O verso não saí, a vida não vai, o tempo corre
A vela ustula a pele que não quer sentir
Meu coração e sua escura mania de mentir
Em meio ao pescanço da vida, estou a sorrir
Mangrou-se a alma com sua  penosa e vil morte
Trouxe tal fato como um inútil mavorte

Engaiolado tá o grito, o grito do grito e o grito que de mim não quer sair
Preso na traqueia branca e podre, com sua gastura gasta, tentando fugir

Carrego em minhas costas a alcunha de um volvente
Eu herdei de meu pai o espírito zafimeiro
Nada sobrou, pois eu sou seu único herdeiro
Resta o medo real da loucura do primeiro
Que de uma impressionante forma resiliente
Deixa nas frias sombras que minha’lma se atormente

O bafo podre, o cheiro de morte, sorte, corte, que sobre pelas minhas entranhas
Semelhante aos insetos que temo e aos vermes que roem-me nas grades estranhas

Oh minha cruz! pesada, torta, fria e maléfica
Uma fração de vida e tudo sucedeu
Uma decisão errada e tudo aconteceu
Destino é um licranço que a segunda perdeu
Estorceguei com fé pela deusa benéfica
Com esta fé que sempre julguei mequetréfica

Mas estava tudo contado, meus dias, a punição, o medo do carrasco e seu machado
Chorei, como criança, como adulto, como velho, chorei como nunca havia chorado

Na escura cela, com uma mortal madorra
Baratas nos meus pés e ratos como amigos
Sufoco na penitencia de meus castigos
Na casa dos esfomeados e dos mendigos
Não há destino que me salve ou me socorra
Contando meus dias, nesta escura e fria masmorra

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