Otimistas gostam de dizer que existem duas emoções que dão origem a todas as outras: O amor e o medo. O amor seria uma energia ou tendência de junção, união, harmonia e criação, da onde viriam a fraternidade, o carinho e o afeto, enquanto o medo seria uma energia de separação, caos e destruição, da onde viriam a raiva, agressividade, tristeza, entre outras emoções consideradas ruins ou negativas.

Talvez de alguma forma isso seja verdade. O problema é quando essas pessoas começam a julgar o homem acreditando ser o amor o seu estado natural de existência e o medo e seus derivados como mero obstáculos a este fim. Da onde tiraram tamanha besteira?

Nós evoluímos por milhões de anos como macacos que só sabiam comer, matar e trepar. Nossos ancestrais matavam tribos rivais cometendo genocídios antes do capitalismo ser sequer inventado. Até mesmo tribos indígenas que sobreviviam da floresta viviam em guerra e sacrificavam seus inimigos sob os aplausos de seu povo. Em Roma, crianças eram levadas por seus pais para assistir pessoas sendo devoradas por leões assim como na Idade Média eram levados para ver mulheres sendo queimadas na fogueira.

Com a modernidade vieram as duas guerras mundiais, a guerra fria, os conflitos no Vietnã e no Oriente Médio, os atentados terroristas, o Apartheid, a ascensão e queda de ditaduras. O homo sapiens nunca em nenhum momento de sua história esteve em paz. Mesmo em países neutros como as terras nórdicas, o número de suicídios é de impressionar.

Como poderia haver, então, paz em uma espécie cuja evolução está fundada na violência? Você poderia argumentar que as coisas hoje são diferentes, que temos leis e somos civilizados, mas em cima do que essas leis se baseiam?

Uma lei é o resultado de um acordo no qual você abre mão de parte de sua liberdade em troca da proteção do Estado. Isso por si só já nos leva a questionar: Se o Estado não cumpre o que promete, por que deveríamos? Não deveríamos ficar surpresos por tantas pessoas cometerem crimes, e sim por tão poucas.

As pessoas têm tanto medo da violência que não conseguem percebê-la por trás das leis. Elas as seguem, orgulhosas de um título de bom cidadão, sem perceber que ainda hoje, para nós, os civilizados, a única lei que funciona é a do mais forte.

Peguemos um crime simples, uma infração de trânsito, por exemplo: Suponhamos que você se recuse a pagar. As punições irão aumentar de pontos na carteira, pra multas e apreensão do carro. Mas suponhamos que ainda assim você continue dirigindo e agindo da maneira que bem entende. Uma hora, enviarão policiais para prendê-lo, e se ainda assim resistir, se verá em um situação onde prevalecerá o desejo do mais forte, daquele que é o mais violento. A obediência à uma simples lei de trânsito está, no final de tudo, pautada no desejo que o mais forte tem sobre o mais fraco, e na submissão do segundo pelo primeiro.

Peguemos agora um exemplo oposto, como as manifestações do povo contra um governo opressor, muito presente nos dias de hoje: O governo decide impor uma lei e o povo não concorda. O povo se reúne em manifestações pacíficas, o governo chama a polícia e vence novamente aquele que é o mais forte, o mais violento. O governo não se sente ameaçado por placas e hinos, mas o povo se sente ameaçado por balas de borracha e gás lacrimogêneo. E então o povo obedece ao governo, mas o governo não representa o povo.

O que estou tentando dizer é que não existe revolução sem violência. Não existe mudança sem conflito, e a pena só é mais forte do que a espada antes das bombas começarem a cair. Então o que você vai fazer? Quando eles mandam e você diz não eles te prendem, agridem e matam. O que vai fazer quando forem eles a dizer não? Pegar seus cartazes e ir embora?

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