Textos

15.

Marie encontrava-se nua em sua cama. Respirava profundamente, o ar confundia-se no infante sorriso e nos suspiros de satisfação. O pequeno quarto acolhia sua alma de menina, os presentes de seu aniversário espalhados pela cama ocupando parte do espaço onde ela poderia esparramar-se preguiçosamente.

Não sentiu nenhuma obrigação de vestir-se. Sabia que logo a mãe a importunaria com a velha tradição familiar de ir à igreja aos domingos. Queria que o tempo passasse devagar, queria sentir tudo aquilo novamente. Os pelos eriçavam e suas pupilas dilatavam ao pensar. Algumas bonecas a encaravam e pela primeira vez ela sentiu-se vigiada por seres que são apenas parcos pedaços de plástico.

Porém, enfim decidiu que deveria levantar-se.

O corpo de mulher já formando-se . Ela brinca com os pequenos seios que já tomavam alguma forma. O grande espelho refletia sua vaidade e sua sinceridade. Pensava o quanto crescera rapidamente e o quanto o tempo de menina virava passado. Agora com aquelas coxas grossas, com aquela bunda empinada, aqueles seios tomando forma e os lábios carnudos…

Quem ela queria enganar?

Ela não era nem um pedaço das meninas de sua sala, talvez não fosse nem em mil anos.

Mas completara quinze anos“, pensou sorridente. A cama repleta de presentes: pelúcias, mimos, lembrancinhas e um vestido amarelo do qual desdenhara profundamente. Uma garota que ela não tinha convidado, pelo menos não se lembrava de ter convidado, a presenteara com aquele vestido feio.

– Já está pronta!? – sua mãe gritou da cozinha.

As bonecas encaravam com um olhar perfurante. Porém ela dizia para si mesmo que tinha crescido, que não se importaria mais com o julgamento, e a prova disto foi o que tinha acabado de fazer. Deliciara-se de um prazer que talvez fosse proibido, talvez fosse pecado. Não se importaria de ir até o inferno, seus músicos favoritos estariam lá.

Um arrepio correu seu corpo. Marie repousa a mão sobre os grossos pelos pubianos, talvez devesse os depilar, talvez não. Será que os garotos gostavam deste jeito? Sentia-se mole, sentia-se tonta, mas não era ruim. Mexeu novamente sua mão, brincando entre os pequenos caracóis formados por pelugem tão proibida. Retomaria o ato? Duas vezes se entregaria ao gozo proibido do corpo? Ao prazer velado para mesma?

Olhou de relance para a porta, sim, ela estava trancada. Sim, apenas sua infância deixada no passado testemunharia ato tão íntimo. Seria esparramada sobre aquele vestido amarelo ridículo, dado por uma garota que nunca vira antes. Seria ali, no quarto onde crescera, onde menstruara pela primeira vez. Onde, no futuro, também perderia a virgindade, aproveitando de um descuido dos pais.

O êxtase.

– Marie! Vamos logo! – agora sua mãe batia na porta.

Marie se recompôs. Quem sabe, mais tarde, tornaria a divertir-se, a conhecer a si mesmo?

Marie vestiu o vestido que tanto desdenhara e saiu.

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Tenho uma lista de filmes para assistir e um tanto quanto de livros para ler. O tempo é tão escasso nestes anos tão estranhos. Escrevo buscando entender este mundo, tal qual um escritor de um manual de instruções. Pretendo um dia ter uma casa com uma janela para um cemitério. Uma boa maneira de pensar na vida e no futuro indubitável de cada um. Agora buscando uma resposta para o futuro em antigas mitologias perdidas. Também querendo ganhar um dinheiro extra, sou um ser humano como todos os outros, e ter uma independência mesmo que pequena, comprar quadrinhos entre tantas outras coisas. Espero que gostem dos meus textos loucos e das minhas estranhas visões do mundo. Blog pessoal: http://omiopepsicopata.blogspot.com.br/ Twitter - @rhuanroussseau

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