Textos

O Deus decepcionante.

Deus existe, porém decepcionou a todos. Ele apareceu as seis da tarde de uma quarta-feira, deixando o trânsito louco. Praticamente impraticável chegar em casa, com engarrafamentos enormes e os táxis cobrando muito mais caro. A televisão não parava de noticiar o aparecimento de Deus. Era Deus mesmo, não era um sócia ou um farsante. Ele, de sua forma conseguiu provar para toda a humanidade que ele era Ele.

Os canais de televisão entraram em frenesi, em pouco tempo todos tentaram marcar uma entrevista com Deus, para que as perguntas fossem respondidas. Os cientistas enlouqueceram, todos eles seriam demitidos, pois agora bastaria perguntar para O homem e tudo seria respondido. Falando em “Homem” a primeira decepção da humanidade com Deus foi exatamente esta: Quando Deus apareceu para toda a humanidade, notara-se que ele era uma mulher.

Sua paciência era infinita, porém sua pontualidade não chegava a tanto. Talvez por estar em todos os lugares ao mesmo tempo, Deus não se importava em chegar tão cedo em suas obrigações. Também sua onisciência e onipotência foram demonstradas nos programas matutinos de auditório, ele mostrara como criar uma pedra que ele não poderia levantar e como levantar esta pedra. Todos os chefes das religiões estavam presentes para que as questões fossem resolvidas. De verdade eles só queriam apontar para os seus inimigos de religião e dizer “não disse que eu tinha razão!”, porém, Deus não dera razão a nenhum deles, e pior ainda, chamara suas atenções por agirem de forma tão mesquinha, difamando suas reais mensagens.

Deus decepcionara os Cristão dizendo que Jesus não fora seu filho.

Deus decepcionara os Judeus, falando que nunca falara com Moises.

Deus decepcionara os Mulçumanos, mas os motivos foram ditos apenas para eles, em segredo.

Deus decepcionara os Hinduístas, não haveriam tantos deuses assim.

Deus decepcionara os Ateus, pois ali ele estava, indubitavelmente.

O Vaticano fora anexado pela Itália, pois tornou-se inútil ao fim da religião Cristã. O Judaísmo também chegara ao fim, após as revelações de Deus sobre tais escrituras sagradas, mostrando completamente o inverso. Deus conversou por um longo tempo com os muçulmanos, as mulheres largaram os véus e os homens rasparam as barbas. Deus conversou com os Ateus e eles passaram a acreditar que existia um Deus, e que este Deus era ele.

Os Ateus continuaram suas vidas normalmente, mas o desastre para aqueles que tinham crença foi irreparável.

Deus falava em todas as línguas, dissera que a torre de Babel não era maior que quatro andares e explicou que tudo aquilo era questão de etnia e diferenças entre os povos. Também dera risada de Darwin, ele acertara em partes com suas teorias evolucionistas. Ele mesmo dissera que tentara criar o homem do barro, como dito nas ex-escrituras sagradas, porém preferiu criar as bactérias nas águas e permitir que a vida tomasse o seu curso.

Sobre o livre arbítrio, de fato existe. Não existia punição, muito menos inferno. Deus riu da ideia de um diabo. Disse que o diabo é o próprio homem e que o sofrimento era da carne, depois da morte, não haveria mais o sofrimento da carne.

Porém ele recusou a dizer o que haveria após a morte, ele não daria o grande spoiler da humanidade. Mais uma vez ele decepcionara a todos.

Também decepcionara os doentes, pois ele disse que buscassem os médicos que estudaram anos e anos para que pudessem curar as enfermidades. Sabia que uma ou outra doença não poderia ser curada, porém se todos fossem curados não haveria morte, e logo não haveria renovação.

Daí os doentes se decepcionaram.

Deus disse que não houve Big-Bang. Primeiro ele achou este nome ridículo, depois ele disse que o que existiu antes não estava perante ao nosso conhecimento e que o que virá depois será um grande mistério.

Mas o que Deus fazia ali? Qual era o grande motivo de sua aparição? Todos se perguntavam, todos queriam esta resposta. Deus estava hospedado na casa de uma velhíssima senhora. Ele sempre ouvira suas preces sinceras e ela sempre o tratou como um amigo. Ela se surpreendera ao ver que Deus era uma mulher e dissera a Ele, que parecia muito com sua filha já falecida. Deus disse que sua filha estava bem, mas não poderia dar mais detalhes. Também disse que ela, a senhora, viveria ainda longos anos e que não se preocupasse, também guardasse o seu dinheiro, pois o pastor o gastara de maneira muito maléfica.
Do lado de fora da humilde casa, o mundo tornara-se um inferno. Carros de reportagens e peregrinação bloqueavam todo o quarteirão, deixando aquele trecho da cidade praticamente intransitável. Deus sabendo que estava atrapalhando a vida dos homens, decidiu despedir-se de todos.

Primeiro ele pediu perdão para suas criaturas, ou filhos como preferia dizer. Desculpou-se por não ser aquilo que eles esperavam, ou por existir (sorrindo para os poucos ex-ateus que ali estavam) ele sabia que havia decepcionado a todos, por não ser uma figura masculina, por não ser o que os antigos textos representavam, por não ter confirmado todos os axiomas da ciência e por não operar milagres e trazer a destruição. Também desculpou-se pelo caos causado, pelo transtorno e pelos atrasos. Era difícil gerir todo um cosmos, uma supernova explodindo, um buraco negro engolindo, vida nascendo aqui e a ali, mas não era justificativa, dizia Deus.

Deus disse que aparecera porque cansara (todos estremeceram nesta parte) cansara do ódio e da intolerância do homem utilizando como base as coisas que ele não disse. Cansara dos dois mil anos de guerra, do egoísmo e daqueles que impediam a evolução da humanidade, dizendo que ele pautou uma regra aqui e ali. Nada disto era fato, e agora que tudo estava esclarecido, Ele, como uma boa mãe, poderia retornar ao seus misteriosos ofícios. Claro que a humanidade teria muito mais dúvidas, porém eles mesmos que busquem descobrir tais questões. Deus estaria ali, por eles, mas não interferiria em suas ações, nem os julgaria. Os homens haviam feito leis tão boas, quem era Deus para que interferisse na ciência jurídica, uma ciência tão antiga?

Porém a humanidade não entendeu. Suicídios aconteceram, alguma tristeza e destruição. Com o fim das igrejas e com a mudança dos livros religiosos para a ala de ficção. Imagens e santos tornaram-se memória de uma época longínqua e as igrejas tornaram-se museus e hospitais. Deus decepcionara a todos por não ser o que cada um gostaria que ele fosse. Ainda não entenderiam, ainda não engoliriam. Fora um baque, um grande baque para todos aqueles que permearam suas verdades com mentiras escritas dos homens para os próprios homens. Um Deus mulher!? Um Deus que aceitava os outros e chamavam negros, brancos, ocidentais e orientais, homossexuais e heterossexuais de seus filhos? Um Deus que disse não haver diabo ou inferno, muito menos punição? Um Deus que exalta a lei dos homens, achando que talvez elas fossem até mais justas? Um Deus que não responde o que é menor que um átomo ou o que veio antes do Big-Bang?

Todos se decepcionaram. Porém Deus sabia que isto aconteceria. Também sabia que muitos não resistiriam viver fora da hipocrisia, era sabido a onda de suicídios, talvez até irônico, pois muitos destes renegavam a prática e agora pendiam com os pescoços em cordas. Suas almas não encontrariam o amargo de um inferno doloroso. Deus teria outros planos, planos não publicados, como ele dissera, não daria Spoiler da grande dúvida humana.

Os homens maus continuaram maus, os bandidos continuaram com seus crimes. O medo da punição divina nunca existira, aliás, muitos tinham o nome de Deus, Jesus, Jeová entre outros tatuados no corpo. Deus brincara dizendo que era muito raro existir um bandido que não acreditasse nele. Depois de sua partida, a lei dos homens se tornaria mais forte, mas sensata, pois sabiam que Deus não vigiava nem punia. O julgamento buscaria uma Justiça mais plena, mesmo sabendo nem sempre podendo ser justo. O homem era falível, o homem era falho, a justiça tinha sido criada pelo homem, tal qual o conceito de bondade e maldade. Os bandidos continuaram sendo bandidos, porém ironicamente eles se tornaram –se mais temerosos, talvez por vergonha de chegarem no momento post-mortem e não saber explicar para Deus o que fizeram e o porquê.

Os homens mudariam a longo prazo, tomariam como exemplo suas próprias e poucas mensagens. Era, talvez, o empurrãozinho necessário para o fim da intolerância entre os povos e a paz mundial. A felicidade não seria plena, porém seria justa e todos estariam buscando o conhecimento real e lógico, em vez de esconder-se no véu obscuro de regras não ditas e palavras mal escritas. A humanidade aprenderia com suas falhas, sem culpar a Deus. Também aprenderia a esperar o que viria depois da vida, mesmo não sabendo de fato o que aconteceria. Todos estavam mais tranquilos depois do grande caos, o Apocalipse acontecera literalmente e agora poderiam dormir, pois o grande motivo da criação das religiões, que seria deduzir o que viria após a morte, estava explicado. Não que soubessem o que viria, porém era certo que haveria algo mais. Deus havia realmente decepcionado a todos, mas agora todos o entendiam e agora também o perdoavam. A partir daquele dia viveriam como se estivessem abraçados por uma grande mãe que cuida de todos com um sincero amor.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

1 comentário em “O Deus decepcionante.

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