maio 27, 2017

A criatura.

Entediava-se, solitária em seu quarto na mais profunda tarde silenciosa. Tornava-se tão torta quanto um dia foi, ao pensar no passado e ao pensar no presente. Deitada, em meio aos lençóis, com o ventilador farfalhando sua branca e preguiçosa pele, eliminando vagamente o calor daquele lugar. Sob a cama cadernos com desenhos. O traço preciso de alguém que desenhava, desde pequena, e agora transformava isto em profissão. O traço das bonecas com roupas que virariam peças verdadeiras em pessoas verdadeiras, e ilustrariam o desfile de alguma grande empresa do ramo de moda.

Os vários materiais espalhados e sua preguiça concentrada em um único ponto. Talvez ela passasse o resto da tarde descansando, vendo o céu tornar-se escuro e melancólico, para depois, ao receber um telefonema das amigas, sair e se divertir, talvez beber, talvez conhecer novas pessoas. Ela não sabia, simplesmente aquele dia iria fugir da curva dos seus planejamentos. Estou adiantada, pensava ela consigo mesma, o prazo estaria longe de terminar, sempre fora alguém que evitava a procrastinação e o ócio, daí as notas boas no tempo do colégio.

Mesmo sonolenta tentou retomar o trabalho, pelo menos finalizar este que havia começado, precisava de apenas alguns detalhes aqui ou ali. Era uma peça de roupa para o verão, coisas simples, tecido liso e descomplicado, com vários pequenos detalhes. Utilizara um pouco do estilo de um ou dois estilistas. Criar, dizia seu professor era um processo de revisitar aquilo que já foi criado. Ela não concordaria de pleno, pensava em sempre ser original, mas estava ali, exercendo sua hipocrisia.

A boneca, como assim chamava as personagens sem rosto que vestiam as roupas de riscos, nunca precisava de tantos detalhes, era apenas alguns riscos representando as curvas e as proporções de uma mulher que nunca teria aquele peso e cintura. Roupas eram feitas para pessoas magras, os que não circundasse aquele padrão bastaria adaptar-se. Apenas pessoas de magérrima forma desfilavam tais vestimentas, para que, num futuro próximo, outras tentassem aproximar aquele impossível corpo de sua realidade e usar aquelas roupas impossíveis.

Terminara rapidamente os detalhes, parecia bom, depois faria uma revisão sobre algo que poderia ou não mudar. Precisaria fazer mais uns vinte ou trinta daqueles, e o trabalho parecia estar bem adiantado, porém algo a incomodava. Algo dentro de si torcia suas entranhas como um medo que resfria o coração. Aqueles desenhos todos a quem representavam? Aquelas garotas sem rosto, apenas contornos vestindo as roupas que ela desenhara com tanta simplicidade. Era uma moda primavera-verão, todas magérrimas com pescoço cumprido e faces rosadas, mas as bonecas não tinham rosto, não tinham olhos, porém todas as encaravam.

Ela nunca notara antes que as bonecas encaravam a sua criadora. De alguma forma aqueles seres sem olhos, nariz e boca a observavam, sentia a censura em suas limpas faces, como se aquele olhar vazio e corrosivo fosse um espelho torto e aquelas personagens sem nomes fossem nada mais que reflexos de si mesma como artista.

Olhou para o próprio corpo no espelho, ela estava engordando? Alguns pontos de gordura aqui ou ali, estrias lá também. Ela não caberia naquela roupa, nunca desfilaria em uma passarela, sua pele branca, pálida e sem graça, seus cabelos curtos, negros-pintados, com olhos grandes e castanhos. As bonecas riam dela, riam de forma gracejosa, talvez de forma acusatória, “quem ela pensa que é para nos desenhar assim?” Ela não era ninguém, não possuía nome, era uma personagem de uma história vazia, sem começo nem fim, talvez ela mesmo não existisse, fosse uma simples simulação feita por um outro artista para emular uma outra coisa.

Um átomo que sabe que é um átomo.

Desesperou-se. As bonecas em seus desenhos tinham rosto: era o seu. Os desenhos estavam todos espalhados pela cama, todas aquelas bonecas engordavam, tornavam-se monstruosas, as roupas estouravam mostrando o corpo nu e grotesco daqueles seres feitos de grafite e contornos. Ela quis rasgar cada folha daquela, matar cada uma de suas filhas mas não podia, ela também estava nua, ela também se viu no espelho da verdade. Seu corpo gordo e flácido, suas faces rosadas enrugando, seu cabelo tornando-se grisalho até cair. Ela se via envelhecendo, apodrecendo. O medo tomou conta, novamente olhou-se e estava lá, no auge dos seus 19 anos, cabelos negros, olhos castanhos, um tanto cheinha para os padrões. Aquelas roupas nunca entrariam nela…

Esta era a ironia.

Quantas meninas ela teria matado no último ano, por propagar esta loucura do padrão ideal, por se tornar uma idealista fantasma das costelas saltitantes e da cintura de pilão? Ela não era isto, não era a boneca que desenhara. Seria ela uma personagem falsa? Alguém que não existe, ou , alias, existe no momento entre o primeiro e o último parágrafo? Ela teria um nome? Qual seria? Não saberia dizer. O seu criador não deu um nome para ela, a fizera gorda e estranha, tal qual o espelho a acusa. A fizera ser quem ela é, sabia quais eram os seus pensamentos. Ele, seu criador, a via nua, ela sentia vergonha de si, de sua carne, de sua alma.

Ela precisaria rasgar aqueles desenhos, destruir aquele quarto, fugir. Não se tornaria escrava de seu criador. Mas as folhas foram tomadas pelas vento do ventilador e rodopiaram por aquele quarto, pareciam ter vida. As folhas se tornaram maiores, sua sombra era projetada no corpo da pequena e assustada garota. As bonecas tomaram vida e saíram, fugiram de sua prisão bidimensional, tomaram vivência no mundo dos que possuíam três direções para ir. Elas estavam sedentas de vingança, seu ódio mostravam o contorno frio de sua repugnância.

– Você nos fez sem face! – uma voz saia daquele interior austero. Uma grotesca voz, tal qual o grunhir de um bicho desconhecido.

Ela queria pedir perdão, as pessoas não olhariam para sua face, e muito menos para quem elas eram, simplesmente olhariam para suas curvas, suas roupas, suas belezas corpóreas, era este o motivo de suas criações. Claro que a criatura nunca entende o egocentrismo do criador, tudo que desejam é destruição e que a dor pare. Ela não saberia como agir, como conversar com aquelas bonecas que invadiam o seu quarto, eram quinze ao todo, altas o bastante para transformarem-a em uma baixinha, medonhas o bastante para acelerar o coração. Ela queria pedir socorro mas, a história só acontecia ali dentro, não existia lá fora, não existia família, amigos, professores ninguém. Ela era mais um átomo, um átomo que tem vida. Ela não existia além das letras de seu criador, estas que definem seu modo de pensar, ser e agir. “Deus, ele também define meus pensamentos e o que eu vou fazer” Pensou ela, a criatura, mas era tarde demais. As bonecas a atacaram sedentas de vingança e ódio, destruindo seu corpo e alma.

Agora ela era uma pilha de pedaços ensanguentados, espalhados por aquele quarto sereno, naquela tarde clara e entediante. O ventilador levantaria o resto das virgens folhas, espalhando-as pelo chão. Uma delas tocaria o corpo despedaçado da criatura, manchando-se de um rubro e vivido sangue. Não houvera dor no ato das bonecas, que agora ganhavam o mundo, fugindo pela janela imaginária, buscando um rosto que coubesse em suas faces. O corpo desmantelado jazeria ali eternamente, com as pernas e braços decepados, a cabeça descolada do resto sem expressão, a face arrancada e experimentada por uma das bonecas que, tristemente pensou “esta não serviu, preciso de outra”.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Sobre Rhuan Rousseau

Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

CATEGORIA

Contos, Textos