Textos

O Conto que morreu afogado.

pexels-photo-143967Algumas teimosas gotas de chuva entravam pelo telhado, resvalando pelo forro e escorrendo por cima de minha escrivaninha. Tem chovido um bocado nos últimos tempos, chovido mais do que o necessário para manter o clima limpo, bom e ameno. Chovido mais que o possível para matar afogado alguns mendigos, famílias pobres e moradores de zonas de risco.
Tem chovido tragicamente.
As finas e frias gotas pintam cadenciadamente, tal qual uma tortura chinesa que impede o torturado de ter um sono dos justos. Existe uma probabilidade pura naquela água que primeiro saiu de um rio poluído, para ir até um céu poluído, escorrer pelo meu sujo telhado até cair na minha bagunçada mesa.
Minha mãe sempre reclamou sobre minha bagunça.
Sempre me dissera que minha desorganização iria causar-me um completo desastre, que eu era um meteoro em rota de colisão e que quando eu explodisse na atmosfera eu iria espalhar medo e morte. Eu era o cometa que sinalizava a destruição aos povos antigos, isto segundo minha mãe.
Tal coisa nunca modificara em mim. Sempre fui e continuo sendo uma bagunça em todos os sentidos. Mais cedo, ao assistir à um programa de auditório, uma especialista em alguma coisa fútil disse que nosso estado de espírito pode ser deduzido pela nossa organização no guarda-roupa.
Mudei de canal.
Não sei exatamente o que tem nestas gotas de chuva, porém elas, de sacanagem, resolveram pingar sobre minha escrivaninha. Pouco a pouco a água se espalhou molhando algum dinheiro, um troco qualquer de passagem de ônibus, molhando alguns papeis desimportantes, molhando anotações valiosas e o meu último conto, escrito rusticamente a mão e caneta. A natureza despencou aquela água da profundeza dos céus unicamente para destruir meu trabalho, o resto do dinheiro de uma passagem de ônibus qualquer, lembranças desimportantes e o fruto do trabalho de horas a fio, onde eu poderia estar atualizando algum seriado ou estudando.
A natureza sempre age desta forma, destruindo o que é belo.
É a sua vingança contra o homem moderno. Contra o mendigo. Contra o morador de rua. Contra o que não vive em um prédio.
Mudei de canal.
Meu guarda-roupa está todo carcomido de cupins. Grande parte de minhas roupas são pretas. As poucas roupas sociais que possuo estão velhas e minhas calças jeans estão furadas nos fundilho. Aquela profissional da televisão teria uma sincope se visse o meu guarda-roupa.
A goteira também o atacou. Agora ele está completamente úmido e mofado. Igualzinho minha vida.
Mudei de canal.
Não consigo dormir. Estou escrevendo este texto, são duas da manhã.
A goteira toca sua música triste, um jazz lamurioso, as gotas lembram os gordos dedos engordurados dos pianistas entediados. Eles esperam o momento para o seu solo, esperam o momento que o trompetista diminua seu egocentrismo e eles possam arrebentar. O pianista está bêbado. Um trovão acontece.
A música cessa.
São três horas da manhã. A única luz perene na escura noite é a do notebook.
Lá fora os pobres diabos morrem afogados nas lágrimas da mãe natureza. O noticiário será previsível.
Aqui dentro é narrada a tragédia do conto que morreu afogado em uma goteira, uma forma imbecil de se morrer. Estas palavras não poderão mais ser escritas, o que estava naquele papel nunca mais verá a luz do dia. Praticamente um natimorto, afogado no líquido amniótico. Não viu a luz do dia, ou melhor, não pode ser guardado no oblívio de uma gaveta escura.
Também pode ser uma grávida que foi esfaqueada na barriga, morrendo afogada no próprio sangue com aquele que estava se alimentando no seu interior tão morto quanto ela será.
Aquele texto, aquela história está morta.
O escritor não consegue dormir.
Lá fora chove torrencialmente.
Meu guarda roupa é um desastre.
Eu sou um bagunçado.
Somos todos vítimas da mãe natureza e sua vingança. Tudo o que fazemos acaba voltando e esta é a resposta inominável para a maldade que aqui jaz. Não deveras, de fato, sentir a dor de suas vítimas, porém ela mesmo não se importa, também nunca nos importamos. Está chovendo lá fora, é o lamento dos deuses esquecidos, está chovendo muito forte, imparcialmente para todos, porém aqueles que conseguiram se proteger nos tetos de cimento apenas assistem ao espetáculo do afogamento coletivo.
A mãe natureza nos pune por nossa bagunça. Nascemos bagunçados e assim seremos até o fim de nossos dias. Todas as pequenas destruições perante aos seus grandes desastres, uma coisa é certa: Uma mãe sempre tem razão. Uma mãe sabe castigar.
A chuva cessa, as nuvens não permitem que o sol brilhe.
Os mortos se acumularão ao decorrer do dia. Os carros esmagados por arvores caídas, as famílias dizimadas por ventos fortíssimos. A mãe que perdeu a novela porque acabou a luz.
Todos contarão os mortos no noticiário do meio dia.
A natureza foi vingada.

 

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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