– Nem com uma flor – Retrato de um cotidiano em 3 atos

Ato 2

           – Você tem certeza? Sofreu tanto da última vez. Eu conheço você e seus romances malucos, sempre querendo alguém que te complete, alguém que te preencha por completo. Ah minha filha, me dá um abraço, eu sei que é tão difícil, você é igualzinha a mim, tão intensa, tão forte. Fabrício me parece um bom rapaz. Ele parece ter mudado muito.

Ela não respondeu, apenas abraçava a mãe, demorou algumas semanas para dizer que tinha reatado com Fabrício. Ainda não tinham atualizado o status no Facebook. A rede social se tornara o novo cartório e tudo só realmente possuía valor se houvesse ali uma demonstração pública. Ela sempre contava tudo para a mãe, ela mesmo não entendeu o porquê de ter adiado a notícia a tanto tempo, talvez por um sexto sentido materno, ou algo do tipo. Seu pai não tomara nenhuma posição, sempre agiu desta foram “resolva com sua mãe” e assim ela resolvia.

Algumas amigas aprovaram, outras nem tanto. Ela passou por tempos difíceis. Tentou não demonstrar, na época, porém as amigas mais próximas sabiam o quão penoso foi aquilo tudo e agora estavam reatados. Tentaram dissuadi-la porém, ela pensava que Fabrício havia mudado, que Fabrício não iria vacilar mais.

Mas Fabrício realmente tinha mudado. Algo nele estava diferente. Não sabia dizer se tinha deixado o jeito moleque para trás, ou se apenas o tempos em vê-lo causou esta impressão.

– Não quero te ver de novo com aquelas meninas – disse Fabrício sobre suas antigas amigas – elas ficam colocando coisa na sua cabeça como fizeram da última vez.

De certo, ela achava que Fabrício estava certo, ela nunca o vira de fato com Giovana, tudo tinha sido contado para ela, talvez as amigas fossem invejosas, talvez elas queriam realmente terminar aquele namoro.

– Não quero você andando com estes tipos de roupa, parece uma prostituta – ela sempre gostou de roupas mais chamativas, saias curtas, vestidos colados, coletes, blusas, camisas com bandas famosas de rock, era o seu estilo desde que tinha quinze anos, seus pais nunca proibiram, simplesmente deixava ela ser. Talvez Fabrício estivesse certo e fosse hora dela crescer e se comportar.

Mas ela parecia uma prostituta? Não, não parecia. Ela era muito bonita, também de uma inteligência maior, ela gostava de chamar a atenção, herdou isto da mãe. E a mãe não era prostituta, como assim prostituta?

– Já te disse, não quero você com este vestido! – ele era florido, era da sua mãe, longo e florido, cor Tyfffani. Lembrava mais uma sereia ou uma hippie dos anos sessenta. Fabrício apertava seu braço, eles estavam em uma pracinha do campus.

Ela quis protestar, mas deixou passar, deviam ser as provas. Fabrício também estava trabalhando, estava cansado, estudava para um concurso público. Estavam quase fazendo um ano de namoro. Brigavam todas as semanas, porém cada vez mais ela o deixava com a razão, cada vez mais ela se moldava em sua forma. Talvez sem notar, ou percebendo de fato.

Ela chorou. Abighail levantou sua grossa e gorda mão, fazendo o escrivão parar seu digitar maquinal. A aliança de casamento enterrada no gordo dedo brilhava profundamente na mão da forte Delegada. Seu coração já pesado, por tantos relatos feitos pelas mulheres que ali sentam, ainda sim amolece tal qual uma mãe ao ver uma garota tão nova chorando. Ela tem idade de ser sua filha, ela realmente poderia ser sua filha chorando com o lindo rosto desfigurado.

O escrivão engoliu um seco, a delegacia parecia ter se envolvido em uma bolha de vácuo. Lá fora, o caos das conversas altas, das mulheres dos presos esperando para deixar o café da tarde, do aglomerado, dos policiais indo e voltando. Ali dentro, um outro mundo, um outro universo.

– Tome um pouco de água – disse Abhigail servindo-a de uma garrafa de água mineral suada. A garota aperta o copo descartável ruidosamente. Seus soluços cessam após o profundo gole.

A água desceu resfriando seu esôfago e estômago.

Porque Fabrício mudou tanto? Aquele homem simpático havia se perdido no tempo? Ela, o que acontecera com ela?

Estas perguntas desvaneceram junto à água.

Fabrício a perseguia no campus, eles brigavam praticamente todas as semanas, mas sempre faziam as pazes. Ele fazia cenas de ciúmes, chegou a agredir um colega de classe dela em uma das calouradas. Eles haviam trocados olhares acidentais e Fabrício quebrou o nariz do coitado. Os tempos em paz eram bons, porém eram escassos, Ela mesmo se tornou uma estranha para as amigas, Fabrício sempre estava com ela, as vezes até mesmo nas aulas, sim ele assistia alguma das aulas com ela, principalmente as aulas onde um dos garotos do qual ela teve um relacionamento também assistia.

Ela também tinha suas cenas de ciúmes, Geovanna era um fantasma que ainda a assombrava. Por duas vezes ela o pegou conversando com esta menina no celular, por duas vezes algumas discussões quase partiram para um ponto de ignorância.

Também quase terminou novamente o namoro, depois que soube que Tamara pegou uma carona com Fabrício.

Seu coração palpitava forte, ela sentia-se doente, sentia-se dolorida. Ela não suportava. Dentro dela Fabrício era um deus grego, um expoente apolíneo de uma filosofia que apenas surgiu, sem saber de onde fora surgido.

No passado de um ano e meio, algumas amigas a abandonaram. Ela já não era a mesma garota, ela já não ia para as festas, não faziam mais trabalhos juntos. Fabrício sempre tinha que estar ali com ela, sempre se intrometendo, as vezes até discutindo com elas. Cada uma foi tomando seu rumo, formando novas amigas, ela foi ficando cada vez mais solitária, cada vez mais distante. Suas notas começaram a cair. Fabrício não deixava ela estagiar, ele dizia que o professor dera o estágio para ela unicamente, para se aproveitar dela, eles adoravam novinhas, dizia ele e, por isso, ele queria protege-la. Ela simplesmente aceitou.

A única amiga a não arredar o pé foi Fabiana. Fabrício a odiava, chegando até a ameaça-la.

Ela tentava falar com a amiga, tentava dizer para ela o quanto ela mudou. Fabiana era tudo que tinha sobrado e ela estava ficando sem opções, era uma sinuca de bico, Fabrício ou Fabiana? Fabrício era o seu grande amor, e o que era Fabiana? Fabiana não tinha namorado, Fabrício dizia que ela era lésbica e tinha interesse nela, Fabrício apontou o dedo em seu rosto e falou que se um dia, se um dia ela ousasse traí-lo com outra mulher, ele mataria as duas.

Ela não falava mais com Fabiana.

– Filha, você está bem? – Ela disse que sim sem despregar os olhos do notebook – tem comido tão pouco, mal falamos. Tem andado parecendo uma velha.

Sua mãe sorriu, tinha um sorriso solto e caridoso. Ela apenas respondeu que estava tudo bem, que não precisava se preocupar.

Mas sua mãe tinha visto a marca roxa no braço direito, não quis perguntar, sabia a resposta.

– Essa foi a primeira vez que ele te agrediu? – perguntou a Delegada Abighail. Ela disse que fisicamente sim, que tinha sido na festa de aniversário do amigo de Fabrício. Eles estavam juntos, ela não conhecia literalmente ninguém na festa. Fabrício já começou discutindo com ela no carro porquê ela estava com uma sandália rasteira e ele a chamou de mendiga. Na festa Fabrício a proibiu de beber bebidas alcóolicas, ele não queria que os amigos a vissem bêbada, e que ele já tinha a visto bêbada e ela sempre dava vexame. Depois do parabéns, serviram um copo de cerveja, ela não chegou a beber, apenas segurou por educação. Fabrício conversava com um grupo de amigos, a deixando sozinha, quando ele viu, saiu da conversa no meio da frase e a arrastou para um canto, dando um tapa na sua mão fazendo-a derrubar o copo de plástico com cerveja. Ele apertou o seu braço ela, por um instante, achou que Fabrício iria quebra-lo.

O escrivão tomava nota de tudo.

Ela não pensou em chamar a polícia, nem dar parte. Não faria isso com Fabrício. Passou quase um mês usando camisas de manga cumprida. Sua mãe porém foi até o apartamento de Fabrício. Ela nunca tinha visitado o lugar. Ficava no décimo segundo andar, um vistoso apartamento de muitos metros quadrados. Fabrício tinha passado a morar sozinho desde que terminara seu antigo relacionamento, aquele apartamento era um pequeno presente dos avós. O próprio Fabrício atendeu e surpreso convidou-a para entrar. Ele foi realmente muito simpático, preparou um café, serviu bolachas. A mulher apenas sorria e era simpática como sempre foi.

– Fabrício – disse ela – quero conversar algo sério com você.

– Diga minha sogrinha – disse Fabrício sorridente e simpático.

– Olha – ela repousa a xícara no pires, sua voz fica estranhamente séria – eu gosto muito de você rapaz, gosto mesmo. É um rapaz de família, que pensa no futuro, coisa que toda mãe gostaria de ter como genro. Não sei em que pé está o relacionamento de vocês, e nem me importa isto, vocês são adultos, são crescidos. Eu criei minha filha para o mundo, não foi para mim. Eu e o pai dela sempre tivemos esta filosofia, sempre ensinamos ela a ter responsabilidade. Claro que ninguém é perfeito, todos nós temos nossos desvios, mas não saindo da curva e caindo no abismo está tudo bem. Mas, não vim falar isto para você, eu vim adverti-lo. Minha filha é tudo para mim, trate-a muito bem, você está me entendendo? Eu vi uma marca roxa no braço dela…

Fabrício abriu a boca para protestar, ou tentar se explicar, porém ela continuou:

– Eu sei das coisas garoto, tenho idade para ser sua mãe. Vocês são jovens, estão aprendendo ainda da vida, mas isso eu não tolero, está entendendo? É bom que não se repita. Não vou ser um empecilho no relacionamento de vocês, que por mais que eu a proíba de vê-lo, ela vai encontrar um jeito, então vou apenas te dar este aviso. Posso ser muito legal, mas também sei infernizar a vida de alguém, está certo?

Um silêncio constrangedor abraçou a ambos. Ela levantou-se, Fabrício também se levantou e a conduziu até a porta. Mantinham-se em silêncio. Ela deu um beijo no rosto do rapaz, de uma forma imensamente materna, e despediu-se prometendo combinar um jantar ou algo do tipo.

Ela nunca soube desta conversa entre sua mãe e Fabrício, nunca imaginara tal coisa. Fabrício magicamente mudou novamente, parecia mais atencioso, mais carinhoso. As brigas diminuíram exponencialmente, até mesmo algumas de suas amigas voltaram a conversar com ela. Exceto Fabiana, este era terminantemente proibido que se aproximasse.

No passar do ano ela foi cada vez mais ficando na casa de Fabrício, eles começaram a sair cada vez menos, aproveitando diversões caseiras. O próprio Fabrício deixou de ir para as festas, mantendo-se apenas no futebol nos dias de terça e quinta.

Ela ia dormir com mais frequência na casa de Fabrício, suas coisas foram indo pouco a pouco para lá. Sua mãe se preocupava com aquele quarto ficando cada vez mais vazio. Uma vez quando tentou protestar, a filha fora de uma maneira rude, do qual nunca fora no passado.

Ela começou a ver a filha três vezes por semana, depois duas vezes, depois uma vez. Depois ela começou a vê-la a cada quinze dias, as vezes nem isto. Sempre comentava tais acontecimentos com uma preocupação tamanha com seu marido, que também agia de maneira preocupada, mas nada podiam fazer, criaram-na para ser dona do próprio nariz, ela tinha seu destino.

Já faziam dois meses que ela não via sua filha. Das vezes que tentou ir à casa de Fabrício ninguém atendera, ela se preocupava, pensou em chamar até a polícia. A filha não a respondia nas redes sociais, nem atendia aos telefonemas. As amigas também a viam pouco. Trancara diversas cadeiras na faculdade, indo apenas para uma ou outra perdida no semestre. Quando perguntado se estava tudo bem, ela respondia com um sorriso que estava ótimo, estava indo pouco porque estava trabalhando.

– Filha!? – sua mãe foi vê-la na faculdade. Fabiana dissera qual cadeira ela ainda frequentava – o que aconteceu!? Você sumiu, não retorna minhas ligações, não fala mais comigo. Eu fiz alguma coisa!?

– Mãe? Está fazendo o que aqui? – Ela parecia nervosa, olhava para os lados – eu estava ocupada, estou estudando muito para as provas…

– Não minta para mim! – ela nunca viu sua mãe gritar de uma maneira tão severa, os garotos que transitavam pelos corredores pararam para ver a cena – Fabiana me disse que mal tem vindo para as aulas. O que está acontecendo!? Me diga! Fabrício fez alguma coisa, ele não está deixando você sair de casa? Podemos chamar a polícia para ele.

– Me deixa em paz mãe! Para de querer tomar conta da minha vida! Que saco! Eu estou feliz, estou tomando rumo na minha vida, não sou mais aquela criança que vocês ficavam mimando, agora para de encher o saco mãe. Não é porque você foi uma frustrada que eu também tenho que ser.

Estas palavras feriram aquela senhora, ela ainda abriu a boca para responder, porém faltou-lhe forças.

Todos no campus viam a cena.

Sua mãe nunca chorou tanto, voltara para casa desolada. O que havia acontecido? Ela não sabia. Porém notou as diversas manchas negras ao longo do braço da filha, cada uma apertando cada vez mais aquele velho e cansado coração.

Fabrício soube da discussão, disse que ela não devia encontrar mais sua mãe. Sua mãe estaria envenenando sua cabeça, colocando minhoca contra ele. Ela era invejosa e fracassada, ela não queria que a filha se desse bem. Fabrício tinha passado em um concurso público, disse que ela não precisava mais ir para a faculdade, podia trancar, porque teriam estabilidade. Ela protestou, disse que era seu sonho, daí Fabrício disse que seu sonho deveria ser ter uma família com ele e que ele a amava demais. Que não ia deixar ninguém separá-los novamente, que nem mesmo sua mãe e seu pai não poderiam atrapalha-los, daí decidiu que ela não tornaria mais a vê-los.

Em pouco tempo ela seria sua noiva          .

 

 

 

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Autor: Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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