Crônicas

Superdeus (TM)

Aviso: Este texto contém spoilers da série Demolidor, da Netflix.

A ideia do Superdeustm me veio quando eu estava em um trem indo conhecer uma galera nova em São Bernardo e encher a cara com eles. Havia ficado em dúvida sobre se deveria ou não levar um caderno para anotar alguma ideia que pudesse surgir por lá, mas não esperava que isso fosse acontecer tão cedo.

Como todas as boas ideias (e claro, algumas não tão boas assim), ela veio por associação livre: Eu estava olhando pela janela do trem quando passamos por uma estação ou algo do tipo que tinha a palavra “Samaritano” no nome. Eu me lembrei do Lar Bom Samaritano, que passava a propaganda o tempo todo na TV. Me lembrei então que esse nome se referia à uma parábola cristã, de um cara que é roubado, outros viajantes passam sem fazer nada, mas o bom samaritano o ajuda.

Mas eu não lembrei de minha catequista me contando essa história, e sim do Rei do Crime, um personagem dos quadrinhos do Demolidor que diz essa frase em um dos episódios da série. Ele disse que achava que na parábola sempre achou ser o bom samaritano, por ser um empresário que queria “ajudar” sua cidade com seu dinheiro, mas então percebeu que na verdade ele não era o ajudante nem o viajante, mas sim o assaltante que o havia roubado, já que todo seu dinheiro via de tráfico de drogas e assassinatos. E depois que ele diz isso, ele foge.

Isso me fez pensar na questão da pena de morte. Questão polêmica, cheia de poréns… Eu não acredito que as pessoas sejam responsáveis por seus atos, já que o autocontrole é um privilégio* e todas as nossas merdas vêm de gerações passadas e do mundo ao nosso redor, então aquela merda de “bandido bom é bandido morto” é uma babaquice: A prisão deveria recuperar as pessoas e não terminar de foder com elas. Mas é claro que eu não condenaria ninguém por matar um bandido por legítima defesa. Nenhuma filosofia importa quando se trata de matar ou morrer.

Apesar disso, eu não acredito que todas as pessoas sejam recuperáveis, concordando mais talvez com O Justiceiro (outro personagem dos quadrinhos) do que com o Demolidor. Em um dos episódios os dois conversam e o Demolidor critica Frank Castle por matar bandidos apagam qualquer vestígio de luz que ainda havia dentro deles e que poderia ser usado para recuperá-los.

Minha visão pode então parecer contraditória, mas talvez seja melhor entendida quando você observa quem são os bandidos que ele mata: Não se trata de ladrões de carros ou de bolsas, como os do Homem Aranha, mas sim de mafiosos, traficantes de pessoas que empregam trabalho escravo, e o próprio Rei do Crime, que manda na polícia, na prisão e na cidade inteira, praticamente.

Como recuperar esse tipo de pessoa? Pense nos sociopatas, assassinos e estupradores em série, que, assim como os outros, não tiveram escolha. Quando vemos a infância abusiva do Rei do Crime, vemos como foi seu sofrimento extremo que o levou a virar a pessoa que se tornou, e sentimos pena dele. Mas o que podemos fazer? Sociopatas não sentem culpa, e Wilson Fisk simplesmente assumiu o controle da prisão quando estava preso e continuou com quase tanto poder quanto tinha antes. O que podemos fazer?

Simplesmente legalizar a pena de morte não resolveria esse problema. A maior crítica contra isso, com a qual eu também concordo (o que também pode parecer uma contradição) é que se isso acontecesse, apenas os pretos e pobres iriam ser mortos, enquanto os ricos continuariam tendo poder e isso serviria apenas como uma forma de higienização racial e social.

Então se a lei não pode ajudar, o que podemos fazer? Eu me lembrei dos estágios que havia feito e de como os regulamentos serviam mais para foder a vida das pessoas éticas que tentavam segui-los do que para impedir que as outras fizessem coisas erradas. As pessoas que faziam merda eram protegidas por superiores que tinham mais poder e nós éramos obrigados a ficar de boca fechada. E isso se tratando de assuntos fúteis como politicagem de professores e coordenadores em escola, sem nem entrar na política pública em si. Mas simplesmente remover os regulamentos e deixar tudo livre também não seria uma boa solução, então o que podemos fazer?

Então me lembrei de um pensador que havia dito que nós precisamos de leis, mas também precisamos saber quebrá-las e precisamos de pessoas que estejam dispostas a fazer isso. Não podemos mudar as leis para punir com a morte criminosos irrecuperáveis sem foder com mais da metade da população pobre do país, mas o sistema legal atual também não está sendo eficaz. Então qual seria a solução?

Nós precisaríamos do que eu chamei (na hora em que pensei nisso) de um “vigilante confiável”. Alguém que tivesse todas as informações e poderes necessários para infringir a lei e matar as pessoas “más” que estão além dela sem foder com o resto do povo que não merece nada disso. Alguém incorruptível para quem altos cargos políticos, poder e dinheiro não importassem. Alguém como Frank Castle.

Na mesma hora em que tive esse pensamento eu percebi o quão absurdo seria algo desse tipo existir. Mas então percebi que a maioria das pessoas acredita fielmente nisso. Acreditam em alguém onisciente e onipotente, puro e incorruptível, capaz de julgar e matar a qualquer hora qualquer pessoa que faça qualquer coisa de errado, independente da raça, origem ou cargo político, alguém que é 100% justo e  confiável. Alguém que elas chamam de “deus”.

A crença de que não importa o quanto pessoas “boas” se fodam diariamente enquanto pessoas “más” obtém sucesso e ficam impunes, no final da vida todos serão julgados igualmente e terão a justiça que lhes foi negada durante toda a vida é algo que está imbutido na mente de grande parte da população mundial. Mas apesar de eu ter chegado à essa conclusão depois de 5 minutos refletindo em um trem e de nenhuma evidência real sustentar essa crença de qualquer forma, como não se trata de um superheroi e sim de um conceito metafísico e religioso, as pessoas acham que faz mais sentido acreditar nisso do que em uma aleatoriedade caótica e geradora de angústia.

Então fica aí a sugestão para algum membro de editora de quadrinhos ou desenhista amador que esteja lendo este texto: Um novo superheroi chamado superdeus. Ele irá acabar com todas as formas de Injustiçatm e trazer a paz e a felicidade a todos. Se bem que eu acho que a DC já fez um jogo com esse conceito e na história isso não acaba muito bem…

*Ler o conto “O Autocontrole é um Privilégio”, do mesmo autor

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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