Crônicas

O Autocontrole é um Privilégio

Selene* gemeu assim que gozou e saiu de cima de mim, se deitando ao meu lado e colocou a mão em meu peito. Eu a olhei em seus olhos e tirei uma mexa cabelo de sua cara.

– E aí, ficou com as pernas moles dessa vez?

Ela riu. Acendi um cigarro e começamos a conversar sobre assuntos diversos. Ela era estudante de medicina, modelo e vegan, o que indicava duas coisas. Primeiro: Ela era gostosa pra caralho. Segundo: Ela tinha um autocontrole fodido para fazer tudo o que precisava ser feito. Mas como eu digo, se o Bruce Wayne tivesse feito terapia quando os pais morreram, o Batman não existiria, da mesma forma, sem certo nível de obsessão e/ou TOC, não haveriam bons médicos.

Mas como ela conseguia fazer quase tudo a que se propunha, de dietas e exercícios físicos à medicina, idiomas e arte, ela era bem rígida ao julgar as pessoas, tanto as outras quanto ela mesma. Ela não fazia por mal, na frente delas, mas sempre que conversávamos a respeito eu podia ver o quão dura ela era. Por algum motivo, no entanto, ela nunca me encheu o saco por causa disso, diferente de Lilith, por exemplo**.

– Esse povo quer só fazer merda, comer porcaria, não fazer exercícios e depois reclamam e querem que a gente faça milagre!

– Não é tão fácil assim.

– Como não? É lógica! Não quer ficar doente? Tenha comportamentos saudáveis! Mas do que adianta a gente fazer dieta e indicar prevenções se a pessoa não muda?

– Não é fácil mudar.

– Então por que procuram o médico? É irracional.

– O ser humano não é racional.

Ela riu. Traguei o cigarro.

– Achei que era isso que nos diferenciava dos outros animais.

– Não. Nós temos a capacidade de ser racionais. Uma parte racional. Mas nós não somos racionais.

– Por que você fala isso?

– Pegue os transtornos mentais… Sua tripofobia, por exemplo.

– Vai se foder, não começa! – eu tinha o costume de zoá-la por isso, principalmente falando de barras de chocolate areadas, cheias de buraquinhos.

– Não tô zoando, pensa nisso: Existe algum transtorno mental que seja racional? Olhe a fobia: É racional um adulto de 70 kg ter medo da porra de uma barata inútil? Ou o TOC: É racional ficar ansioso, angustiado ou não conseguir dormir por que a casa está desarrumada? Estar se fodendo com câncer ou perdendo a família por causa de drogas e continuar usando? Você acha que alguma dessas pessoas tem controle sobre isso tudo?

– Mas isso são transtornos mentais, ou vícios…

– Que não são nada além de tipos de sofrimento que decidimos nomear. Se um adolescente fala que fica o dia inteiro largado na cama e não tem vontade de fazer nada, ou que uma mulher dá pra todo mundo e faz escândalo, chamamos ele de vagabundo e falamos que ela quer chamar atenção. Mas se falam que ele tem depressão e ela é borderline, de repente sentimos pena deles.

– E você tá me dizendo que comer direito e fazer exercícios é a mesma coisa – ela afirmou meio que perguntando, num tom de que não acreditava naquilo.

– Tudo é a mesma coisa. Por que estamos falando de autocontrole, e o autocontrole é um privilégio. Não é diferente do que aquelas coisas que os esquerdistas adoram ficar criticando: Dinheiro, raça, classe social favorecida… Coisas que quem tem costuma achar que são naturais e não têm que se preocupar com isso, mas quem não tem acaba tomando no cu.

– Você não tá falando sério. Você pode nascer branco ou rico, mas não nasce com autocontrole, eu sofri pra caralho pra conseguir desenvolver isso!

– Claro que sofreu. Mas você só conseguiu ser bem sucedida nisso por que sua outra Selene permitiu isso.

– Outra Selene? Tá ficando louco?

– Claro que não – apaguei o cigarro – Nietzsche fala que nós somos dois, e nós podemos perceber isso em nossos atos de vontade: Quando queremos fazer algo, é como se um dos Eus mandasse e o outro tivesse que fazer. Tanto é que quando alguém tenta parar de fumar ou seguir uma dieta, consegue sentir a pressão de ter que se submeter à uma vontade que parece ser de outro que não ele mesmo. Até por que, se fosse realmente a dele, não haveria dificuldade nenhuma em segui-la, não é mesmo?

Ela me encarava com seus belos olhos verdes e uma cara pensativa e era quase como se eu ouvisse as engrenagens girando na cabeça dela. Essa era uma das coisas que eu mais gostava em Selene: Mesmo tendo pontos de vista rígidos e severos, ela não tinha problemas em tentar entender outras opiniões e mudar se fosse convencida.

– Então o que acontece segundo o autor – continuei – é que quando a vontade dos dois Eus coincide e nós conseguimos agir, sentimos como se estivéssemos no controle, como se existisse um livre-arbítrio. Mas quando o outro Eu se recusa a obedecer e acaba agindo contra nossa vontade, percebemos não ter controle de nada.

– “Quando o outro eu se recusa a obedecer”? De que caralhos você tá falando?

– Quando vezes você não fez merda e segundos depois se arrependeu e pensou “o que foi que eu fiz?”. Quantas pessoas você conhece que têm ataques de raiva, perdem o controle e depois vêm pedir desculpa? Que não conseguem sair de um relacionamento bosta, mesmo apanhando e sendo traídos, ou que conseguem, mas acabam entrando em um ainda pior? O que você acha? Que essas pessoas gostam de sofrer?

Ela continuou pensativa.

– E aí entram seus pacientes “irracionais”, que vivem no ciclo de se foder e pedir ajuda. As pessoas adoram falar de “privilégios” quando justificam um crime ou ato obsceno de alguém e essa pessoa é pobre e fodida, ou de alguma minoria oprimida. Mas parece que todo mundo acha que os ricos têm escolha, e por isso tem que ser punido. Falam que “mulher não é machista, mulher reproduz o machismo imposto a ela”, como se os homens também não reproduzissem, como se fosse uma coisa inata. Mas todos nós reproduzimos, nenhum comportamento é original. O ser humano é uma máquina de reproduzir erros, e a maior prova disso é o número enorme de pessoas que existe no mundo.

Parei de falar e ela ficou em silêncio, olhando para o teto. Eu mordi sua bochecha e a beijei e nós rimos.

– Difícil? – perguntei.

– Então na verdade a gente não controla porra nenhuma.

– “O homem não é senhor em sua própria casa”, disse Freud. Somos apenas inquilinos. Como se apenas observássemos nosso corpo se mover.

– Já te disseram que você parece ter um dom pra deprimir as pessoas?

Eu ri e acendi outro cigarro.

– Muitas vezes.

– Acho que vou comprar um despertador e colocar quando for falar com você – eu ri – alarme depois de dez minutos: Mais que isso pode ser prejudicial à saúde.

– 10 minutos? – apaguei o cigarro, peguei sua mão e levei até meu pau enquanto olhava pra ela.

– Vamos aproveitar então, não temos tempo à perder.

*Ler conto “O Admirador do Vazio”, do mesmo autor.

**Ler conto “Uísque”, do mesmo autor.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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