do meu ventilador de teto.
Em meu quarto minúsculo – cabe a cama, o guarda-roupas e a mesinha onde repousa meu velho computador – guardarei todas as dores que serão corroídas junto as roupas que nunca usarei.
Minha vida se tornara esta marmota inquieta e repetitiva que de mal paga a mal infundada vive em reclamações posteriores.
Procurarei pastores de igrejas evangélicas, procurarei padres de igrejas católicas, procurarei Budda em meus sonhos da mesma forma que Abraxas nos livros de Hesse.
Tenho que ler mais.
Tenho que falar menos.
O velho carrasco me persegue.
Estou junto às baratas na lata de Coca-Cola.
Me afogo lentamente.
Não durmo, peço socorro através destes versos da mesma forma que um naufrago em uma ilha perdida.
Onde está meu índio Sexta-Feira?
Meu Wilson?
Os cupins comeram, comeram a todos, comeram as memórias que cultivei durante uma década toda.
Comeram até sobrar pó e fezes.
Até sobrar meus erros de conjugação nunca aprendidos nos colégios.
Até sobrar o pó das montanhas distantes.
As baratas mortas.
As ideias perdidas.
Os cupins caminham decididos pela minha destruição. Temo pela minha vida pois me atacaram ao dormir.
Minha entomofobia grita, tenho medo daquelas patinhas minúsculas me atacando na madrugada.
Das antenas das vingativas baratas.
Das cabeludas patas das aranhas.
Da cara séria do escorpião.
Apenas o grilo e meu amigo, ele não me deixa dormir.
A rainha cupim rindo com meus versos e minhas lamúrias. Rindo alto e comentando com as francesinhas imortais.
E eles trilhando sua vida, no meu guarda-roupa, no telhado de minha casa, no teto do meu quarto e no profundo de minha alma. Deixando o cheiro de madeira molhada apodrecida. Aquele cheiro marrom no ar.
Mastigando meus versos esquecidos.
Fazendo um bem para a natureza.

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