O peito começa a subir e descer apressadamente. Minhas mãos já ficam úmidas, esfrego-as na calça, e 10 segundos depois, lá estão novamente as gotas de suor. Meus lábios secos balbuciam que vai ficar tudo bem.

Meus olhos fitam o chão, tentam encontrar a solidez que os pés não conseguem perceber. Da ponta dos meus dedos até o ultimo fio de cabelo, sinto-os ouriçados. Pela minha coluna, um calafrio sobe, e sinto como se uma cobra estivesse perto de sufocar-me até a morte.

O peito que antes arfava freneticamente, agora conta com sua aliada, a respiração sufocada e ofegante. É como se uma mão misteriosa, segurasse meu pescoço, chegasse bem perto do meu ouvido, e pausadamente dissesse que o alvo das risadas do mundo sou eu.

Os ombros antes abertos, agora contraem-se, a cabeça pouco erguida despenca com o olhar para o chão. O sentimento de indignidade, meu parceiro constante, acomoda-se em meu ombro, fazendo o peso de existir, tornar-se ainda maior.

A cada degrau que subo, sinto uma sensação de pavor invadir-me. As mãos suadas, agora tremem. Coloco-as no bolso.

Pelo curto corredor do ônibus, consigo perceber os olhos de julgamento, e ao mesmo tempo de suplica. Na minha mente, consigo visualizá-los implorando, para que o homem gordo no corredor não sente ao seu lado. Pelo reflexo de suas pupilas, vejo a minha cara de desespero.

Um turbilhão de emoções passa por minha mente que grita em agonia, para que mesmo com tantos lugares vazios, a escolha seja ir para o final do ônibus e encostar na escada. Meus pés, como sempre, estão suplicando para que eu sente, afinal, serão duas longas horas até o trabalho.

Decido sentar, olho para a moça no banco, peço licença, ela me ignora, se afasta, colando seu corpo na parede. Sento constrangido. Junto minhas pernas, coloco a mochila no colo e abraço-a. Fico imóvel, tento não esbarrar nela, não deixa-la mais desconfortável do que já está.

Na parada seguinte, ela se levanta, e decide ir em pé o restante da viagem. Nesse momento sinto meu rosto ficar quente e vermelho, um sentimento de tristeza e repulsa toma minha mente ao mesmo tempo, sinto-me isolado, distante, e ao mesmo tempo apático.

Passo o restante da viajem pensativo, olho o ônibus inteiro, todos os acentos ocupados, com exceção do meu.

No silêncio dos meus pensamentos, pego-me pensando no porque de não emagreço, porque simplesmente não chego em casa, jogo todos os biscoitos na lixeira, todas as massas fora, vou no supermercado, compro várias frutas e recomeço minha dieta.

Quando finalmente fosse magro, a dignidade perdida pela minha condição de sobrepeso seria solucionada, e novamente eu poderia ser considerado um cidadão.

Entrar em um ônibus não seria o pesadelo habitual, porque eu seria magro. E finalmente, a sociedade reconheceria, que eu sou alguém.

Jogo a cabeça para trás,  e em silêncio, começo a balbuciar, que nunca vai ficar tudo bem.

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Sobre Rodrigo Moura

Sou um mero aspirante a poeta, filosofo e escritor. Tenho 21 anos e moro na cidade do Gama. Costumo dizer que não domino o "segredo" da exímia escrita, mas vivo para escrever, e escrevo para viver. Torno cada palavra escrita e dita um motivo para acordar, um sonho para realizar e como força para respirar. Não escrevo um só gênero, porque acho que ainda não encontrei um que me defina, ou nunca encontrarei, talvez no final eu seja um transeunte entre gêneros, cujo o objetivo seja transmitir uma mensagem, seja ela, escrita ou falada.

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