“Ainda bem que eu tenho um bom emprego”. Foi a primeira coisa que José pensou naquele fatídico 28 de abril quando o celular despertou chamando-o para a vida às 4:00 da manhã. Levantou, pegou a roupa que já deixara separada na noite anterior sem acender a luz para não acordar a esposa que ainda tinha 40 minutos de precioso sono. Lavou o rosto e escovou os dentes. No caminho até a cozinha olhou de soslaio pela porta entreaberta do pequeno quarto onde dormiam os dois filhos. Sorriu em silêncio. Tomou uma xícara de café da máquina e saiu para o dia que ainda nem amanhecera.
Assim que chegou à rua ligou o rádio que anunciava o trânsito caótico da cidade, ônibus incendiados, muitos não conseguiriam chegar ao serviço hoje. “Ainda bem, que com a graça de Deus, tenho um carro”, pensou José feliz consigo mesmo, dentro de seu popular de segunda mão do qual só restavam cinco prestações para quitar. Não se atrasaria. Fez uma rota alternativa já que seu trajeto usual estava bloqueado.
Atravessou o portão na mesma hora em que bateu o sino de entrada. Correu para sua sala, depositou os livros sobre a mesa e iniciou a limpeza do quadro, apagando os palavrões que todos os dias amanheciam ali, enquanto os alunos se engalfinhavam às suas costas. Às 10:00 horas comeu sua maçã enquanto trocava os livros no seu armário antes de ir para outra sala. O governo tinha cortado o lanche dos professores. Às 12:00 horas José precisava escolher entre comer alguma coisa ou correr com seu carro até a outra escola para não chegar atrasado para a próxima aula que começaria em 45 minutos. Ficou com a segunda opção. Ainda assim, chegou uns minutos atrasados e precisou caçar seus alunos pelo pátio e ameaçá-los para que se sentassem. Aprendera há muitos anos filtrar os xingamentos e ofensas e continuar sua aula mesmo que ninguém na classe estivesse prestando atenção nela.
Agradeceu mentalmente quando o intervalo das 15:15h chegou. Comeu outra maçã, seu estômago reclamava por mais comida, mas não dava tempo. Sua próxima aula era em outra escola. “Ainda bem que essa é bem pertinho”, pensava José enquanto corria pela rua tentando alcançar a escola que ficava a três quadras dali, “tenho muita sorte em ter conseguido aulas em escolas próximas”.
Ás 17:00h pode finalmente sentar e comer o sanduíche amassado que resgatou do fundo da maleta. “Ainda bem que tenho esse intervalo”. Na pequena televisão o noticiário dava as últimas notícias no manifesto. José até concordava com as reivindicações, mas na última greve alguns de seus colegas tiveram dias descontados e ele não poderia se dar esse luxo. “Como vou lutar por algo que está por vir daqui a vinte anos se preciso pagar minhas contas daqui a vinte dias!”. “Não é uma traição para com a classe”, pensava José, mas não deixava de se sentir culpado. “Além do mais, ele já estava com 45 anos, trabalhou a vida toda, o que eram mais 20 anos! Passa rápido”
Parou com seus devaneios e seguiu para a próxima etapa do dia “ainda bem que é a última”. O cursinho preparatório era a parte preferida do dia de José, onde ele podia passar um pouco de seu conhecimento adquirido em anos de estudo e aprimorado no mestrado.
Às 22:30h quando finalmente ligou seu carro pela última vez pensou novamente nas manifestações. “Ainda bem que tenho um bom emprego”. Chegou em casa em silêncio para não acordar ninguém, pegou o prato feito que a esposa deixara para ele na geladeira e colocou um minuto no microondas. Comeu automaticamente, pensando no banho que viria a seguir. Abriu a porta para ver os filhos, mas não entrou. Depois do merecido banho ajustou o celular para despertar no mesmo horário, naquele sábado teria conselho de classe. Não podiam mais fazer em dias letivos para não prejudicar os alunos. Pensou em Matheus, seu aluno do segundo ano do colégio, que mal escrevia seu nome, “Dê nota pra ele, José”, dizia o diretor “Não faz bem pra ele ficar reprovando!”. Passará então, o governo quer zerar os níveis de analfabetismo do país.
José pensou o que seria melhor para o dia seguinte, voltar para casa após o conselho ou ficar na escola terminando de corrigir as provas de recuperação? “Melhor ficar”. Assim terminaria tudo no sábado e teria o domingo livre. “Graças a Deus tenho um emprego que me deixa o domingo livre.” Poderia levar a família no zoológico dar pipoca aos macacos. “Então, no domingo à noite, preparo a aula para a segunda”. Foi seu último pensamento antes de permitir que sua mente caísse em sono profundo.

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