março 20, 2017

segunda-feira

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Hoje pode ser a última segunda-feira da minha vida.
Li isto num anúncio de cosméticos baratos. Li isto em um outdoor, li isto nas costas de uma barata necromante. Quem poderá jugar o escritor que anda com seus passos tortos em um espaço incólume. Ninguém sabe de fato o que poderá acontecer em um descer de um ônibus.
Eu estava em um ônibus com o meu amigo autor, eu lia suas palavras frias ignorando o vendedor de balinhas que dizia: “peloamordedeusajudeacasaderecuperaçãodeusuáriosdedrogas – peloamordeDeus”
Comprei a balinha do coitado.
Comprei a briga do coitado.
Pela janela vejo todas as paisagens que irão se transformar com o passar do tempo. Penso em minha mente inquieta que aquele dia será um grande dia. Aquela semana também poderá ser uma grande semana. Ninguém nunca sabe ao certo o que poderá acontecer num dia incomum.

Alguns versos se formaram em minha mente, se perderam antes que eu pudesse imortaliza-los em um papel. Algumas palavras surgiram na janela daquela condução, tudo que se transformava no lado de fora, tudo que se transformava dentro de mim. Poderia eu ser um deus descansando, o escolhido do filme hollywoodiano. Eu mesmo tentando buscar uma lógica para trabalhar onde trabalho e ser o que sou.

Acaba a música no celular.

Em uma praia distante um homem anda com sua solidão, ele busca uma explicação lógica ao olhar a distante areia da praia se encontrar, se abraçar, se entrelaçar com o profundo e gélido azul marítimo. Dentro de si dançam adjetivos mirabolantes, com um pesar sorriso óbvio.
Dentro de si um homem morre para outro nascer.
Seus passos afundam na quente areia da desconhecida praia, ele anda sempre para o oeste, sempre para a promessa de um caminho a seguir. Em sua cabeça a música que ouvira quando criança, nos chistes que sua mãe cantava, nos sussurros de uma rádio dos tempos de infante. Era tão fácil ser um lobinho em um quente mundo protegido, porém agora estava contra sua sorte, estava só no deserto das desilusões
O mar era implacável.
O mar era um gigante que se levanta.
Sou um vagabundo – ele pensa para si mesmo – hoje é segunda-feira e estou na praia.
Eu canto pelo prazer
Eu sangro pela dor

O ônibus vira uma curva mais forte, uma senhora cai para o lado, quebra a janela e se encontra com o asfalto. O sangue se espalha como molho de tomate, as tripas saltam como linguiças frescas e o seu rosto e comido pela obra humana feita para transitar carros como máximo de conforto. Seus olhos saltam e seu preconceito se mistura a sua carne. Ela era cristã, vai para o céu. Uma vítima de uma segunda-feira.

Mas não é isso que quero contar.

O ex-drogado conseguiu vender mais uma balinha.

Fico com uma felicidade dentro de mim, ele conseguira cumprir alguma porcentagem da sua missão, eu comprei a sua briga, eu colocaria uma arma na cabeça de cada passageiro daquele caminhão cheio de carne humana e obrigaria a contribuição para aquele pobre coitado. Eu não tenho uma arma, só um livro. O homem busca centavos por centavos, andando por entre as cadeiras daquele transporte. É segunda-feira, a primeira viagem do dia.

Todos odeiam a segunda. Ela está chorando no banheiro. Ela quebrou o espelho e está se cortando com os cacos. Ela queria ser amada, ela queria ser a sexta-feira que todos amam. Ela queria sair com os amigos e beber até cair, vomitar todo o ódio que ela tem contra Deus. Ela queria ser triste o bastante para escrever uma Elegia. Ela se acha a rainha de todos os reis, a dona da pousada mais próxima do mar. Ela não sabe acentuar uma palavra, por isso todos odeiam a segunda.

O ônibus está chegando a seu destino. Todos se levantam. Todos estão ansiosos para a chegada, mal olharam a paisagem do caminho. Mal olharam para as árvores que caíram em nossa homenagem. O motorista não existe, ninguém dirige aquele carro. O trocador é meu amigo, não reclamou quando pulei a catraca. Ele sorriu, apenas isso. A senhora que morrera também fora muito gentil, deu o seu lugar para que eu pudesse sentar e ela foi catapultada para fora do ônibus – como descrito mais acima –

Nada poderá machuca-lo até que você se importe.

O mundo não vai acabar até que você goste dele.

Me preparo pra descer, ninguém estava preparado de verdade para descer. Todos estão ansiosos, é segunda-feira, todos estão ansiosos, tal qual a carne que se prepara para o abatedouro. Todos estão ansiosos. A inteligência artificial, chamada Hal-9002 prepara o seu trajeto diminuindo a velocidade. Vejo os prédios ficarem cada vez mais lentos, mais próximos, mais letais. Vejo o mundo se tornar cada vez mais lento.

Algo bate no ônibus, ele capota várias vezes lançando os seus personagens interiores para fora.

Moedas rolam pelo chão, o homem dos drogados está morto.

O trocador é meu amigo, vou encontra-lo no inferno.

Todos odeiam uma segunda-feira.

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Sobre Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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