Crônicas

O Sacerdote da Ciência

Um dia eu estava no Caverna bebendo. Um amigo meu que não via há muito tempo estava na cidade, e resolvi mostrar a ele meu bar de rock favorito da região. Era um dia sem movimento e estávamos sentados do lado de fora bebendo e fumando e botando a conversa em dia.

Ricardo era do tipo cientista: Idolatrava a ciência como o único método válido para a verdade e as ciências exatas e biológicas como as únicas ciências de verdade. Tinha uma visão lógica e racional do mundo e abominava religiões e misticismo, mas confiava no meu ponto de vista o bastante para me ouvir falar de coisas não científicas, ou seja, era um bom alvo para meus argumentos.

– Tava vendo um vídeo esses dias, de uma palestra do Dawkins – ele disse – um cara perguntou pra ele sobre a questão da ciência, de como eles podem ter certeza que ela é real, como categorizam as evidências.

– E o que ele respondeu?

– “Nós aplicamos ciência na medicina e salvamos vidas, aplicamos na astronomia e fazemos foguetes voarem. Como sabemos que a ciência é real? “Because it works… Bitches” – ele disse e riu e eu também e pedimos outra cerveja.

– É, exceto quando não funciona… E os astronautas morrem queimados – disse.

– Bom, merda… Talvez devêssemos ter rezado para eles serem transportados, então – ele riu.

– Não confiar em método não quer dizer que confio no outro – respondi.

– Verdade. Mas você tem que confiar que alguma coisa vai funcionar… E você tem a ciência e as outras coisas, e aí tem que escolher um dos dois.

– Eu posso escolher sem confiar em nenhum dos dois.

– Claro. Mas por que faria isso?

– Eu não confio mais na ciência. Pelo menos para assuntos humanos.

– Assuntos humanos?

– Coisas que envolvem gente, ao invés de máquinas, computadores ou a natureza – disse, e acendi um cigarro – quer construir foguetes, fique a vontade. Mas se quiser falar de gente, melhor tomar cuidado.

– Por que você acha isso?

– Por que eu acho que você não deve confiar na ciência? Por que não é você que está lá fazendo ela. Pra confiar na ciência você tem que confiar nas pessoas, e as pessoas tem todo motivo do mundo pra mentir pra você.

– Você é paranoico, cara – ele deu um gole em sua cerveja e riu.

– Sou? Burroughs disse que “um homem paranoico é um homem que sabe um pouco sobre o que está acontecendo”.

– Claro que sim – debochou.

– Mas sério, com as merdas que a ciência faz e a falsificação de dados… E eles sempre falam “hey, foi mal, nós estávamos errados, mas fazer o que? É o método científico, é verdadeiro até alguém inventar uma teoria melhor”. Bom, claro, diga isso pras milhares de pessoas lobotomizadas, trepanadas, internadas, torturadas e mortas por métodos que eram considerados “científicos” e “comprovados” na época até serem desbancados.

A expressão de meu amigo começou a mudar.

– E isso sem nem falar sobre a falsificação de dados… Tem dois grandes experimentos de psicologia social americana, de Zimbardo e Milgram, que existem acusações de terem tido os resultados falsificados pelos pesquisadores. E eles são tipo, as bases dos livros de psicologia, todos os estudantes de primeiro ano devem aprender essa porra, tem até filmes sobre eles.

– Caralho.

– Ah, e sem falar também naquela velha questão das indústrias farmacêuticas e psiquiatria… Psiquiatras inventando novas doenças a cada dia para aumentar as vendas de remédios… Essa merda é real, não algum tipo de teoria da conspiração…

Joguei a bita fora e tomei um longo gole da cerveja enquanto Ricardo parecia refletir, e então continuei:

– Então caralho, velho… Como você pode confiar em qualquer coisa dessas? Com toda a política e a grana que tem por trás… Se você, Ricardo, aplicar o método científico em algo e ver os resultados, pode ter certeza que são reais… Mas quando está lendo artigos sobre pesquisas de outros cientistas, vai saber? Minha ex disse que uma nutricionista foi cassada e processada por falar mentiras numa entrevista sobre fatos sobre o consumo de carne, saúde e tal… Uma companhia de carnes pagou ela pra fazer isso, mas ela foi pega. Mas quanto mais disso será que acontece e as pessoas não são?

– É… Tudo com o que se importam é com a grana… Mas isso não é desconfiar da ciência, e sim de pessoas – disse e terminou o copo.

– De fato… – enchi o meu – mas a menos que você seja um supercientista formado em todas as áreas existentes, é possível acessar “a ciência” de outra forma. Você precisa confiar nos outros cientistas e artigos e pesquisas.

– É… Foda – ele acendeu um cigarro e ficou pensativo, parecia que eu havia consegui-lo afetá-lo – olhando dessa forma, aquelas pessoas que dizem que “a ciência é só outra crença” estão certas…Você tem que acreditar nos autores, nos cientistas.

– Nos sacerdotes da ciência.

Disse, e nós rimos.

– E isso faz o que de você? Um sacerdote da matemática/física? – disse e ele riu.

– Ultimamente eu tô mais pra um raver.

– Um o que?

– Ouvindo música eletrônica e enchendo o cu de droga em raves.

– Olha, sobre a música eu não faço questão, mas do resto, muito me agrada – disse, e terminamos os copos.

– Você trouxe?

– Claro que sim, jovem gafanhoto – disse, dando um tapinha no bolso de minha calça – paguemos a conta, peguemos o carro e iniciemos então a noite – disse com um tom épico, porém irônico.

– Iniciar? Achei que já havíamos feito isso.

– O que? De jeito nenhum, meu caro. A noite é uma criança birrenta… E eu não mamo já faz um tempo.

Anúncios

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

0 comentário em “O Sacerdote da Ciência

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: