– David. Lilith.

– E aí. Me vê uma coca.

– Oi. Um café pra mim.

Eu havia saído da facul com Lilith, na época em que ainda nos falávamos e fui ver o guitarrista de minha banda de hard rock em uma lanchonete ali perto, onde ele trabalhava. Eu falava com ele regularmente pra conversar informações sobre shows ou quando estava entediado.

– Vamos tocar na Caverna sábado.

– De novo?

– Show de Halloween. Festa à Fantasia.

– Que merda.

Caverna era um bar da cidade onde sempre tocávamos. Devia ser o único bar de rock decente da região. Os outros eram muito longes, muito caros, muito pop ou os donos eram escrotos. Com a exceção do risco de ser fechado por não atender às exigências dos bombeiros, o Caverna era perfeito. Mas nós sempre tocávamos lá e eu já estava de saco cheio de tocar as mesmas músicas pro mesmo público no mesmo lugar.

– Cala boca. A melhor fantasia vai ganhar uma tattoo do mãozinha.

– Mãozinha? – Lilith disse.

– Que caralho de apelido é esse?

– Dizem que o cara só tem uma mão.

– Caralho.

– É, como será que ele consegue, né? Mas eu vi o trampo do cara, manda bem.

– Hum… Onde será que ele apoia o toco se eu pedir pra ele tatuar minha virilha, hein? – Lilith disse. Marcos fez uma expressão de espanto e eu de tédio.

– Esqueci de te avisar que ela é pervertida.

Disse pra Marcos. Ela costumava falar coisas do tipo pra chocar, quando estava entediada. Era um dos joguinhos dela. E talvez por aquilo não me afetar ela fizesse perto de mim, tentando captar uma reação.

– Você vai do que? – ele perguntou.

– Sei lá. Jason.

– De novo?

– É só a porra de uma máscara e uma roupa cinza que eu já tenho, não vou gastar mais grana pra tocar em um show de graça!

– Espero que a faculdade dê certo pra você, David – Lilith disse e riu.

– Vai se foder – eu respondi.

Eu odiava festas a fantasia. Aposto que Baudrillard as chamaria de um exemplo de hiper-realidade: Da mesma forma que criamos presídios para poder acreditar que nós do lado de fora somos livres, fazemos festas à fantasia para poder acreditar que nossas vidas são reais. Mas eu tinha que tocar lá e valendo uma tatuagem, mal não podia fazer.

Marcos me deu carona até o local, com Luiz, um amigo nosso que costumava cheirar com a gente no banco do passageiro. Ele estava bêbado, falando pra caralho enquanto eu fumava meu último cigarro.

– Aí, tem como a gente parar no posto pra comprar cigarro?

– Beleza, eu vou pegar papel higiênico no banheiro, enrolar no corpo inteiro e ir de múmia na festa! – Luiz disse. Era o único sem fantasia. Nós paramos num posto logo a frente.

– Você não vai abandonar seus filhos, né? – Marcos disse, citando a clássica desculpa dos filmes para o homem abandonar sua família.

– Meus filhos estão mortos – disse com uma voz séria – eu os afoguei hoje de manhã na pia… No vaso… No lençol da cama…

– É um punheteiro do caralho mesmo, né! – Marcos disse, rindo. Falei para Luiz:

– Luiz, compra um cigarro lá pra gente.

– Ah, qual é, David? Não tá afim que te vejam na sua fantasia? – disse com um tom provocante.

– Vai logo que eu sei que você vai fumar também.

Ele pegou a grana e entrou no posto. Fiquei esperando com Marcos e ele botou um tiro pra gente. Senti o gosto amargo na garganta e a euforia começar a bater. Marcos preparou um pra Luiz e ele voltou com cigarros e um chapéu branco que tirou de debaixo da camiseta.

– Desistiu do papel higiênico? Que merda é essa? – perguntei, acendendo um cigarro pra tirar o gosto.

– Minha fantasia – disse – olha pra mim: Sou o Zé Pilintra!

– É só a porra de um chapéu branco.

– Que nada! Eu vou ganhar aquele troço, fica só vendo!

– Você pagou por essa merda?

– Claro que não – Luiz deu um tiro e Marcos e eu rimos de sua idiotice bêbada. Marcos ligou o carro e seguimos pro bar.

Tiramos o equipamento do carro e levamos pro palco. Luiz estava falando com todo mundo do bar. Ele normalmente era um cara tímido, mas quando ficava bêbado, puxava conversa com qualquer um. Ele tirava seu chapéu e fazia uma dancinha e as pessoas riam desconcertadas, mas logo estavam dando ouvidos a ele. A técnica funcionava, eu tinha que admitir.

– Me dá um soco – ele dizia e então ficava com um sorriso idiota esperando.

– Tá louco? Eu não vou fazer isso – todos a quem ele pedia (e eram todos) respondiam.

– É sério, é que nem clube da luta, eu não quero viver minha vida sem algumas cicatrizes.

Ele citou a fala do filme, mas ninguém teve coragem de dar um soco de verdade nele, nem eu, apesar de sentir vontade. Mas nós apenas bebemos e cheiramos a fumamos uns cigarros antes do show começar.

Uma hora eu estava sentado e uma garota começou a dar em cima de mim, o que era incomum. Estava em uma roda com mais uns três caras e falava com Selene pelo celular, minha namorada na época. A distância entre nós era grande, mas não grande o suficiente pra eu traí-la com alguém como aquela garota.

“Ai, empresta a máscara, Jason?”, “vou tirar foto”, “nossa, você não fala”, “fica só aí no celular”. Isso era bem incomum, mas não me afetava. Os caras ao meu redor incentivavam e faziam comentários sobre o que fariam e como fariam com ela.

– Vai lá, ela é toda de vocês.

Mas ninguém se movia, nem ao menos falavam com ela. Eu apenas ri e continuei fumando meu cigarro.

A hora finalmente chegou e nós começamos a tocar. A máscara era irritante e o suor acumulava nela, então eu tentei me mover o mínimo possível até que decidi tirá-la. Na metade do show eu já estava sem metade da fantasia, mas isso não importava, eu poderia colocá-la na hora da votação.

O show foi foda e a euforia do pó e do álcool o tornaram ainda mais prazeroso. Quando terminamos de tocar, guardamos as coisas, eu vesti o resto da fantasia e sentamos, esperando o vocalista – que era amigo do dono do bar – fazer o anúncio.

– Quero pedir a todas as mulheres fantasiadas que subam ao palco.

Não havia tanta gente assim. Já era quase de manhã, muita gente já tinha vazado e muitos não estavam fantasiados. Umas cinco mulheres subiram e o público votou por meio de aplausos:

– Uma salva de palmas para a bruxa!

O vocalista disse, e a mais votada venceu. Não me lembro quem foi. Não importa. Depois disso começou a votação para os homens:

– Quero pediu a todos os homens fantasiados que subam ao palco.

Acho que além da banda tinha mais uns três no palco. As chances eram boas, mas aí o vocalista disse:

– Quero avisá-los que para que não hajam acusações de trapaças os membros da banda não participarão da competição.

Eu e Marcos descemos do palco, putos. Não tínhamos tido muito esforço, mas nossas fantasias eram as mais realistas, e nós nem queríamos estar usando-as pra começo de conversa. Mas enfim, descemos do palco e sentamos. O vocalista continuou:

– Então vamos ver: Uma salva de palmas para o esqueleto! – o homem fantasiado levantou a mão e algumas pessoas aplaudiram. Ele fez isso com mais um vampiro e um demônio mal maquiados e pessoas aplaudiram quase na mesma intensidade do primeiro.

– Pera aí, você esqueceu de mim! – Luiz apareceu no meio da pista como se brotasse das sombras, e todos olharam para ele, primeiro surpresos e depois rindo. O vocalista não se conteve:

– Você tá fantasiado de que, meu filho?

– Fala Mansa! – ele disse e fez a mesma dancinha do chapéu de antes. O bar inteiro riu e aplaudiu.

– Uma salva de palmas para o Fala Mansa! – o bar inteiro aplaudiu e o idiota do chapéu branco ganhou a tatuagem. Marcos não parava de rir e ninguém conseguia acreditar naquilo. Fechamos as contas no bar, entramos nos carros e fomos embora. E eu me arrependi por não ter socado a cara de Luiz quando ele me pediu para que fizesse isso.

Um tempo depois falei com Marcos, perguntei o que Luiz tinha tatuado.

– Nada. Acredita que ele não quis ir no cara por que ele só tinha uma mão? Ele também disse que não sabia o que fazer.

– E o que ele fez com o vale?

– Jogou fora.

– Que filho da puta.

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