Prólogo

A morte faz parte da vida. O conceito de viver só existir porque é possível desfrutar do seu oposto, a morte. Alguns encontram-na quando são diagnosticados com uma doença terminal, ou um dos males modernos os atinge, outros, quando o seu tempo chega, e existem aqueles que experimentam uma sensação única, que é estar vivo, mas morto ao mesmo tempo.

Minha mãe já esteve viva, tão viva que era possível sentir a alegria pulsar a ponto de emanar dela. Uma fonte, a melhor definição seria essa, ela não guardava toda a felicidade para si, mas tentava de todas as maneiras contagiar as outras pessoas, transformar os problemas comuns em um motivo para sorrir. Mas isso tudo mudou, quando o papai se foi.

No início ela parou de sair de casa, depois do quarto e mais recentemente de falar até mesmo com a gente. Ela estava viva, respirava, mas a essência dela tinha se perdido, em algum lugar dentro dela alguma coisa estava perdida. Sabe quando você perde algo importante, mas é incapaz de descobrir. Coloca as mãos nos bolsos, procura na estante, vasculha no mais profundo da mente, algo não está certo, algo importante está faltando, mas você não sabe o que é.

Não sei dizer se ela procurou, se em algum momento esteve disposta a encontrar o que foi perdido. Tudo que sou capaz de afirmar é que agora todos nós temos a mesma sensação, algo foi perdido, e por mais ridículo que pareça, não sabemos o que.

Minha mãe se matou, o mais óbvio de concluir seria que ela é a perda, mas não é isso. Talvez seja a sensação de desamparo, o abandono, a dor de continuar existindo sem ela, o peso da culpa de nunca ter sentado na cama com ela e perguntado se tudo estava bem. A raiva velada que carreguei na alma todo esse tempo que queria explodir e gritar, gritar e gritar freneticamente que os filhos dela, nós, nós estávamos abandonados no mundo.

Talvez seja tudo isso, misturado com a mágoa crescente que sinto desde que recebi a notícia, sentei nesse sofá e olhei para o rosto de desolação do Júlio. Seus lábios tremem, os olhos estão avermelhados, mas somente marejados agora. Depois de 4 longas horas sentado na mesma posição chorando ele parou.

Seu olhar encontra o meu em vários momentos, mas sou incapaz de manter, desvio para os meus pés. Queria abraça-lo, dizer que vai ficar tudo bem, mas não consigo, porque preciso ser abraçado também, de uma frase de consolo, de alguém que me diga que tudo ficará bem. Não posso tirar força de dentro de mim, pelo menos não quando estou devastado.

Dona Francisca de aproxima e anuncia que é hora de deitar, dormir vai nos fazer bem. Pega na mão de Júlio e leva-o para o quarto. Minutos depois ela retorna com um travesseiro, um fino lençol e uma coberta e me entrega.

– Tente dormir um pouco. Se quiser conversar ou qualquer coisa do tipo é só me chamar, vou estar no final do corredor.

– Ta bom, obrigado.

– De nada meu anjo. Amanhã conversamos mais – Fala enquanto saí da sala.

Passo as horas seguintes olhando para o teto tentando entender toda aquela situação. Como  minha própria mãe teve coragem de nos abandonar assim? Como ela pode desistir da vida e dos filhos? Ela não tinha esse direito!

Meus pensamentos são interrompidos pelo barulho de passos se aproximando. Cerro bem os olhos para conseguir distinguir quem é a pessoa que se aproxima, depois de alguns segundos percebo que é Júlio. Sento-me no sofá e logo em seguida ele faz o mesmo.

Pela fraca luz da lua que entra pela janela consigo ver que seu rosto está desolado e inchado, ele encosta a cabeça no meu ombro e começa a soluçar, um soluço que parece ser eterno, o soluço de alguém que já chorou a ponto de esgotar suas lágrimas e agora só restou o soluço para expressar o que sente.

Ele fica parado com uma estátua, sinto que quer atenção, sentir-se seguro de alguma forma. Olho para minhas mãos, quero movê-las até sua cabeça, afagar seu cabelo e deitar sua cabeça no meu colo, mas não consigo.

Durante 10 minutos ficamos ali, um do lado do outro, em silêncio. Não trocamos olhares, não conversamos. Ele levanta, passa as duas mãos nos olhos e retorna pelo mesmo caminho que veio, sem olhar para trás.

Mais uma vez sinto o peso da culpa e a pressão no meu peito, meu irmão precisa de mim, e eu não sou capaz de abraça-lo nesse momento, de cuidar dele.

Encaro minhas mãos durante alguns segundos, e novamente me pergunto, o que se perdeu.

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