Eu conheci Lilith no meu primeiro ano de faculdade, quando tinha 17 anos. Ela já estava na Terra fazia algum tempo, havia saído do inferno à intercâmbio pra prestar direito na cidade e possuído o corpo sexy de uma mulher esguia de 30 anos no caminho. Depois de se formar decidiu que o direito terrestre era cruel demais até pra um demônio e foi procurar novas presas em outra área. E foi aí que nos encontramos.

Vivíamos juntos em uma relação de amor e ódio, que ela parecia adorar. Sempre que uma de suas presas a desapontava ela terminava o namoro e vinha lamentar comigo, reclamando de sua má sorte. Eu me oferecia em sacrifício como seu alimento, ela dava trela até que seu ego se recuperasse do último golpe narcísico e então me descartava, dizendo que eu estava louco em pensar que alguma vez ela havia dado algo a entender desse tipo.

Isso, e a proximidade que tínhamos no dia a dia, aumentava meu desejo. Lilith ia de presa em presa, de decepção em decepção, e nós nos aproximávamos e nos distanciávamos enquanto isso. Até que um dia me cansei daquilo e lutei contra ela, expulsando sua presença maligna de perto de mim. Eu estava livre.

O ano passou e eu a perdoei. Ela surgiu de novo, se esgueirando das sombras e penetrando em minha aura, já lamentando novamente sobre outra presa que deixara escapar. Eu disse que não iria me oferecer dessa vez, pois sabia dos jogos dela. Ela riu e me chamou pra beber, afogar as mágoas na sexta feira. Na terça, começou a me falar da nova presa que havia encontrado e que chamou para beber conosco e aquilo me emputeceu. Eu estava entrando de novo no joguinho dela.

Quando sexta chegou, eu recusei o convite, mas meu amigo Rocha (que também era atormentado pelo demônio, em jogos de sedução e sonhos sexuais) insistiu e nós fomos. Quando Lilith não estava se lamentando, ela estava reclamando de mim: “Arruma essa postura”, “corta esse cabelo”, “para de usar essas camisas de virgem”, “você é gordo, tem que fazer academia pra emagrecer”. Rocha me disse uma vez que ela disse que dava pra mim se eu cortasse o cabelo.

– Bom saber – disse, sem interesse.

– E aí?

– E aí o que?

– Vai cortar?

– Mas é claro que não, Norman! Dois anos dessa merda crescendo e vou trocar por uma transa?

– Ah cara, se fosse eu, eu cortava.

Norman sempre foi submisso demais às garotas com quem ficava. No fim acabamos indo para o tal bar e o demônio já estava lá, com sua presa e mais algumas pessoas. Helena era uma delas. Ela usava uma pulseira de couro preto e rebites que destoava da forma como estava se vestindo. Talvez ela quisesse parecer mais descolada, por ser a mais velha do grupo. Talvez significasse alguma coisa pra ela, um souvenir da época de sua adolescência rebelde. Ou talvez ela só tivesse achado bonito.

Eu ainda não conhecia Helena. Na verdade eu deveria conhecer, eu já havia falado com ela no ano anterior, mas minha memória não possui nenhum registro de imagem dela anterior a esse dia em que conversamos no bar com Lilith.

 Uma das amigas de Helena trouxe uma garrafa de uísque e eu, puto com o demônio, fiz logo questão de me embebedar de prontidão. Acendi um cigarro. Ela começou logo a reclamar, que eu nunca tinha feito isso (eu havia começado a fumar com mais frequência recentemente). Estava bêbado de uísque e cerveja, traguei profundamente e soltei a fumaça na cara do demônio. Ela protestou, me xingando e passando a mão em seus cabelos, falando que o cheiro não iria sair. Sendo um cínico e estando em um estado embriagado, a única coisa que pude fazer foi gargalhar.

O tempo passou em meio as conversas, até que a presa de Lilith se levantou para pegar mais cerveja. Nesse momento o demônio se virou pra mim e disse que já havia perdido o interesse nele, pois quando sua presa sorriu, reparou que ele não tinha um dos dentes, um molar superior esquerdo para ser mais exato. Sendo um cínico e estando em um estado embriagado, a única coisa que pude fazer foi gargalhar e dizer:

– Eu tenho todos os dentes, Lilith, qual é sua desculpa?

Uma expressão de surpresa e vergonha passou pela face do demônio, que me xingou e disse que iria me bater, pois tinha medo que o cara tivesse me ouvido. Mas sendo um cínico e estando em um estado… Bom, vocês já sabem.

Mais tempo se passou. Meus cigarros soltos acabaram e a garrafa de uísque já estava vazia. Meus colegas haviam ido embora e agora nós bebíamos vodka, dada pelo demônio para aqueles que permaneceram fieis em sua teia. Éramos Eu, Rocha, Lilith e sua presa.

Não me lembro direito as palavras que saíram de sua boca, mas era algo sobre estar envelhecendo e sobre sua busca por um macho digno de dar a ela um filho. Então era esse seu plano. É claro: O que é um demônio sem seu anticristo particular?

Ela perguntou à presa se daria um filho a ela, e ele disse que não, dizendo ser muito jovem pra esse tipo de coisa. Ela se aproximou de Rocha então, com uma expressão sedutora, e ele pareceu petrificado, em parte pela bebida. Colocou suas mãos femininas, com as unhas roídas até o sabugo em volta da boca de sua vítima e o beijou rapidamente, afastando seus lábios antes que ele pudesse continuar. Ela então se virou em minha direção, e nossos olhos se cruzaram.

Ela andou em minha direção com a mesma expressão, balançando os quadris esbeltos a cada passo. Eu me preparei. Ela colocou suas mãos em volta de minha boca, elas eram frias e delicadas, e me beijou do mesmo jeito. Tentei impulsionar meu corpo para frente, querendo mais, obviamente, mas ela foi mais rápida, e se distanciou, sorrindo enquanto me encarava. A tensão daquela sedução era demais para mim, a bebida girava em minha cabeça e eu sentia que ia explodir.

– Só isso? – perguntei, embriagado.

– Você quer mais? – ela se aproximou sorrindo, balançando os quadris novamente. Assim que chegou perto o suficiente, o contrato estava selado. Eu a puxei com força e enfiei minha língua em sua boca. Era quente e úmida. Apertei sua cintura magra contra a minha e respirei fundo, enquanto sentia seu cheiro de perfume excitar todo meu corpo. Ela usava muito perfume, de certo para mascarar o cheiro de enxofre, mas depois daquele momento não importava mais, eu era dela. Todos meus esforços e as lutas anteriores com o demônio se foram com esse simples ato de luxúria. A carne é fraca, como dizem.

O demônio me torturou por mais alguns anos, mas essa foi a única recompensa que tive em troca. Com o tempo ele passou para outras presas, e consegui exorcizá-lo de vez pouco antes de deixar a cidade. Os sonhos continuaram por um tempo, no entanto, mas sem sua presença física, ele não tinha mais poder sobre mim.

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