Passeio entre os que já se foram.

Como hobby eu andava em cemitérios, eu era um adolescente, na tragédia dos dezesseis anos. O silêncio da profunda introspecção que aquele ambiente me trazia era digno dos mais belos poemas, me alcoolizava em meio aos mortos, sempre com uma áurea mística dentro de mim, como se, de alguma forma, eu pudesse entender a dor daqueles que, encontram na garganta dos vermes, sua última morada.

Não era incomum observar com curiosidade a ida e vinda dos parentes dos que já se foram. Eles também me observavam: eu não me vestia mal, realmente era um garoto da burguesia deslocado no meu eixo. Seus objetivos eram repousar nos túmulos suas flores e condolências; muitas das vezes pedir um perdão atrasado para aqueles que se foram levando consigo sentimento de culpa, rancor, desprezo e ódio. Um grande arrependimento para quem fica, pois existe uma saudade neste sentimento, uma saudade inexplicável que não poderá nunca mais ser sanada.

As vezes eram os filhos que enterravam os pais, outras vezes eram os pais que enterravam os filhos. Talvez ali o elo mais sincero. Tristeza e dor, nós encaramos a morte de uma maneira curiosa, diante da forma que em outros lugares encaram. Sempre somos muito materialistas, sempre achamos que caixão tem gaveta. No fim, não importa se você é um rei ou um peão, todos irão para a mesma caixa no fim do jogo.

Algumas lápides não tinham identificação de nome ou data, apenas algum símbolo, ou escritos como “para todas as almas” entre outros, estes eram os indigentes. Aqueles que não tinham o corpo reclamado por alguma família, ou uma lágrima destinada para seus últimos momentos. O cemitério era público, havia uma porcentagem dele apenas para estes tipos de casos, que não eram poucos. Nossa identidade vai conosco quando partimos, se não há ninguém em vida para lembrar quem nós somos, simplesmente nos enterram com uma pequena placa branca sem identificação, e ali permaneceremos sem uma lágrima ou visita

No dia a dia haviam os deveres estudantis e os familiares. A busca por aceitação dos adolescentes por eles mesmos, tentando mostrar o quão interessante eles eram e como seus conflitos internos eram tão  importantes. Na maior do tempo parte eu permanecia em silêncio, ou conversava com alguns poucos e bons amigos. Uma forma sutil de suportar o desinteresse nos dias da semana e nos afazeres da época, mas nos fins de semana havia o cemitério, a diversão do mais profundo silêncio. De estar entre aqueles que não mais estão aqui. De ver os familiares, de assistir aos velórios, de ver o caixão descer até o coração da mãe Terra, onde o corpo se ungirá ao solo, misturando-se as flores exalando a vida eterna.

O padre falava alguma palavra, um sermão, algo do tipo. Os parentes choravam, alguns mais outros menos. O caixão desce lentamente no buraco. Impossível saber se era uma mulher ou um homem, se era novo ou velho, se prestava ou não. A única certeza era o poder aquisitivo, pois o cemitério que eu frequentava não era para famílias tão abastardas. Dali em diante a vida daquelas pessoas tomará outro rumo. Aquela pessoa que se foi nunca mais será vista, sentida, respeitada ou ouvida. Sua voz começará a ser esquecida e as memórias do que aquela pessoa foi um dia serão retorcidas pelo nosso cansado cérebro.

No fim das contas, restará uma lápide com uma frase bonita, ou não.

Esta é a única verdade, a certeza definitiva, o mal irremediável. Todos terão este mesmo destino, este único ponto em comum. Todos serão frases em uma pedra fincada no chão duro, todos serão alimentos para seres ínfimos e desprezíveis. Andar por um cemitério traz este tipo de reflexão, sobre o que somos e o que seremos.

Há muito tempo não faço mais esta prática, quando somos adolescentes, parece que o tempo urge em nossas vidas e assim não sabemos aproveitá-lo. Vemos nossa juventude escorrer por entre os dedos e nossas fotos e nossos fatos ficando cada vez mais distante, cada vez mais longe na longínqua linha temporal. Tenho saudade destas minhas caminhadas pensativas por entre os mortos. Mal penso o quão estranho seria retomar tais práticas, hoje com este mundo tão virado ao avesso. Penso que ali, dentro de cada buraco, foi uma vida com suas desilusões e frustrações. E que aqui, no mundo dos vivos, ficaram pedidos de desculpas não dados, mal entendidos que poderiam ter sido desfeitos, e desculpas que poderiam ter sido pedidas. O motivo de andar por entre aqueles que já se foram é pensar que não temos todo o tempo do mundo para lembrar aqueles que nos rodeiam o quanto nós os amamos.

 

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Autor: Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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