Lúcio e Fernando brigavam pela posse de um boneco do Power Ranger azul.
Os meninos discutiam, puxando os frágeis bracinhos daquele desgastado boneco de plástico. A amizade dos dois se abalara pela obra do acaso pois, nunca, mas nunca mesmo, eles tomavam o caminho por detrás do brejo. Sempre preferiam ir pela avenida central, era a rota mais rápida do colégio até a casa de ambos.

O boneco, como dito, já apresentava alguns sinais de desgaste. O azul já começara a desbotar, mostrando que o mesmo não era um modelo original, e as articulações já encontravam-se um tanto duras pela ação do tempo. Em suas costas os parafusos estavam enferrujados. O modelo era daqueles velhos que giravam a cabeça, alternando entre a versão com e sem capacete. Uma febre entre as crianças daquela época.

Lúcio, em tese, teria razão em reclamar pelo boneco. Ele que de fato o encontrara primeiro. Os dois eram amigos inseparáveis, porém não se recordavam quando se conheceram. A amizade deles simplesmente começou, sem delongas, sem histórias fantásticas. Ambos cursavam a terceira série do primário, ambos ainda possuíam muitos mistérios da vida para desvendar. Lúcio discutia com o amigo, sempre falava alto quando achava estar com a razão, isto nada mais era que um comportamento replicado do pai, que por mania, sempre falava alto com a mãe de Lúcio.

Porém Fenando não desistia, apesar de ser menor que Lúcio, e ter encontrado o boneco em segundo lugar, o que na lei dos meninos já equivale a uma derrota no tribunal imaginário das causas infantes, ele ainda sim mantinha sua tese argumentativa que fora ideia sua tomar o caminho do brejo, logo aquele boneco era, por direito, seu.

Mas Lúcio discordava.

Fernando puxou o boneco com mais força, fazendo-o quase escapulir pelas mãos de Lúcio. Fernando era o caçula, nascera de uma maneira um tanto quanto curiosa: sua mãe não o desejava. Fora um acidente do acaso, justo por já possuir uma idade um tanto avançada. Ela engravidara aos 45, com um tanto de risco do garoto nascer com alguma deficiência, porém, como os familiares mesmo diziam, pela obra “divina” o garoto tem saúde plena.

Tanto Lúcio quanto Fernando cresceriam, teriam suas próprias famílias, seus próprios dramas. Se o deus do destino pudesse tecer as teias que transcrevesse a vida dos dois meninos, ele não teria pena, também não teria orgulho. Apenas outros tijolos comuns no grande muro da vida. Os pais de Lúcio se divorciariam quando ele tivesse 14 anos, a mãe de Fernando morreria de câncer, também quando o garoto tivesse 14. Eles não tornariam a se falar após aquele evento, seriam apenas memórias antigas, de alguém que um dia conheceram e nunca mais saberão o que aconteceu em suas vidas.

Lúcio seria uma memória velha para Fernando e vice-versa. Seria como aquele amigo que você não lembra, mas esteve presente. Não saberia explicar como a amizade começou, ela simplesmente surgiu, e por fim terminou.

Eles teriam filhos, e seus filhos teriam filhos. Power Ranger seria apenas uma lembrança de tempos imemoriáveis, uma nostalgia de uma época que nunca mais retornará. Para o Seu Lúcio e para o Seu Fernando, aquilo era uma coisa boa, um momento que deveriam ter aproveitado mais, um pedaço da vida que lhes escapou entre os dedos. Aqueles senhores moribundos fariam de um tudo para que o tempo regredisse aos dias de colégio, e assim poderiam corrigir tudo aquilo que erraram. Talvez dariam um último beijo nas suas respectivas mães, talvez abraçariam os seus respectivos pais e assim teria mais tempo, para jogar bola ou assistir televisão.

O tempo os enterraria tal qual o Power Ranger azul.

Desgastaria as fotos, mataria as memórias, traria doenças.

Eles morreriam entre os choros dos netos e, quem sabe, bisnetos. Cada um deles no seu lado do mundo, cada um deles vislumbrando a vida como ela deveria ser.

O Power Ranger azul não pode dizer quem era o seu antigo dono, talvez tenha sido abandonado por uma criança que cresceu, talvez tenha fugido, talvez tenha sido posto ali por um deus e assim causar uma discórdia. A amizade daqueles dois não poderia fazer parte daquele universo, daquela linha temporal, e assim findara em uma briga.

O boneco partiu-se. Lúcio ficou com a maior parte e para Fernando restou apenas um pedaço do tronco e um braço. Voltaram para suas casas em silêncio e nunca mais se falaram. O silencio que parecia demorar-se por alguns poucos dias, logo viraram semanas, meses e anos. Cada um foi para um colégio diferente, cada um teve uma vida diferente. Talvez a raiva deles tenha se dissipado tão brevemente quanto o rolar dos dias, mas acabaram esquecendo de desculpar-se pela discussão banal. Acabaram por perder a oportunidade de terem sido plenos.

Fernando poderia ter sido padrinho das filhas de Lúcio, e este apoiaria o amigo quando a mãe partisse. Lúcio poderia ter iniciado uma empresa com Fernando e os dois poderiam ser milionários. Eles poderiam ter sido grandes amigos, pela vida toda, compartilhado momentos, contado confissões, rindo dos problemas que um dia os fizeram chorar. Um poderia ter casado com a irmã do outro, um teria ido ao casamento do outro, eles poderiam ter sidos irmãos de alma….

Mas o Power Ranger azul estragou tudo.

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