ATO 1

– Qual o seu nome? – perguntou a Delegada. A moça respondeu ainda arquejante. Em seus lábios um leve tremor, como se aquele nome dito fosse um segredo velado que só ela deveria conhecer. A delegada também perguntou-lhe a idade, e a mesma revelou:

– 23 Anos.

– Profissão?

– Sou estudante de Arquitetura, estou no oitavo semestre.

– Estado civil?

– Noiv…digo, solteira – a Delegada olhou para a moça com seus olhinhos miúdos, um breve instante de silêncio irrompeu com a parada do digitar do escrivão. A Delegada se debruçou sobre a mesa, seu corpo forte e moreno junto aos cabelos cacheados e curtos. Um batom discreto combinando com as unhas pintadas de maneira discreta. Seus olhos são miúdos e cansados, rodeados por uma mancha negra de sonolência.

– Agora me diga o que aconteceu.

A moça não sabia por onde começar. Ela realmente pensava que não deveria estar ali, por muitas vezes pensou em levantar-se e ir embora, arrependendo de tudo, esquecendo de tudo, confirmando que aquilo era uma loucura, que aquilo era um exagero, que aquilo era desnecessário. Pensou em simplesmente ir embora, dizer que era um mal entendido e que deveria esquecer tudo aquilo.

Ele não fez por mal, pensou.

Mas por onde começaria? Os pequenos olhos da delegada a encarava. O escrivão esperava para começar a digitar, tal qual um cavalo prestes a sair do páreo. Apenas o zumbido de um grande enferrujado ventilador, que farfalhava as folhas na mesa, irrompia aquele instante entre a coragem e a covardia. Ela queria, ela quer, ela deve continuar. Ela sente dor, e isto é a verdadeira motivação para continuar.

Mas não sabia por onde começar.

Ela entrou na faculdade de Arquitetura com dezoito anos de idade. Foi uma festa tanto para os familiares quanto para os amigos. Ela demorou um ano a mais para fazer o tão temido vestibular porque ela realmente não sabia bem o que queria cursar. Viajou, morou um tempo com os tios em Ouro Preto, daí veio toda a ideia de ser arquiteta. Seu pai, de fato, queria que ela cursasse carreira jurídica. Sua mãe preferia que ela fosse médica, porém a nota foi o bastante para confirmar Arquitetura. Ela lembra com orgulho o trote da faculdade, eles pintando o seu rosto, a obrigando a pedir esmola na rua para depois irem beber. Todos são muito solícitos no primeiro dia. Ela era chamada de “bixo” pelos veteranos, mas ainda sim, todos a tratavam muito bem. Ela pensou que poderia ser por sua beleza. Ela se considerava uma garota bonita, seus cabelos curtos e bem cortados, seu corpo magro e duramente feito nas longas corridas e nas aeróbicas. Tornara-se vaidosa ainda muito nova, recebendo alguns convites para ser modelo.

Ganhou o prêmio miss 3ºano no seu colégio.

Namorou apenas uma vez.

Fez amigos, viajou.

Entrou para Arquitetura.

Ele dizia que não gostava muito do seu nome porque sempre esqueciam de colocar o acento no “i”. Ela perguntou novamente o nome do rapaz. Ela já estava na quinta garrafa de cerveja.

– Fabrício. Com acento agudo no “i” de Fabrício. Mas ninguém lembra de colocar esta porcaria de acento – ela sorriu e eles riram. Ela lembra muito bem deste dia, completamente suja e pintada, um pouco bêbada. Era tarde e sua mãe iria matá-la por chegar tão tarde em casa, mas ela era crescidinha, já tinha feito os tão aguardados dezoito anos, já era dona do seu próprio nariz – e qual é o seu nome?

Ela disse, eles riram. Um barzinho próximo ao campus, o lugar mais frequentado nas meias-aulas da faculdade. Sempre apinhado de gente, sempre com muita alegria e diversão, ali era a boas-vindas para os novatos, mesmo sujos. Alguém começa a tocar Legião Urbana, todos cantam juntos. Grande parte bêbados, outros apenas se divertindo. O cheiro de cerveja parece escapar ao ambiente indo até a atmosfera e trazendo uma chuva de felicidade para aqueles que estavam confraternizando.

Fabrício era um dos veteranos, ele estava no terceiro semestre do curso de Letras. Disse que tinha aptidão para ser professor, mas preferia a área da linguística. Seus pais tinham condição para pagar uma faculdade para ele, porém entrar em uma pública, principalmente pela concorrência, era o big deal. Os pais de Fabrício também se decepcionaram com a escolha do curso, eles realmente queriam que o filho fosse engenheiro de alguma coisa, porém a nota do ENEM permitiu apenas o ingresso em Letras.

Ela nunca bebera tanto em sua vida, talvez fosse realmente a primeira vez que ela bebera. Bebeu tanto que precisou ser carregada para fora do bar, vomitando e trocando as pernas. Quem nunca fizera isto um dia? Ela estava certa, tinha dezoito anos, precisava ter histórias. Isso seria contado no futuro, para amigos e parentes, e quem sabe, até para os filhos. “Meninos, um dia sua mãe bebeu tanto, mas bebeu tanto que teve que sair carregada do bar” e todos riam.

Ela chegou em casa, foi levada por Fabrício. Ela ria, ria e vomitava. Fabrício achava graça, ela mesmo bêbada e suja era muito bela.

– Minha filha! Oh meu garoto, muito obrigado por traze-la, desculpa se ela te deu trabalho! Você deixa esta menina livre um minuto e ela mergulha em um barril de Chopp, é igualzinho ao pai, vamos, entre, toma um café enquanto eu coloco a cinderela aqui para tomar banho – assim Fabrício conheceu a mãe daquela moça; uma mulher baixinha e gorda, cabelos curtos e grossos óculos, se Janis Joplin tivesse envelhecido, ela teria se tornado aquela mulher. O apartamento, era um pequeno apartamento em uma zona afastada da cidade, não foi difícil chegar ali, mesmo ela dando as coordenadas um tanto quanto ebriamente. A mãe simpatizara com o garoto. Fabrício era forte, sadio, cabelos cortados com um corte da moda. Seu sorriso frouxo era cativante, sempre permanecia de barbas raspadas e preferia fragrâncias amadeiradas, talvez fortes por demais.

E foi assim que a moça conheceu o Fabrício.

O escrivão digitava cada palavra, materializando aqueles verbos em códigos linguísticos. A Delegada ouvia tudo de maneira atenta e séria.

– Então, Delegada… – a moça dizia ainda com a voz embargada.

– Pode me chamar de Abighail, a Delegada esboça um sorriso duro, porém simpático. O escrivão deleta algumas palavras do texto e depois torna a digitar.

Ela gostou do nome da Delegada. “Abighail”, era um nome muito reconfortante. Deveria ser algo como Abighail Torres, ou Pontes.

O nome do Fabrício era “Pontes”. Mais um indício que ele deveria ter sido engenheiro. Ela pensava como ficaria o eu nome com “Pontes”. Ela gostava da ideia, mas não ficava sonoro.

O grupinho da faculdade se reunia todas as sextas-feiras, o barzinho ficava sempre muito mais movimentado nestes, dias, era quase como obrigação ir para lá. Ela logo fez outras amizades, uns novatos e outros veteranos. Ela conheceu a prima de Fabrício, Geovanna, que fazia filosofia. Os três fumaram maconha no sábado, vendo o sol nascer no profundo do oceano. Também foi neste mesmo dia que ela beijou Fabrício.

Aquilo não significava um início de relacionamento. Era só um beijo dado. Nada demais, ela mesmo dizia isso para si enquanto tomava banho, ela mesmo pensava nisto enquanto olhava para ele, no patamar inferior do campus. Ele tentou se comunicar umas duas ou três vezes, porém foi sem resposta, até que um dia ele foi até seu apartamento.

– Acho que seu celular está quebrado – ele disse assim que ela abriu a porta, ela tentou esconder um sorriso bobo, mas o sorriso saiu sem querer – estou tentando falar contigo desde domingo mas não consigo. Foi por causa daquilo?

Ela quis responder, mas dentro de si algo dizia que o silêncio era a melhor resposta. Eles apenas entreolharam e Fabrício novamente a beijou, um beijo forte e destemido. Ela o abraça e o beijo fica mais intenso.

Sua mãe observa tudo da cozinha, no seu interior um mix de orgulho e medo, sim aquilo era a prova que a menininha tinha crescido de fato.

Fabrício era realmente muito atencioso e romântico, talvez um homem diferenciado. Sempre demonstrando afeto e carinho com ela, sempre ligando, sempre se importando. Ela pensou na sorte que tinha, uma caloura namorando um veterano e este, um homem bonito, simpático, inteligente. Uma pequena pontada de ciúmes surgiu em seu peito, algo talvez bobo, talvez idiota. Ela confiava em si mesma, mesmo Fabrício sendo tão solicito, sempre rodeado por todos aqueles homens e aquelas mulheres. Ela não queria sair de perto dele, sempre queria estar cada vez mais perto, cada vez mais próxima. Queria mostrar para as outras que ela estava com ele.

Porém ela também chamava a atenção. Talvez a sua beleza fosse a característica menos notável diante de tantas outras. Havia um talento natural para arquitetura, também para os estudos, tornara-se logo a nota mais alta e uma referência para os outros alunos. Comunicativa, de iniciativa. Alguns professores disseram que conseguiriam bons estágios para ela.

– Eles sempre dizem isto para um rostinho bonito – disse Fabrício – eu conheço estes velhos safados, só querem comer as novinhas.

Ele riu.

Ela não riu.

Ela sabia do seu potencial. Ela sempre soube do seu potencial.

Ela não riu.

Os amigos sempre viam os dois juntos, para todos os cantos. Os amigos de Fabrício se sentiam incomodados com a presença dela. Ele havia mudado muito, segundo eles, não era mais o Fabrício do futebol, muito menos das noitadas. Ele não gostava de deixa-la só, tantos aproveitadores naquele lugar. Ele não confiava nos outros homens, muito menos nos seus amigos. Giovanna uma vez contou que Fabrício partiu o nariz de um garoto porque ele havia olhado torto para a garota que ele namorava na época.

O namoro seguiu aos trancos e barrancos. Ele era permeado de pequenas brigas corriqueiras, Tanto o gênio dela quanto o gênio de Fabrício eram muito fortes, ela era teimosa, uma teimosia tenra de sua mãe, talvez o sangue Pernambucano que falava alto. Ele por sua vez, parecia ser mimado por demais, um garoto que gostava de ter tudo para si. Ele sentia falta de sair com os amigos, das baladas. Sentiu-se sufocado e decidiu sair, sem avisa-la. Depois de milhares de ligações perdidas, e uma noite de choro profundo, depois de uma das suas amigas dizer para ela que o viu ficando com Geovanna, ela desabou.

Ela terminou o namoro.

O barulho das teclas cessou por um instante. O escrivão olhava para a menina por cima da armação metálica dos seus óculos. A menina buscava respirar, era uma respiração funda, dolorida, cansada. A Delegada Abighail apenas esperava em silêncio. Um ou outro par de conversas era escutada do lado de fora, um ou outro ruído era feito, porém, ali dentro a atmosfera estava estacionada.

Ela ficou praticametne um ano sem falar com Fabrício. Eles ainda se entreolhavam nos corredores, todos ainda comentavam. Eles não se excluíram das redes sociais, ainda curtiam o que eles compartilhavam no Facebook, mesmo sem nunca retomarem o diálogo. Porém ela não tinha outros relacionamentos, mesmo recebendo convites e ficando uma ou outra vez em alguma festa. Já fora apresentada a diversos rapazes pelas amigas, muitos mesmos, mas nenhum deles tinha aquela chama que a interessava. Talvez fossem garotos demais, bobos demais.

Mas Fabrício estava namorando, era uma garota também do curso de línguas, uma garota desinteressante dos cabelos ruivos. As amigas evitaram contar mas no mundo atual, nenhum segredo passa impune, e aquilo bem não era um segredo. Ela não sabe bem como eles se conheceram, ela apenas levou o susto quando, um belo dia, viu na rede social que Fabrício e a Ruiva Demoníaca começaram um relacionamento sério. O nome dela é Tamara, diga-se de passagem.

A vontade de chorar veio, porém passou, ela havia superado (ou não?)

Passou o ano novo na Bahia, com as amigas.

Ela havia esquecido Fabrício, tinha ficado com um Régis, parecia ser um rapaz muito legal.  Mas nada sério.

Passara pelo terceiro e adentrara no quarto semestre. Todas as vezes ela fazia parte do trote, era um convite de boas-vindas aos calouros. Tais trotes eram muito criticados, porém não passavam de brincadeiras inofensivas e bebedeiras. Tal qual foi como foi com ela, brincaram e pintaram os pobres coitados, os obrigando a pedir esmolas no sinal. O ponto final era o velho barzinho próximo à faculdade. Começaram a beber, e a se divertir. A conversa estava bem animada. Ela estava sorrindo bastante, era um bom jeito de descontrair, conhecer novas pessoas.

Porém ela sabia que Fabrício também estava ali, ela também sabia que ele havia terminado o namoro. Tudo isso estava em seu interior, querendo explodir de alguma forma. Ela o viu, sentiu algo um tanto incomum. Fabrício se aproximou e logo estavam conversando, logo estavam sorrindo, brincando. Logo tudo que viveram tinha voltado tão forte e perene.

Logo beijaram-se.

E voltaram a namorar.

CONTINUA

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Sobre Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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