Textos

O hiato após a escuridão.

Na mesa da cozinha o notebook brilhava.

O som da televisão na sala.

Tentei me concentrar, um pouco mais além do normal. A mente vazia de um final de domingo penetrava em meio aos últimos momentos do tão esperado fim de semana. Era uma tristeza viver entre sábados e domingos. A vida tornara-se finais de semanas com hiatos de sofrimento. Talvez não trabalhar em um lugar que se goste, ou fazer algo penoso, transforma os simples sorrisos em lágrimas escuras da hora de dormir.

O notebook brilhava implacável, sua séria tela de cristal líquido substituíra as pesadas máquinas de datilografar, a evolução da tecnologia em um pedaço de metal e plástico com eletricidade e vida. Os antigos escritores dariam um reino para um pedaço de plástico destes, suas vidas teriam sido muito mais fáceis, porém eu não sou um grande escritor, logo o som da televisão invade meu cansado cérebro como uma mensagem: O domingo está chegando ao fim.

Eu estava cansado, era fato. Talvez o texto não sairia assim tão fácil, como suco de laranja ou ketchup.

Eu estava deprimido. Pensava como era viver nos hiatos vazios dos dias. Tudo bem que hora ou outra esta fase também chegaria ao fim, tal qual outras chegaram e agora deixam saudades. Minha órbita com uma crise sem precedentes; “o inverno está chegando” diriam os personagens do livro que leio, porém ele já está aqui, me congelando até o fio da alma.

E o notebook nada.

Mas nada sairia mesmo. Eu já havia jantado, já teria comido minha gorda comida,  mandando-a para minha gorda pança. Tomaria uma cerveja se tivesse uma cerveja, porém minha geladeira é um repositório de embalagens vazias e garrafas pet com água.

A televisão falava das guerras.

O grande e pesado livro na mesa. Eu precisava estudar as matérias desinteressantes da faculdade, eu precisava ter um futuro. Futuro!? Que nada, nunca teríamos. No domingo não há espaço para otimismo, simplesmente não há espaço para um lindo nascer do sol, quando são quase onze horas e você precisa dormir, pois acorda as 4:30 da manhã.

O grande pesado escritor na cadeira. Os parágrafos não surgiriam assim por mágica, era preciso estudo, era preciso prática. Eu manteria o jeito infantil quando desenhava algo ignóbil e ia correndo mostrar para meus pais. Eles não sabiam o que eu tinha desenhado, tal arte nunca fora meu forte, porém, sem culpa, eles diziam que estava bonito. Era suas funções, não deprimir o primogénito para que ele não fosse um fracassado no futuro.

Mas ai, eu precisaria acordar as 04:30 da manhã e ir para a batalha.

Mais ai, eu precisaria ser descartável, tal qual todo trabalhador é.

O Notebook ainda estaria solitário, com sua bateria fraca e sua alma capenga. O jornal terminaria com seu boa noite e boa sorte. Todos sabiam que a segunda-feira estaria próxima e a vida continuaria. Vida!? Uma sobrevivência boba no ato do bandido que nos assalta e o ônibus que atrasa. Vida!? Uma doce e inocente ilusão dos que são crentes ou aqueles que permeiam um otimismo bobo, talvez infante, sobre um florido futuro.

O notebook não concorda, ele discorda de mim, ele acha que eu gosto de me lamentar, gosto de sentir pena de mim, que sou um imbecil que não faz por onde, e quando faz, não faz completo. Ele tem raiva, tem ódio, ele decide desligar para nunca mais ligar.

Meu amigo notebook morreu.

A televisão da sala desligou.

O mundo está escuro e eu, em vão, tento dormir. O sono me foge como foge as Plêiades de Órion. Reviro-me no turbilhão de pensamentos, mas sei que a noite longa me espera e tais pensamentos e preocupações não tomaram seu lugar no meu subconsciente até o esperto momento do meu alarme soar. As horas passarão arrastadas, meu quente quarto me sufocara em seus mal cheiros e suas aflições, os mosquitos me sugarão o sangue e as sanguessugas me sugarão a alma. Estarei ali, apenas com os livros não lidos e com o amigo escuro. Estarei ali, esperando a chegada da sexta-feira, frio e sereno. Furioso as vezes.

Ainda escuto os primeiros sussurros da manhã, tendo em dúvida a validade de minha sanidade. Enlouqueceria eu um dia? Impossível saber. Talvez morresse antes de se tornar sábio ou louco. Por fim, acordaria sem uma vez ter dormido, enfrentando como um guerreiro tolo da primeira fileira a semana por vir.

Os primeiros raios solares sobem aos céus naquela única manhã. Após a assepsia matinal e o desjejum eu estou pronto para encarar o leão diário. Um lampejo de esperança cresce em meu peito, de maneira débil e boba. Penso que talvez pudesse ser diferente e tudo pudesse melhorar. Eu teria uma boa noite de sono e os problemas se dissolveriam como sal em água. A brisa matutina encontra meus desgrenhados cabelos. Carrego o peso do meu corpo em ligeiros passos pela profunda escuridão da manhã, na mente um pensamento sóbrio e repetitivo, como um velho mantra hinduísta. Talvez, quem sabe, no hiato dos dias um futuro sorridente apareça para mim no horizonte.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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