Ato 3

Ainda iam para algumas festas de alguns amigos, começaram a ir com mais frequência desde que Fabrício não passara no concurso público que tanto ensejou. Seu pai o repreendeu, disse que não iria ficar sustentando filho vagabundo por mais tempo e se ele estava noivo e queria casar, teria que, no mínimo, ser um funcionário público, já que escolhera aquela faculdade de merda.

Ela sentia saudade de tudo, de sua casa, de sua mãe, de seu pai, de suas amigas, às vezes pensava que Fabrício tinha sido um erro, que o velho ditado era real: voltar com um ex  realmente era tragédia anunciada! Fabrício havia mudado, Fabiana dissera, ela não acreditava. Tudo tinha mudado, ele não a deixava sair de casa.

O celular que ela tinha Fabrício o explodiu na parede, por achar que ela estava conversando com outros homens, mesmo ela mostrando o aparelho, mesmo ele sabendo todas as suas senhas, mesmo depois que ela excluiu suas redes sociais. Ele parecia bêbado, ele deu um tapa em seu rosto.

Não era a primeira vez que ele a esbofeteava.

Também puxava os cabelos, do qual agora ele exigia que ela os deixasse grande. Dizia que mulher de cabelo curto era mulher de rua, e ela não era mulher de rua para andar com um cabelo assim; também eram comuns os beliscões e os apertões, mas o que a deixava desmoralizada, praticamente sem chão, era o tapa. Seus pais nunca bateram nela, nunca acreditaram neste tipo de tratamento. Seus pais, ela tinha saudade. Chorava todas as tardes, horas que Fabrício não estava, ele mentia dizendo que ia estudar na biblioteca, mas ele estava no bar com alguns amigos.

– Por que você não foi embora e o denunciou na época que as agressões começaram? – a Delegada Abighail sabia a resposta, aquela menina ali na frente, era mais uma de um longo e tortuoso dia de trabalho com vários relatos semelhantes a este. Não é a toa que a Delegada escolhera esta função e estudara muito para atingir tal patamar, ela sabia que precisava fazer diferença em algum lugar, também sofrera abuso, quando era menor, sabia que ela poderia fazer alguma diferença, ela escolheu isso dentre tantas opções obscuras. Sua irmã caiu para as drogas e morrera ainda com 15 anos. Ela teve sorte, sua avó a acolheu e cuidou de seus ferimentos, externos e internos. Ela estudou, sofreu, e ali estava.

Decerto ela era apenas uma pequena folha no vendaval, Abighail não era destas que se enganava, que criava fantasias. A vida nunca foi lúdica para ela que cresceu sem saber o que era infância, porém a aliança no dedo a fazia sentir orgulho, ela pensava que sua humanidade não tinha sido morta por aquele safado que fez aquilo com ela…

Ele era seu próprio pai…

Abighail uma vez comentou com o marido, eles estavam deitados na cama ouvindo a rádio universitária, sempre faziam isso antes de dormir, que se pudesse voltar no tempo e encontrar ela mesma quando pequena, ela gostaria de dizer a si mesmo que tudo ficaria bem e que ela venceria no final. Esta era sua maior incerteza, era o seu maior medo, não vencer, morrer na praia, se tornar uma alcoólatra como a mãe, uma viciada como a irmã.

Abighail também era o nome da sua avó, foi dado a ela como homenagem.

Agora, como Delegada, ela precisava ajudar aquela moça que ali estava, e ajudar a próxima e a próxima e a próxima, até as forças acabarem. Era o seu dever, sua vocação.

– Fabiana, vai embora! Não quero mais te ver! – ela disse. Fabiana estava preocupada, ela nunca mais foi à faculdade, soube que tinha trancado o curso e ninguém a via, exceto quando estava nas festinhas dos amigos de Fabrício. Ela tentou fechar a porta, porém Fabiana conseguiu impedir, com um empurrão a porta se abre e Fabiana consegue entrar no apartamento.

– O que aconteceu com o seu rosto? – Fabiana ficou assustada com o rosto inchado da amiga, o olho direito roxo e o lábio cortado. O lugar parecia meramente bagunçado – o Fabrício está batendo em você não está? Vamos denuncia-lo, vem comigo!

Fabiana segurou a mão da amiga tentando puxa-la, porém houve resistência, ela não queria, se debatia, chorava.

– Você não entende Fabiana, você precisa ir embora, se Fabrício te encontra aqui ele mata nós duas, ele disse que mataria nós duas! Ele mataria minha mãe, meu pai! Vai embora, eu te imploro! E não fala nada para polícia.

– Eu não saio daqui sem você! – Fabiana era forte, mas não estava conseguindo puxar a amiga que se desvencilhou e correu para a cozinha. Fabiana foi atrás dela, porém logo parou, seus olhos esbugalharam de medo, não sabia se a amiga havia enlouquecido de vez, mas aquela com certeza não era a garota que conhecera na faculdade.

– Sai daqui Fabiana! – ela gritava apontando uma enorme faca para Fabiana – sai daqui! Se Fabrício chegar ele vai matar a gente!

Ela chorava, seus olhos estavam vermelhos e ardentes. Fabiana ainda olhou para ela, tinha pena em seus olhos, dali ela foi embora.

Ela ficou chorando, pensou em cortar os pulsos, pensou em morrer. Porque ela não ia embora? Porque ela não foi com Fabiana? O que Fabrício ia fazer? Não sabia, não conseguia saber. Só sentiu tontura, sentiu uma forte tontura e um enjoo gigantesco. Correu para o banheiro e vomitou. Aquele vomito amarelo e pastoso, sujou os cabelos longos que ela nunca se acostumara a ter. Ela respirava forte, ela pensou em mil possibilidades e rezou para Deus que aquela hipótese não fosse verdadeira.

Fabrício tinha ficado decepcionado, ainda na época do primeiro namoro, quando descobriu que ela não era virgem. Ela brincou perguntando se ele era algum tipo de indiano ou mulçumano. Ele disse que era importante saber que aquela garota tinha sido apenas e exclusivamente dele. Apesar de ser uma opinião estranha, sempre se acredita ter margem de brincadeira para isso, em pleno século XXI tal tipo de pensamento retrógrado, principalmente de um boyzinho como Fabrício um dia foi talvez fosse impensável. Na época, não tiveram muitas oportunidades para tranzar, eram dois jovens até ocupados para idade. Porém todas às vezes ele se negava em usar camisinha. Ela protestava, mas os seus milhões de argumentos acabavam fazendo-a seguir pela cabeça de Fabrício. Chegou a tomar duas vezes a pílula do dia seguinte.

– Sinto como se hoje fosse fevereiro – ela brincava, mesmo sabendo do quão prejudicial àquilo era.

Mas agora que moravam juntos, era sempre que Fabrício tinha vontade, sempre do jeito que Fabrício achava certo. Ela não sentia prazer, ela não sentia vontade naquilo, ela não sabia o porquê daquilo, mas também não sabia mais sair. No fundo ainda sentia amor por Fabrício, um amor prejudicial, venenoso, corrosivo. Um sentimento torto. Ela não sabia o que realmente queria, talvez sentisse uma boba nostalgia naquilo. Agora que morava com ele, talvez ela tenha ido longe demais.

Talvez sua mãe tivesse razão.

Ela pós a mão na boca, começou a chorar. Ela não queria, não era o momento. Sua garganta ardia, queimava. O desespero tomou conta de si.

Seria mãe.

“Mãe” – Ela pensou, sim, ela seria mãe. Teria um filho. Não queria, era nova demais, não queria filho. Mas ali estava a verdade. Seria mãe. O exame de gravidez era uma dura verdade.

O crepúsculo caiu mais escuro do que o normal. Fabrício chegou um pouco mais tarde, ele envelhecera demais em pouco tempo, sua barba agora era espessa e desgrenhada, seus olhos tristes ainda mantinham as covinhas de sorridente, da época que ela o conheceu. Ele não tinha ido estudar ,como sempre dizia antes de sair de casa, seu cheiro não era o cheiro de quem estuda.

– Fabrício, precisamos conversar – ela disse, sua voz tremelicava, Fabrício passou por ela indo direto até a cozinha beber um profundo gole d’agua. Ele estava zonzo, a tarde foi quente.

– Espero que não seja mais uma daquelas suas coisas, porque eu já te disse, eu estou juntando dinheiro para comprar mais um monte de apostilas e entrar em um cursinho que vai abrir no próximo mês, estou esperando apenas o edital, mas como sabemos, ninguém estuda quando o edital sai, estuda antes, bem antes, então não inventa.

– Mas é que eu – ela tentava dizer…

– Cala a boca! Eu tive um dia cheio, você não pensa em mim nunca!? Tá vendo que eu tenho que passar na porra do concurso senão meu pai corta nossa mesada, você quer morar aonde!? Na favela, me responde hein!! – Fabrício levantava a voz e apertava o braço dela, era costumeiro isso, ele gritava várias vezes – me responde sua patricinha de merda, você acha que sua mamãezinha e seu papaizinho vai te aceitar de volta!? Você acha que tem para aonde ir!? Vai morar na casa das suas amigas putas!? Vai ser putas que nem elaa, ou vai ser lésbica que nem aquela machuda da Fabiana!? Responde sua merdinha!!!

Fabricio gritava, sua mão tremia, a outra apertava o braço dela com tanta força que parecia ouvir o osso partir-se lentamente. Ela tentava falar, as lágrimas se misturavam na garganta, talvez fosse sangue, não sabia. Fabrício estava possesso, ele a xingava, a menosprezava, ela queria fazer aquilo parar, ela não aquentava mais

– Estou grávida! – ela gritou, depois disto apenas silêncio.

Fabrício a largou, foi até o banheiro, tomou um banho demorado, depois foi ao quarto e dormiu. Todo este tempo ela ficou sentada na sala, a marca no braço brilhava vermelho, ela não conseguia mexer a mão.

– E estava com quantos meses? – perguntava a Delegada Abighail.

– Eu estava com três meses quando perdi, o médico me falou que o estresse pode ter sido a principal causa. Eu, de começo não queria ter a criança, mas depois pensei que aquilo poderia mudar Fabrício, eu realmente pensei que tudo ficaria melhor, que ele deixaria me reaproximar de minha família, e se ele passasse no concurso tudo ficaria bem de novo. Chorei muito.

– E ele, o que ele disse?

Ele não disse, ele simplesmente se enterrou no bar. A principio ele reclamou, disse que a criança iria atrapalhar o investimento que ele estava fazendo nos seus estudos e que aquilo era culpa dela por não ter se cuidado. Ele não poderia trabalhar e estudar ao mesmo tempo, e ela também não podia trabalhar, porque mulher não devia trabalhar. Ambos estavam desesperados por não saberem o que fazer, decidiu apenas o tempo tomar de conta.

Ai ela perdeu a criança.

Ela acha que ele ficou aliviado, isso fez com que ela sentisse ódio por ele, um ódio profundo, um ódio repugnante do qual ela nunca havia sentido na vida. Ela pensou que pela primeira vez na vida teria a capacidade de matar alguém. Quem ela era agora? Alguém que apanhava do noivo? Uma mulher fragilizada? Que vive em cárcere? Ela era isso? Pensou em ir embora, mas se sua mãe não a aceitasse? Viveria na rua? Se tornaria uma mendiga? Ela queria falar com a mãe, mas Fabrício quebrou todos os telefones da casa.

O que ela sentia por Fabrício era medo. O amor morreu, ela não notara. Talvez tenha notado, talvez não.

Mas os meses foram passando, talvez o medo fosse algo estagnador, algo que nós deixássemos distantes dos nossos ancestrais que migravam de um ponto ao outro quando aquele lugar nada mais tinha a oferecer. A incerteza semeada por anos de um controle emocional, que minou pouco a pouco a mente de uma garota forte e decidida, pode ser colocado na balança como um fiel importante.

Foram para o fim de ano na casa de um dos amigos de Fabrício. Era uma chácara no interior, aqueles lugares com piscina e tudo. Fabrício se acabava na bebida, fazendo vexame e brincadeiras sem graça. Ela ficava sentada numa mesinha no fundo, sozinha. As namoradas e mulheres dos outros convidados a achavam estranha, sempre de óculos escuro, sempre com roupas largas, chegaram a perguntar se ela fazia parte de alguma religião.

Fabrício acabou virando o centro das atenções, vomitando e falando besteira, arrumando briga e por diversas vezes quase estragando a festa. Ela nunca o vira beber assim, como um desesperado. Talvez ele quisesse provar algo a si mesmo, não iria saber.

Ele ainda estava bêbado quando foram embora. Pegaram um taxi, voltaram para casa, ambos em silêncio. Ela foi até o banheiro para tomar um banho quente, mas ele puxou o seu braço, ele lambia seu pescoço e apertava sua cintura, ela não queria, ela não estava afim. Ele dizia que queria agora, que queria foder com ela, mas ela não aceitava, não queria. Começou a empurra-lo, porém ele aplicava mais força, dai ela começou a bater nele desesperadamente. Ele já começara a rasgar a sua roupa, a abrir sua camisa. Uma lágrima escorreu, ela não queria, não queria.

– Para, por favor! Ela disse.

Mas ele continuava empurrou ela na parede e ela bateu a nuca, sua visão ficou turva, ele passou a mão no seu pescoço e começou a apertar, por um instante ela achou que ele a esganaria. Ela começou a gritar, e gritar cada vez mais forte.

– Cala a boca, você quer que os vizinhos escutem?  – gritava ele – eu vou foder você, é sua função nesta casa.

Ela não aceitava mais esta humilhação, ela começou a chuta-lo, ela iria sair e pedir por socorro, mesmo seminua, mesmo assim, ela não aguentava mais, tinha chegado a hora, não dava…

Um soco em seu rosto, fez com que ela desequilibrasse. O seu nariz quebrou, o sangue jorrou pelo rosto, ela caiu em cima da mesinha de centro de vidro fazendo a espatifar. Os cacos de vidro entraram em seu rosto cortando-lhe, o sangue jorrava. Ela sentia uma dor profunda, seus olhos estavam escuros até que ela perdeu os sentidos. Fabrício desesperou-se e fugiu, ninguém sabe o seu paradeiro. Ele acreditava piamente que ela estava morta.

Os vizinhos chamaram a ambulância.

Os médicos salvaram sua vida, mas as cicatrizes…

Mesmo com anos naquela profissão a Delegada Abighail engoliu seco. A sala estava um silêncio sepulcral. A figura daquela menina desforme, com a cabeça raspada, magra, com diversos gessos e ataduras, com curativos por todo o rosto. Ela também perdera alguns dentes e o nariz ficara completamente deformado. Um dos olhos agora era apenas uma órbita vazia sob aquele monte de faixas, sua fala também foi comprometida, alguns cacos cortaram sua língua. Assim ela perdeu o paladar, o olfato e um dos olhos. Abighail fervia por dentro, este era o problema da sua profissão, mesmo com tantos anos, ainda sim aquilo ainda a deixava doente, aquela garota tinha idade de ser sua filha.

Ela só pode dar seu depoimento depois que saiu do coma, Fabrício foi pego, aguardava julgamento em liberdade, talvez demorasse anos, esta era a realidade no Brasil.

Ela ainda não conseguia andar direito, ainda precisava de ajuda de outras pessoas. Fabiana a ajudava agora, as duas eram muito amigas, tentaria o máximo trazer conforto a vida da garota, tentar faze-la regressar a faculdade, quem sabe.

Mas o dia estava apenas começando naquela delegacia, aquele era só mais um dos milhares de casos, milhares de agressões que as mulheres sofrem todos os dias dos seus parceiros, as físicas, as emocionais, entre tantas outras. Depois tentar chegar em casa, dormir, tentar sonhar com um mundo melhor e utópico, talvez fosse impossível, talvez estivesse tão longe quanto um dia ela poderia pensar. Mas Abighail, Delegada Abighail tinha a fé do lado dela, ela sabia que estaria fazendo o possível para punir os agressores e trazer paz para as vítimas.

As pessoas não podem esquecer as VÍTIMAS

Mas era difícil, as pessoas só se importam com as vítimas quando elas mesmas se tornam vítimas. Abighail não desistiria, quando Fabiana partiu com aquela garota, empurrando sua cadeira de rodas, e uma outra mulher, com grandes hematomas, entrou em sua pequena sala, todo o ritual começara novamente, podia parecer maquinal, mas ela faria de tudo um possível que todos que ali adentrem, saiam com a esperança de justiça.

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Sobre Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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