A menina olhava ansiosa para o grande relógio pendurado na parede enquanto a mãe lhe trançava os cabelos. O tempo corria devagar. Tão devagar que chegava a dar sono. E foi nessa lentidão, entre brincadeiras e sonhos que os pêndulos lhe anunciaram a juventude.
Mas, de repente, o tempo começou a andar mais rápido. Justo agora que ela já não tinha tanta pressa… Precisava correr e tinha sempre os minutos contados. Eram tantos compromissos, tantos afazeres, que começou a refletir Florbela Espanca : “Trago no olhar visões extraordinárias de coisas que abracei de olhos fechados.” Sim, tudo era extraordinário. E a vida pedia pressa.
E foi assim, que num dia de labuta e rotina, entre filhos, trabalho e cansaço, encontrou os primeiros fios brancos destoando os negros cabelos. O relógio, porém, avisou-lhe que não tinha tempo para refletir.
Na incessante busca do viver, viu a velhice como uma retomada. Percebeu-se em contato com outras temporalidades. Sentiu no tempo uma duração e evolução. E entendeu o quis dizer Mário Quintana nos versos: “Com o tempo não vamos ficando sozinhos apenas pelos que se foram, vamos ficando sozinhos uns dos outros.” E embora quase centenária, viu que tinha atropelado o tempo. Percebeu que quis correr para chegar. Onde? Quis sempre acabar. O quê? Dobrou tantas esquinas, recolheu tantas pedras e plantou tão poucas flores… E nesse percurso, elas, as horas, sempre estiveram ali, ao seu alcance, ao seu toque.
E então, naquela tarde, quando o relógio badalou às quatro horas, a filha, com ternura na voz anunciou: “É tempo de partir, mamãe”.
Sua alma que ainda vagava por ali e que tinha agora o tempo da eternidade, recitou Cecília Meireles para aquela que a penteava: “Não te aflijas com a pétala que voa. Também é ser deixar de ser assim…”

Anúncios