Essa noite foi mais uma de minhas aventuras etílicas com Norman Rocha. Já fazia meses desde a última vez que havíamos saído, e decidimos fazê-lo como nos velhos tempos: Compramos uma garrafa de felicidade no posto e fomos para a praça da igreja encher a cara e anestesiar nossa existência.

Já estávamos chapados, largados na grama embaixo das árvores, rindo como só os bêbados fazem. Perto de uma das árvores havia uma garrafa de vidro e um toco de madeira. Como um bom bêbado, eu decidi que tinha que subir naquela árvore.

Quebrei a garrafa, o que chamou a atenção de Norman. Posicionei o toco embaixo da árvore e o usei de apoio para subir nela com o gargalo da garrafa na mão. Já deitado na árvore, tirei a camisa e contemplei por um tempo o pouco movimento na praça a noite. Norman dizia que eu era louco. Eu apenas ri e cravei um pentagrama com o gargalo quebrado no galho principal em que estava apoiado.

Alguns colegas iam se encontrar num bar de rock perto da casa de Norman. Desci da árvore e caminhamos para lá com o restante da felicidade nas mãos. Ainda era cedo. As cadeiras de plástico colocadas na calçada do lado de fora do bar estavam vazias. Nos sentamos nelas e continuamos bebendo.

O gorila que vigiava a porta não demorou para vir até nós e dizer que se quiséssemos ficar ali teríamos que pagar pela entrada no balcão. Entramos e esperamos na fila, sendo vigiados por ele. Enquanto eu dava o dinheiro para a mulher, vi um inseto correndo pelo balcão.

– Olha, uma barata! – eu disse, fingindo surpresa. O gorila rapidamente a acertou com um tapa, jogando-a no chão e então pisou em cima dela, parecendo envergonhado. Ri enquanto a mulher me entregava a pulseira.

Enquanto esperávamos do lado de fora um conhecido de Norman apareceu. Ele reclamou de nossa vodka e tentou nos ensinar uma brilhante filosofia de vida (a do foda-se) que ele havia aprendido por meio de dois divórcios e por largar a faculdade. Ele agora tinha uma auto-escola que gerenciava, que era onde Norman o havia conhecido. Pouco tempo depois alguns de nossos colegas chegaram e conseguimos nos livrar dele.

Sentamos em uma mesa lá dentro, deixando a garrafa vazia para trás. As pessoas iam chegando e ocupando os vários lugares na mesa, enquanto a banda tocava seu repertório carne-de-vaca. E foi aí que ela chegou.

Quando Amy* passou pela porta eu estremeci. Nossos olhares se cruzaram por um segundo, antes que eu o desviasse para o cardápio. Era a primeira vez que eu a via depois de termos destruído nosso relacionamento e o que quer que existisse entre nós antes dele.

Ela se sentou em uma cadeira na minha frente, um pouco pro lado, e interagiu com as pessoas à sua volta sem olhar na minha cara. Eu sentia uma tensão interna aumentar enquanto eu bebia, e achei que não conseguiria ficar ali por muito tempo. A música alta e o falatório mascaravam o som de sua voz, e as outras pessoas ali presentes me davam a oportunidade de me distrair.

Saí para fumar um cigarro. Norman me seguiu e perguntou se eu estava bem. Algum cara aleatório que havia me visto na mesa veio falar comigo e perguntou se eu sabia onde Amy estava. Eu senti ciúme pela primeira vez (com exceção daquele ciúme idiota que sentia por garotas do ensino médio por quem tinha interesse mas que não me davam bola).

– Tô com fome – disse. Era verdade.

– Eu também. A gente pode pedir alguma porção.

– Não. Vamos sair daqui.

Saímos do bar sem nos despedir e seguimos pela avenida, procurando algum lugar pra comer. Tínhamos pouca grana. Achamos uma pizzaria no meio do caminho e decidimos comer nela.

Juntamos nossa grana e pelas contas teríamos dinheiro exato para pedir uma pizza e uma bebida de 600 ml e assim pedimos. A pizza não demorou e logo estávamos saciando nossa fome. A comida ajudou com o grau do álcool e conversamos por mais um tempo. Foi só quando pedimos a conta que percebemos que havia um problema.

O preço era maior do que havíamos calculado. Aquilo não podia estar certo. Peguei o cardápio e chequei novamente, e só dessa vez consegui ver um pequeno asterisco ao lado dos preços. Havia outro asterisco no final da lista, com letras miúdas que diziam:

Preços de segunda à quarta

– Merda.

– O que a gente faz?

– Não temos dinheiro pra pagar.

– Talvez possamos dar o que temos e explicar pra eles a situação.

– Ou…

Olhei em volta: Sem câmeras. Apenas uma garçonete, que ia e vinha, ocupada demais para prestar atenção em todas as mesas. Várias saídas e o balcão ficava longe delas. Some isso com a putaria das letras miúdas: Eles estavam pedindo por isso.

– Nós podemos simplesmente sair – terminei.

– Como? Tá maluco?

– Ninguém tá olhando pra gente. Você sai primeiro e eu vou no banheiro. Eu saio logo depois e a gente vaza daqui.

– Eu não sei não.

– Prefere o que? Tá afim de lavar uns pratos?

Norman ficou em silêncio, mas eu podia ver que ele estava nervoso. Ele se levantou e saiu da pizzaria. Assim que botou os pés para fora me levantei e fui na direção do banheiro. Eu me sentia vigiado, observado, mas sabia que era apenas paranoia. Entrei na cabine e mijei, relaxando e tentando me concentrar com a bebida na cabeça. Nesse momento a porta da cabine se abriu, batendo nas minhas costas.

Merda, havíamos sido descobertos. Caralho, Norman, o que você fez? Era tão simples! Afivelei a calça e saí da cabine, preparado para as consequências.

– Desculpa aí, eu não sabia que tinha gente – um velho de bigode disse assim que saí. Meu cérebro demorou alguns segundos para processar enquanto eu olhava em seus olhos, paralisado, mas enfim consegui esboçar um sorriso e dizer:

– De boa.

Desviei do velho e saí pela porta mais próxima do banheiro. Ninguém se importou. Ninguém nunca se importa. É como um amigo que comia de graça em supermercados me disse uma vez “você age naturalmente e é como se fosse invisível”.

Dei a volta na pizzaria e avistei Norman do outro lado da rua. Caminhei casualmente até ele, acendendo um cigarro, e quando nos encontramos saímos correndo e rindo pra longe dali.

*Ler conto “Ocitocina”, do mesmo autor.

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