Faltavam 40 minutos para entrar no trabalho.

Aparentemente Tatuapé é um bairro cheio de puteiros. Não falo por conhecê-los pessoalmente, mas havia uma época em que trabalhava lá que sempre que saía do metrô recebia um panfleto diferente, de uns quatro ou cinco lugares diferentes. Para alguém do interior acostumado com uma maior discrição aquilo era de chamar a atenção.

Um tempo depois comecei a ir de bicicleta para o trabalho. Eu não tinha uma bicicleta no momento, já que eu havia destruído uma cinco anos atrás num acidente e perdido a outra quando foi roubada, então eu usava uma daquelas do banco que ficavam espalhadas pela cidade. Nunca gostei de bancos, mas tinha que admitir que aquele havia sido um bom investimento, pelo menos pra mim.

Em um dos dias que estava seguindo essa rotina, o pneu furou no meio do caminho. Maravilha. Continuei pedalando com força, sentindo o metal duro da roda traseira de chocando contra as pedras e buracos e torcendo para que o aro não arrebentasse antes que eu chegasse na próxima estação para trocar a bicicleta.

Faltavam 30 minutos pra entrar no trabalho.

Por sorte havia uma delas bem na frente de uma estação de metrô. Eu a abandonei lá, xingando e peguei o metrô. Achei um desperdício pagar uma passagem para andar apenas uma estação, mas eu teria que esperar 15 minutos para pegar outra bike, e não quis arriscar perder a hora.

Saí no metrô Tatuapé, enfrentei o mar de gente na linha vermelha e peguei mais um dos panfletos de puteiro distribuídos ao lado do shopping. Mas dessa vez, algo diferente aconteceu: Mulheres morenas com vestidos exóticos povoavam a calçada. Achei aquilo interessante, mas tinha que ir para o trampo, então continuei andando, mas uma delas viu que eu estava fumando e me interrompeu:

– Moço, me dá um cigarro?

 Abri a caixa e dei um para ela. Ela me puxou pela mão e disse que iria ler meu futuro. Apesar de ciganos sempre terem me interessado mesmo sem ter tido muito contato, eu estava preocupado com o tempo. Pensei em ignorá-la, mas aí olhei em meu celular e vi que a viagem de metrô havia me dado uns bons minutos a mais e decidi entrar no seu jogo.

Faltavam 20 minutos pra entrar no trabalho.

– Essa aqui é a sua linha do futuro, eu vou ler e depois você pode deixar um agrado pra nós? O que puder, não precisa ser muito.

– Claro.

– Essa é a linha do seu relacionamento. Aqui tô vendo que você vai ter duas mulheres na sua vida, uma branca e uma morena, você tá namorando?

– Não.

– Vejo aqui nessa outra uma luta com uma doença… Tem alguém doente na sua família?

– Bom, tirando diabetes, artrite, artrose, essas coisas de velho que meus avós têm, não.

– Problema de alcoolismo, com drogas, nada?

– Não – “tirando eu, não”, pensei.

– Aqui estou vendo que você tem amigos que gostam muito de você, mas que também tem muita inveja. Tem que ficar esperto com eles.

– Tá certo.

– Eu vou pedir pra ela te abençoar agora, pra tirar todo o mal de você e garantir que você tenha boa sorte, tudo bem? Com quanto você pode colaborar?

Eu olhei o que tinha na carteira, tirei as duas únicas notas de dois e dei pra ela. É óbvio que eu não acreditava em nada daquilo, mas paguei pela experiência e por que aquilo não ia fazer falta. Ela me puxou em direção à uma velha que estava sentada na calçada, na sombra, quase imperceptível para a multidão que andava de um lado pro outro.

Eu me abaixei e ela começou a falar comigo, mas eu não conseguia entender mais da metade do que ela dizia. Outra mais jovem tentou ajudar com as instruções:

– Pega uma nota e segura com força com sua mão direita, que ela vai abençoar e quando você gastar o dinheiro isso vai mudar sua vida.

– A última nota que eu tinha eu dei pra outra…

Abri minha carteira e mostrei estar vazia. As duas pareceram surpresas.

– Você tem cartão? Pode ser cartão.

Segurei o riso. Ciganas modernas essas, além de papel abençoam pedaços de plástico magnetizado. Peguei o cartão.

– Segura com força, ela vai te abençoar e a próxima vez que você passar o cartão vai mudar sua vida.

– No débito ou no crédito? – perguntei sério, segurando o riso, e ela pareceu surpresa de novo.

– Não importa, tanto faz.

A cigana mais jovem se afastou e a velha continuou. Ela falou mais algumas coisas que não entendi e perguntou se poderia deixar um agrado pra elas.

– Quanto você pode dar?

– Eu já dei meu dinheiro pra outra…

– Sim, mas quanto você pode deixar pra eu te abençoar?

– Eu não tenho mais dinheiro…

– 50 reais pesa?

– Eu não tenho dinheiro, você viu – “cê tá doida, velha?”, foi o que me passou pela cabeça na hora. Tentei me levantar, mas ela continuou segurando meu braço.

– Não, mas tem sim, é só ir com ela até o caixa ali rapidinho.

– Olha, desculpa, mas tenho que ir trabalhar – puxei o braço e me levantei. Mal comecei a andar e a primeira cigana voltou:

– Ei, me dá um cigarro?

– Eu acabei de te dar um.

– Ah, verdade, então empresta o isqueiro?

Peguei o isqueiro e fui ao lado dela. Ela acendeu e me devolveu. Acendi outro pra mim.

– Ela falou tudo certo o que você precisa fazer?

– Ah, falou sim – a velha havia me dito alguma coisa sobre algum ritual ou oferenda, mas eu não havia entendido nada – escuta, vocês são o que?

– A gente é cigano, moço.

– Ah sim. Vocês tão sempre por aqui?

– Sim, sim, a gente vem aqui direto.

– Saquei. Nunca tinha visto. Bom, vou indo.

Segui andando, e quando passei pela velha, a vi agarrar uma mulher pela mão e puxá-la, falando com sua voz incompreensível.

– Senhora, eu tenho que ir… – a moça disse, se abaixando e saindo do meio da passagem do povo. Ela olhou para mim e riu, me mostrando a situação, como se esperasse uma atitude.

Sua vez – eu disse, com um sorriso, e segui andando.

Faltavam 10 minutos pra entrar no trabalho.

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Sobre davidconatus

Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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Crônicas

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