Crônicas

Ocitocina

Depois que Helena* se foi, para me compensar, o universo me uniu com a garota de meus sonhos. Tendo uma família de origem espiritualista, um parco conhecimento sobre as ideias de Carl Jung e uma quantidade absurda de hormônios sendo bombeada pela hipófise de meu estúpido cérebro pós-adolescente, essa era a coisa mais racional que eu conseguia pensar.

Uma foto. Foi tudo o que foi preciso para dar início a tudo isso, antes mesmo que eu conhecesse Helena. Por algum motivo, a foto de Amy tirada em um bar de rock me atraiu. Eu digo “por algum motivo”, por que aquela foto nem de longe lhe fazia justiça.

Alguns dias depois consegui conhecê-la pessoalmente. Eu havia começado a me aproximar de Norman Rocha na época, e nós passávamos bons dias enchendo a cara com uma vodka de 6 reais (dizíamos que a felicidade custava 6 reais), falando merda sentados em um posto qualquer, ou em uma praça qualquer, ou em um lugar qualquer. Norman conhecia alguns amigos com quem costumava jogar, e Amy era uma jogadora.

O problema é que o pai do dono da casa era alcoólatra, e nós havíamos acabado de terminar a garrafa de vodka antes de ir para o lugar. Eu sabia me comportar bêbado, mas Norman fazia escândalo, e entrava em loopings onde começava a repetir suas frases de novo e de novo. Não demorou para que os jogadores decidissem expulsá-lo, pagando um táxi para que o levasse pra casa. Eu fiquei, Amy chegou e logo começou a chover.

Acontece que os bêbados parecem ter algum anjo (ou demônio) da guarda muito forte, pois pouco mais de meia hora depois, Norman estava de volta. O filho da puta chegou em casa, percebeu que estava sem a chave e que não havia ninguém dentro e decidiu voltar todo o caminho a pé, debaixo da chuva, para uma casa do outro lado do bairro em que ele havia estado apenas uma vez. Como ele conseguiu tal façanha permanece um mistério.

Norman estava bêbado, ensopado e com manchas pretas no corpo e na roupa. Ele nos disse que havia caído algumas vezes no caminho de volta, e os jogadores estavam ainda mais putos por ele ter voltado. Mas Amy era doce, decidiu ajudá-lo e o levou até uma lanchonete para passar o grau. Decidi ir junto, menos por algum senso de responsabilidade por Rocha e mais por que poderia aproveitar a chance para conhecer a garota da foto.

Amy me contou bastante sobre ela, enquanto Norman permanecia em looping ou calado. Me contou de seus transtornos, de seus antipsicóticos, antidepressivos e estabilizadores de humor. Me contou de quando pensou ser a escolhida para parir o anticristo e dar origem a uma nova ordem mundial. Mas ela dizia estar bem agora, e eu não me importava.

De qualquer forma, por mais de um ano, nada aconteceu. Só fui me aproximar de Amy novamente quando já estava com Helena, devido à uma amiga que elas tinham em comum. Nos tornamos próximos, viajávamos juntos, até que Amy também conheceu um rapaz e começou a namorar. Éramos dois casais saindo juntos, como aqueles clichês de sitcoms americanas, só que com menos problemas emocionais e mais problemas psiquiátricos. Estar tão perto de Amy por tanto tempo me fez questionar a possibilidade de ambos os relacionamentos fracassarem e acabarmos ficando juntos, mas isso parecia apenas mais um clichê americano e os relacionamentos iam bem, então eu (achava que) sabia que aquilo nunca iria acontecer.

Quando Helena me deixou por causa de sua crise depressiva eu fiquei devastado. A ideia de continuar saindo com Amy e seu parceiro me era perturbadora, mas uma semana depois o relacionamento dela também acabou. Aquilo parecia um sinal do destino, como eu disse, uma mensagem do universo, como se as estrelas se alinhassem para que eu me unisse à minha alma gêmea até o fim dos tempos. Obviamente, não foi o que aconteceu.

Um tempo depois fui à uma balada com Amy e alguns de seus amigos. Só tinha 10 reais, então decidi comprar a bebida com o maior teor alcoólico do local, na esperança de conseguir suportar aquilo. Absinto era o que tinha. A bebida e a cena que eu veria depois deram pro gasto.

Amy dançava de maneira sedutora, rebolando ao som de Annita. Péssimo gosto musical, ótima cena. Eu apenas balançava as pernas e mantinha os braços ao lado do corpo como um idiota. Ela usava uma camisa social amarrada na altura dos seios, deixando à mostra sua barriga perfeita, com desenhos pintados com uma tinta fluorescente fornecida pelo clube. Enquanto dançava, fechou minha boca com a mão, empurrando meu queixo para cima quando a música dizia que eu iria ficar babando. Aquilo me deixou com um puta tesão.

Sentamos em um banco para descansar e ela se queixou de dor de cabeça. Ela disse que queria dançar pra ver se passava por que “dançar libera serotonina e faz passar a dor”. Eu nunca tive a menor vontade de dançar e respondi que sabia de outra coisa que liberava ocitocina e também fazia a dor passar. Ela perguntou o que e eu dei um beijo roubado. Ela perguntou o que eu estava fazendo e por que estava fazendo aquilo, enquanto nos beijávamos mais e mais. “Obrigado, universo”, “me desculpe por ter algum dia duvidado de você”. Fala sério. Não é difícil entender por que as pessoas acreditam nessas merdas.

Noutro dia estávamos em casa, assistindo algum filme. Ela usava um tomara-que-caia folgado, sem sutiã por baixo e calça jeans. Seu perfume era maravilhoso. A tal da foto realmente não fazia justiça nenhuma a ela. Eu a abracei por trás e assistimos um pedaço do filme deitados em minha cama. Eu soprei quente em seu ouvido e ela gemeu. Mordi sua orelha e ela mordeu seu dedão. Nos beijamos. Eu cruzei minhas pernas com as dela e apertei seu peito enquanto continuávamos nos beijando. Por fim puxei o tomara-que-caia e ela expôs o mais perfeito par de seios que eu já vi em minha vida. Não demorou para que eu estivesse mamando neles.

Tirar suas calças foi mais difícil, precisou de um pouco de convencimento. Eu soltei a cinta, tirei a bermuda e coloquei sua mão no meu pau. Ela agarrou com força enquanto eu continuava mamando. Depois disso tirei suas calças e ela começou a me chupar, enquanto me encarava com seus olhos verdes. Por fim montou por cima de mim. Suas coxas eram quentes e sua boceta estava molhada. Encaixou-a com a mão e começou a cavalgar. Suas tetas balançavam no ar enquanto ela cavalgava e apoiava as mãos em meu tórax.

Inverti a posição, ficando por cima dela e voltei a meter. Ela gemeu com mais força enquanto eu me mexia e chupava seu pescoço. O tempo estava terrivelmente quente, nosso suor se misturava e tornava aquilo tudo ao mesmo tempo grudento e escorregadio, até que uma hora ela parou e se levantou, indo até o meio do quarto e respirando fundo, se refrescando. Ela se virou de frente para mim. As luzes estavam apagadas, mas eu podia ver seu corpo inteiro. Sua pele branca, seus cabelos loiros, seus olhos verdes. Seus seios rosados e os pelos de sua boceta. Ela voltou para cama e me abraçou. Continuamos a ver o filme, sendo atrapalhados pelo meu pau que insistia em entrar na frente da tela. Enquanto acariciava seu rosto, disse:

– Achei que você não queria vir.

– Por quê?

– Nós tínhamos combinado, eu te liguei, você tava dormindo, demorou duas horas pra vir.

– Eu tava ajudando minha irmã.

Não respondi, olhando para tela e passando a mão em sua orelha. Ela levou sua mão de meu peito até minhas bolas e começou a acariciá-las, deixando-me mais excitado ainda.

– Você ainda acha que eu não queria vir? – ela disse, com um sorriso que faria qualquer um amar estar vivo só para poder vê-lo.

*Ler conto “Helena”, do mesmo autor.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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