Textos

Pedaços imperfeitos de papel.

As últimas memórias foram incendiadas. Eram velhos diários, com capa grossa e estilizada. Memórias de uma juventude que há muito eu não lembrava. O fogo crepitou com mais intensidade, carbonizando aqueles restos de papel, eliminando os traços de caneta de sua superfície. Lavoisier dizia que tudo se transfora. De fato, não há nada que fique no mesmo lugar para sempre.
O dia era úmido, havia chovido bastante naquela manhã. O quintal há muito não visitado por mim parecia um tanto degradado, um tanto perdido. O mato já crescera bastante, as madeiras estavam podres com os caminhos dos cupins desenhando rotas. O velho piso de cimento completamente rachado. Tudo ali arremetia de um tempo que não existia mais, de uma história que era minha. O pesar de virar uma página.
Eu morei naquele lugar durante toda minha juventude.
O grito das crianças ainda podia ser ouvido, a brincadeira de pega-pega, o esconde-esconde, as risadas. Não havia problemas, não sabíamos o que eram problemas, tudo tinha que ser do jeito que era, sem preocupações com nada.
Preocupações, talvez o maior sinal que tenhamos nos tornado adultos. As dores de cabeça junto aos boletos das contas vencidas. Se tornar alguém na vida, ter uma vida, uma família, um carro, um sustento, uma previdência. Um dia iremos envelhecer, estaremos mortos.
Cada um com o seu dilema.
As crianças estavam em minhas memórias, estas que joguei na fogueira feita com pedaços de uma madeira velha, álcool e fósforos. O calor do fogo aquecia minha face, um fogo revigorante dentre a tarde fria daquele sábado qualquer.
Assistir as chamas arderem e transformarem era uma metáfora imbecil sobre o que somos. Pensar que precisamos ser destruídos para que, assim possamos nos transformar, pensar que o mundo ao nosso redor não será mais, nunca mais, o mesmo, que tudo terá um gosto único e vazio ao envelhecer. A felicidade, plena e pura, era a cenoura amarrada ao ancinho, longe do nosso alcance, longe e distante e se afastando cada vez mais.
Felicidade era a palavra estampada toscamente no outdoor das tentativas e falhas. Era a busca mais que eterna. Para sermos plenos precisávamos apagar o passado.
A fogueira já extinguira um pouco antes da noite cair. Tudo que eu vivera nos últimos quinze anos não passavam de um amontoado de cinzas e pó. A brasa ainda estava morna, com um vermelhidão tristonho em seu interior. Não havia reparado os vários pedaços de papel chamuscados que farfalhavam junto ao vento do fim da tarde. Em  cada ponto de papel uma palavra perdida: Solidão, dor, perdão, perdido, filho, fome, chorar, querer, saber, fracasso, fracassado, sufocado, corda, despedida…
Era impossível ler todas, o vento as assoprava, embaralhava o seu sentido, sua própria angústia. Eram pequenos pedaços de papel, um papel que nunca se apagara. Tais palavras foram escritas com fogo no véu da eternidade. Tais palavras estão presas, eternamente, como uma cruz que se leva, arrastando e deixando um rastro no chão. Estes diários foram escritos durante uma juventude toda, com os primeiros poemas, os primeiros contos, os primeiros e solitários textos. Sua imperfeição era completa, uma perfeita margem.
O primeiro imperfeito.
Começa a chover, a noite caiu tão pesada. Estava escuro e frio. A fogueira agora era apenas um amontoado de cinzas mortas, inertes. Os poucos papeis que ainda sobrara, estavam grudados ao chão, encharcados pela fina chuva que começara a despejar sobre tudo aquilo. Pedaços chamuscados que não irão par alugar nenhum, pensei. Ficarão ai, eternamente presos. Porém eu também estou eternamente preso, neste minuto, neste segundo, nesta história. É a minha história que se foi, sou eu quem foi queimado.
Mas não me importo,  porque deveria? Não sei o como será daqui em diante, o futuro é negro como esta noite,  gélido como este vento. O futuro é Kafkiano e não me orgulho disto.
Me despedi destas memórias e parti, alguém me esperaria em casa. Tomaria um café, ou um chá, comeria bolachas e falaria como meu dia tinha sido perfeito e como tudo se encaixou (mentira). Era preciso atuar, era preciso fingir, era preciso ser o que não era para que ninguém se decepcionasse. Tudo fazia parte do jogo, do plano, da imperfeição. A vida era “roleplaying”, interpretar papéis,  diversos deles. Mesmo involuntariamente, mesmo que fosse apenas pra causar cáusticos risos.
Eram imperfeitos tais papeis, eu sei disto, minhas memórias não seriam exemplos de perfeição e exatidão. Porém era o que eu possuía, pois o resto queimara na fogueira.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

1 comentário em “Pedaços imperfeitos de papel.

  1. Triccia Araújo

    Uau! (Fiquei sem palavras…)

    Curtido por 1 pessoa

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