Eu poderia ter me despedido dela há algum tempo, talvez há mais tempo do que eu poderia ter pensado. Na época ela mandava mensagens para mim pelo Messenger, hoje nem isto mais existe.

Quando eu descobri que ela tinha MORRIDO, eu me senti mal. Muito mal. Saí para beber com alguns AMIGOS. Eles são pessoas legais, sempre me fizeram SORRIR, mas hoje em dia eu sinto que falta algo neles, algo que não se encontra no MUNDO. Talvez eles não saibam o que é uma TRAGÉDIA de fato, eles apenas estão escutando o mundo dentro de seus respectivos carros, com suas carreiras e seus empregos. Morando em apartamentos no lugar mais importante da cidade. Isto, deles, é um escape. As baladas, as bebidas, as festas. Estão combinando o carnaval do ano que vem e ainda estamos em Maio.

– Sabe aquela lá? Aquela lá gente, que deu para o M. Sim, sim, ela mesmo. Ela engravidou do M. Vocês tinham que ver a cara de desespero dele quando deu dia 2 de Abril e ela continuou dizendo que estava grávida! Foi muito ENGRAÇADO. Sim, é por isso que o M. Não está aqui com a gente. Ele está pensando o que vai fazer da VIDA e como vai contar para seus PAIS.

Eu simplesmente apenas bebia, não participava da conversa, não me importava que M. seria pai. Ele seria um bom pai, só não sabia disto.

Mas ela seria uma boa MÃE? Começamos a conversar no Orkut. Estávamos na mesma comunidade “odeio segundas-feiras”. Depois do fim da rede social, foi descoberta que esta era a comunidade com o maior número de integrantes. Ela sorria com “KKKK” das minhas piadas, isto era um bom sinal. Alguns estudos indicam que “KKKK” são risadas reais, enquanto “rsrsrs” são risadas falsas. Como quando o pai da sua namorada te conta uma piada que você já sabe, mas por educação e RESPEITO (medo) você RÍ.

NO FUNDO ELE SABE QUE O RISO ERA DE “RSRSRSRS” E NÃO DE “KKKK”.

Um AMIGO nosso em comum, me dissera que ela finalmente tinha FALECIDO. Alguma doença genética, ela já não estava bem na época que conversávamos. Fui ao enterro, conversei com o PAI e a mãe dela, eram pessoas boas, estavam resignados, foram anos de SOFRIMENTO até que, enfim, ela partiu. Quando disse meu NOME, eles deram um sorriso SIMPÁTICO, era realmente simpático.

– Ela falou muito sobre você – me disse o pai, e eu também sorri.

No dia do enterro o sol estava alto, durou umas duas horas até o caixão atingir o fundo do BURACO. Em pouco tempo aquele lugar era um gramadinho verde, visitado todo ano pelos pais dela e por amigos que ela deixou.

Ela morreu VIRGEM. Este detalhe é importante, ela queria que a sua primeira vez fosse com alguém muito ESPECIAL. Também me disse, por um SMS que eu era uma pessoa especial. Eu prometi escrever um LIVRO sobre a sua história, um livro simples. Nunca fui bom escritor, eu queria apenas ser especial para ela. Este livro está salvo em um pendrive, nunca saí da primeira página.

Ela MORREU triste. Quando perdemos o contato, ela se apaixonou. Era um homem já feito que morava no sul do país. Nosso amigo em comum contou que ele tinha sido um BABACA, e espalhou algumas fotos dela na internet quando eles terminaram.

ELA morreu sozinha, e isto foi CULPA minha. Eu mudei, me tornei alguém irreconhecível. BEBIA com estes amigos, saia nas NOITES. Não frequentava mais as redes sociais. Ela sempre quis me conhecer pessoalmente, porém eu passei a adiar. Ela não era BONITA, não era GOSTOSA, não tinha belas CURVAS nem SEIOS fartos. Era um esqueleto mergulhado em uma piscina de cera. Apenas seus cabelos eram de fato bonitos. Eu não sabia que ela estava doente (mentira), eu queria me eximir de culpa por tê-la abandonado.

Mas ela morreu, sai para beber com alguns amigos. Não me despedi. Não escrevi o livro e não fui especial.

Ela sorriria com “KKKK” mesmo quando eu mandava o emoticon da carinha triste. Me perguntaria se eu estava de fato triste. Eu estaria, sem saber o porquê. Mas o álcool faria isto tudo apagar.

Eu nunca perguntei se ela estava FELIZ, eu nunca quis saber mesmo o que ela sentia. E ela não pode mais sentir. O livro está na página 1 e nunca será finalizado. Sua vida se foi e não poderemos mais senti-la. Seus pais não sabem o MONSTRO que eu fui a ela, deixando-a nos braços daquele que, egoisticamente, a ceifou.

Mas meus amigos sorriem, eles bebem e brincam. Eu não faço parte deste mundo deles, eu apenas existo, como o fantasma ignorado, eu apenas continuo, lamuriando-me. Eles sorriem.
Porém nada irá mudar o fato que nunca me DESPEDI.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Sobre Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

CATEGORIA

Textos