Crônicas

Pessimista

– Eu recebi um vídeo hoje, o cara contando: Disse que o cara era o maior ricão, deu cinco mil dólares pros filhos adolescentes passarem as férias na Disney. Quando os filhos chegaram ele perguntou se haviam comprado alguma coisa pra ele e disseram “não, você queria?”, e ele disse “mas… É meu aniversário”.

– Hum – disse e dei um trago no beck. Estava no quarto do meu apartamento em São Paulo com Corvo. Estávamos chapando e falando merda como sempre fazíamos, e ele decidiu me contar essa história.

– Aí o cara do vídeo tava vendo essa cena, o pai tava no aeroporto com ele ou algo assim, falou que sempre deu tudo para os filhos, que eram ingratos, não valorizavam tudo o que tinham e o que o pai dava pra eles. Aí o cara do vídeo disse “se você tivesse feito 10% do que eles fazem com você, o que seu pai faria?”. “Ah, ele ia tirar tudo o que eu tenho pra eu aprender a valorizar”. E aí ele fez isso, falou que as malas cheias de coisas que eles haviam comprado eram dele, por que foi tudo com o dinheiro dele.

– Hum – passei o beck.

– Aí o cara do vídeo disse: “Sabe como chamo isso? Reintegração de afeto ao seu devido lugar. Recuperação do seu papel de direito. Por que esse lugar foi deus que te deu e blábláblá…”. Que merda, né? O cara tava falando tão bem, tava até legal, até que ele teve que botar deus no meio.

– Pra mim tava uma merda desde o começo – disse.

– Por que?

– Um professor disse pra gente uma vez, sobre a questão de pais: “Nos Estados Unidos é algo bem comum colocar os pais velhos em um asilo. No Brasil isso é visto como abandono, como cruel, como se os filhos tivessem a obrigação moral de cuidar de seus pais quando esses envelhecem… Mas ninguém pensa que ninguém pediu pra nascer, né?”.

– Como assim?

– Foi decisão deles nos trazer à existência, eles não nos consultaram, obviamente, nem assinamos nenhum contrato de troca de cuidados na infância do filho por cuidados na velhice dos pais.

– Não importa, é algo que é esperado, não é mesmo?

– Exato, esse é o meu ponto, é algo esperado, e algo que gera muita culpa na maioria das pessoas se não for feito, o que nos leva à pergunta: O que esse pai deve ter feito para que o filho conseguisse não se sentir culpado por tratá-lo mal?

Corvo me passou de volta o beck e ficou pensativo por um tempo. Acho que aquilo não havia passado pela cabeça dele.

– Não tem como botar a culpa na criança, estamos falando de toda uma geração de filhos que, por algum motivo, não respeitam seus pais e não se sentem responsáveis por isso. Por que será?

– Você quer culpar os pais por serem abandonados por seus filhos?!

– Eu não quero culpar ninguém. As pessoas não percebem o que fazem, apenas repetem os mesmos erros das gerações passadas e as coisas vão acontecendo. É causa e efeito.

– E qual seria a causa do abandono?

Eu traguei fundo a erva e olhei para ele. Eu esperava mais de alguém com a cabeça dele e que se formou comigo. Mas talvez esse fosse um ponto de vista particular meu:

– Você disse que o cara deu cinco mil pros filhos irem passar a férias na Disney. Sem ele. Por que será? Você acha que alguém que alguém que tem tanta grana assim tem tempo pros filhos? – soltei a fumaça – você acha que nas oportunidades que ele teve de demonstrar carinho e afeto, de ser um bom pai, ele preferiu fazer isso ou ir trabalhar, ganhar dinheiro e tentar comprar o amor dos filhos com grana e coisas caras? Quem você acha que ensinou para eles que o amor não dá lucro e que são as coisas materiais que importam? Aí quando o cara fica velho e os filhos aplicam a mesma lógica à ele, são abandonados por aí e todos sentem pena e ainda vêm falar de “lugar de direito”.

– Não tem como você saber que é sempre assim! – ele disse e eu puxei a fumaça mais uma vez.

– Como você disse, cara, os pais são sagrados, as pessoas se sentem responsáveis e culpadas perto deles. Se alguém consegue ser tão frio assim com aqueles que representam esses papeis, só pode ser por que eles nunca o representaram muito bem pra começar.

– Você não sente pena dos outros, David?

– Não.

Traguei e passei o beck pra ele. Ele hesitou por um tempo, parecia irritado. Soltei a fumaça enquanto expliquei:

– Sentir pena envolve acreditar que as coisas poderiam ser diferentes. Que a vida poderia ser de outro jeito, diferente do que ela é. Mas não pode. Tudo acontece por que tem que acontecer.

– Rá. Vindo de você isso parece uma piada.

– Não! Não estou falando de alguma determinação metafísica, de justiça divina ou carma, mas sim de causa e efeito. Se as pessoas não sabem as causas, não podem controlar os efeitos, e então não podem ser consideradas responsáveis por seus atos. Somos apenas engrenagens de uma grande máquina de merda, cara, fazendo a vontade dela, não a nossa. E eu não consigo sentir pena de engrenagens.

Ele pegou o beck e o tragou. Ainda parecia puto, mas não sabia como argumentar. Enfim disse:

– Aposto que você iria querer que seus filhos tomassem conta de você quando for velho, meu chapa.

Ele tragou o beck e eu ri e então disse:

– Eu não penso que vou ter filhos, Corvo. Mas se os tiver, acho que prefiro me matar do que obrigá-los a cuidar de um velho decrépito, e condená-los duas vezes pelo mesmo crime.

– Que crime?

– A existência.

– Vai se foder, David! – ele se levantou do banquinho do lado de minha cama e começou a andar pelo quarto.

– Você não concorda? – perguntei.

– Que a existência é um crime? Claro que não.

– Parece incoerente, não? Que um ser vivo possa desejar a morte e ser condenado à vida. Um dos argumentos contra o aborto é que todo mundo que é a favor já nasceu, e que não seriam se fosse a vida deles em jogo. Mas temos tanta certeza assim?

– Certeza do que?

– Nós achamos que estamos fazendo um favor à criança que corre risco de vida ao lutar e nos esforçarmos para trazê-la e mantê-la viva, mas que garantia temos disso? Que garantia temos de que nós, ao invés de ajudar um ser que queria viver, não condenamos um ser que desejava a morte à uma existência longa e dolorosa? Ao invés de “salva da morte”, ela é “condenada à vida”.

– Bom, deixemos a criança viver e completar 18 anos e perguntemos a ela se ela quer tirar sua vida, ok? – ele me devolveu o beck.

– Mas aí já é tarde. Nesses 18 anos ela já foi condicionada a pensar que tirar a própria vida é um crime hediondo e está fora de questão. É como uma trava de segurança que é instalada nas pessoas.

– Imagino que você também não aprove isso.

– Por mim o mundo não deveria ter travas – disse e me deitei de braços abertos na cama, puxando o beck com força, imaginando que eu estava em um jardim dizendo alguma frase estúpida de um filme estúpido de romance.

– Você é a favor do suicídio então. E do aborto.

– Tô cagando. Não vejo diferença em dar o direito de vida ou de morte de um bebê à sua mãe ou ao governo. De qualquer forma nunca vai ser a criança a decidir por si mesma. Mas eu não gosto do governo, e acho que o mundo já tem gente demais, então acho que sou a favor.

– Não fode! Dar a vida a um filho é uma das maiores provas de amor!

– É uma das maiores formas de egoísmo! – eu respondi, e ele ficou perplexo – você obriga uma criança a nascer, não por algum motivo honroso, para o bem da humanidade ou para alguma contribuição social, mas por que você quer.

– Claro que há uma contribuição, caralho.

– Claro que há, mas esse não é o motivo que te leva a querer um filho. Você o deseja e aí você o tem, e então você conscientemente ou não projeta todos os seus valores pessoais nele, pelos quais ele irá se julgar e se sentir culpado no futuro, desenvolvendo suas futuras neuroses. Os antinatalistas dizem que inevitavelmente quando você traz alguém à vida você está tirando alguém do vazio, onde ele nada sente e colocando-o num mundo cheio de sofrimento. E tudo isso por que você quer. A escolha mais ética seria não reproduzir.

– Você é pessimista pra caralho, David.

– “At least I’m not racing into a red light”* , como disse o grande Rustin Cohle**.

– O que?

– Deixa quieto. Você acha isso mesmo? – ri – você quer ter filhos e você quer que eles cuidem de você quando for um velho e usar fraldas. Então me desculpe, meu amigo, mas meu suicídio sem deixar herdeiros me parece uma solução bem mais altruísta do que a sua, alguém que fuma meio maço de cigarros por dia. Ou além de condená-los a nascer e a cuidar de você, os condenará também a cuidar do seu câncer?

– Falou o Dráuzio Varella – ele disse com sarcasmo. Era um tipo de ad hominem que usávamos zoando quando alguém tentava repreender o outro por hábitos não saudáveis, sendo que os dois eram fodidos.

– Meu sofrimento se encerrará comigo, Corvo. E o seu? Onde ele irá te levar?

– A um lugar melhor do que pra onde você está indo, eu espero.

– Rá. Todos esperamos, não é mesmo?

.

.

.

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*A citação refere-se a uma cena da série True Detective: Quando o detetive Rustin Cohle diz a seu parceiro em um culto que a religião seria um vírus da linguagem e uma transferência do medo e das auto-recriminações para uma figura de autoridade, este o acusa “você parece desesperado falando uma coisa dessas”, ao que o detetive responde “pelo menos não estou acelerando para dar de cara com um sinal vermelho”. O parceiro então lhe mostra seu dedo do meio.

** Rustin Cohle é um detetive niilista da série True Detective. A foto da crônica é de uma cena na qual Cohle expõe sua visões pessimistas da vida (“somos seres que não deveriam existir”, “todos com um sentimento de ser alguém, quando na verdade ninguém é ninguém”), visões com as quais o autor simpatiza e nas quais se inspirou para fazer essa crônica.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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