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Sonho de Poeta

No começo achou que era suor. Afinal, o calor da tarde e o trânsito frenético fazia qualquer um gotejar nas têmporas. Mas foi só por uns poucos segundos. A água que lhe brotava da fronte escorreu pelo rosto e alcançou o pescoço.
Deixou as ruas apinhadas com seus pedestres apressados e buzinas estridentes. Dirigiu devagar, pois com uma das mãos precisava constantemente enxugar o rosto.
Desceu do carro e foi deixando um rastro molhado por onde passava. Entrou na casa.
Lá, no silêncio, às portas e janelas trancadas, toda noite espalhava seu cansaço pelo chão, sofás e cadeiras. Tentava esquecer-se do dia exaustivo, sem graça. Não amava o seu ofício. Seu trabalho era só trabalho. Arrastava-se pelas horas do dia, das semanas, dos anos, da vida.
Mas desta vez foi diferente. Entrando no banheiro, olhou-se no espelho. Pelos olhos desceram alevinos, que ao cair na pia cheia de água, se transformaram em peixes, cujas escamas brilhavam à luz das lâmpadas.
Teria ele endoidecido? Tirou a toalha enrolada dos cabelos e junto com ela vieram pequenos pássaros, de penas coloridas, que passaram a voar por todos os cômodos. Seguiu-os pelo corredor.
Olhou para seus livros amontoados pelas prateleiras. Sempre achara que dia terminaria a leitura. Eram histórias tão boas… Talvez se arriscasse a voltar a escrever. Em algum lugar, escondido entre gavetas empoeiradas, estavam seus versos confusos, arremedos de contos, esboços de romances. Um dia, quando o cansaço fosse menor, quando trabalhasse menos… Quem sabe quando… E agora, a casa se via inundada de água, peixes e pássaros.
O espelho meio quebrado do banheiro que toda noite mostrava-lhe as olheiras, os fios de cabelos brancos, as rugas prematuras revelava agora seixos de nuvens rentes ao teto, que em forma de animais, se agitavam ao sabor da brisa morna. Era mês de fevereiro. O rádio trazia uma música antiga, cheia de nostalgia. O relógio avisava que precisava dormir. Mas o inusitado da situação o fazia andar às tontas, sem saber o que fazer. O porta-retrato ao lado da cama estampava sorrisos e ternuras já experimentados e em nada o ajudava. Estava sozinho.
Dormiu sentindo cheiro de maresia, bater de asas e cintilar de escamas. Pela primeira vez em muito tempo sonhou. E seus sonhos foram povoados de cantos, murmúrios, ruídos de vento.
Ao acordar sobressaltado, verificou-se seco e completamente só. Procurou, mas nenhuma gota, pena ou escama denunciavam os acontecimentos da noite anterior. Sentiu-se quase triste.
Não conhecia ele Bartolomeu Campos de Queirós. Por isso nunca tinha atinado que em seu nome estavam o mar, o ar e o rio. Nem que ele era habitado por peixes e aves. Não tomou conhecimento das águas doces e salgadas que lhe habitavam o corpo e poderiam ter-lhe lavado a alma.
E assim, Mário, o homem quase poeta, iria continuar a enveredar-se por sua rotina. E frustrado, não descobriria a poesia que tinha herdado de batismo.
Mas no final da tarde seguinte, assim que ligou o carro para enfrentar as duas horas de trânsito, criaturas aladas, agora já suas conhecidas, saíram-lhe dos ouvidos, enquanto dos olhos grossas torrentes de lágrimas escorriam. No chão, acarinhando-lhe os pés, corpos ágeis e dóceis mergulhavam. Sorriu.

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Nasci e cresci em uma cidade bem pequena no interior do Paraná. Sempre gostei muito de ler e ainda muito pequena comecei a escrever minhas próprias histórias. O gênero que mais gosto de escrever é fantasia, inclusive tenho dois livros publicados com essa temática, um romance ‘Sete dias de Lázaro’ e um livro de contos ‘Contos de Quase Fadas’. Minha mente é povoada por inúmeros seres fantásticos, mas o meu preferido são os dragões. Escrever para o blog “Saco Cheio e Mau Humor” está sendo uma experiência ótima. Ter um canal para externar algumas das minhas inúmeras ideias que se acumulam dentro de mim. Abro meu mundo para vocês. Sejam bem vindos!

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