O dia está chegando ao fim, o céu tomado por uma tonalidade de laranja, vermelho, amarelo, todos eles misturados e presentes ali, as poucas nuvens no céu brilham refletindo os raios solares. O sol está um espetáculo à parte, descendo calmamente no horizonte, trazendo o milagre diário do universo, onde o dia se vai e a noite vem.

Hoje é 31 de dezembro, ou seja, esse é o último pôr do sol do ano, dois mil e dezessete sairá de cena, e oito oportunidades de ser feliz [ que motivador, sou quase a versão feminina do Augusto Cury com essa frase] surgirão para a grande maioria.

Nem todos contemplarão o novo ano que chegará, quando o relógio marcar às 0h, e os fogos de artifício explodirem no céu, provavelmente você estará vendo esse espetáculo sem imaginar que eu estarei levando alguém próximo de você.

Alguns me veem como a vilã da humanidade, a carrasca que leva embora seus sonhos, o pai que bate na mãe e priva os filhos de comer os vegetais, como canta aos quatro cantos a banda supercombo, e talvez eu seja tudo isso para você e para muitos, entretanto, outros me convidam para suas vidas, e me chamam de salvadora. Ora jovem leitor ou leitora, não existe uma definição para mim, eu sou o que sou, eu sou o que você imagina que sou.

Decidi escreve essa história para contar como aprendi a me apaixonar pela vida [ pode entrar o meme do esquilo dramático com música de suspense, se você não conhece, é só pesquisar no Youtube e curtir], sim a famigerada morte se apaixonou pela glamorosa e espalhafatosa vida [ às vezes eu gosto de falar sobre mim na terceira pessoa, não se preocupe com isso], a predadora de sonhos, se apaixonou pelo que ela jamais poderia ter, e insiste em roubar. Provavelmente esses pensamentos estão perturbando a sua pequena cabecinha, e infelizmente não é só a sua. Então se você chegou até aqui e não achou essa história um grande monte de merda [ o que é possível, nem todo mundo entende o requinte estilístico da escrita da grande morte], vou te contar o que aconteceu.

Vem, vem oh morte

Ele já vinha me chamando a vários meses, seu nome era Romulo, seus dias antes do esquecimento se resumiam a chorar as lágrimas de desespero e clamar para sua libertadora. A vida tinha perdido o sentido, a decepção de se esquecer de todos que ele amava o consumiu, ele se afastou de todos e de tudo, se negou a fazer os tratamentos, e passava seus dias e noites deitado em uma cama de casal, que antes abrigava seu grande amor.

Apenas um ano antes de receber o diagnóstico de Alzheimer, ele tinha perdido a esposa, uma boa mulher chamada Barbara, sua estrutura emocional, sua vida como ele gritou sobre seu caixão no dia 30 de dezembro de 2016. Foi difícil e triste para mim levá-la tão precocemente, na verdade, sendo bem sincero com você, nem fazia parte dos meus planos. A combinação catastrófica de álcool mais volante fizeram sua vítima enquanto ela atravessava a faixa.

Depois de vários meses clamando por mim, a sua hora finalmente havia chegado, não exatamente a programada, mas a que ele estipulou.

Naquela semana ele não tinha saído do quarto uma única vez, , o único momento que levantou-se da cama foi quando seus filhos Raul e Ana K foram visitá-lo, ele os abraçou, falou que os amava, contou algumas histórias que a doença ainda não havia levado, eles riram, se emocionaram, na hora da despedida passaram quase 30 minutos entre abraços e declarações, até parecia que eles sabiam que aquele seria o último encontro terreno deles [ Não estou dizendo que eles vão se encontrar no paraíso, inferno, seol ou qualquer outra coisa que você acredite, até porque sou ateia].

Ele preparou cada detalhe da sua partida com perfeição e cuidado. Pediu a Soraia, a empregada/cuidadora que ela comprasse veneno de rato, pois tinha escutado barulhos estranhos nas paredes, e acreditava que eram camundongos enormes, ela não questionou, ficou até feliz por ele ter falado com ela naquele dia, mesmo que seja sobre os supostos roedores gigantes, afinal ele raramente comunicava-se com alguém.

Procurou na pilha de caixas velhas no armário, onde as coisas de sua amada estavam empacotadas, o CD do Rubel e separou, queria escutar a música preferida dela.

Todos esses detalhes foram fácies de preparar, o que mais exigiu do seu emocional já abalado ele havia deixado por último, a carta de despedida, mas depois de uma longa madrugada de lágrimas, soluços e tristezas ela saiu.

*****

Quando o derradeiro dia chegou ele ligou o rádio, colocou o cd do Rubel para tocar, foi apertando o próximo até chegar na faixa 10, a música preferida da sua amada, ela gostava de cantar “ quando bate aquela saudade”.

Calmamente ele dirigiu-se até o armário, pegou uma caixa amarela lacrada, na embalagem estava escrito, racumin, com destaque para as letras largas no quadrado branco no centro da embalagem que diziam, cuidado veneno. Ele tinha 50 minutos, esse era o tempo da Soraia ir até o mercado.

A dúvida antes do suicídio é algo completamente normal, muitos psicólogos dizem até que cometer tal ato é extremamente difícil, pois não fomos concebidos para tirarmos nossa própria vida, então a dúvida bate na porta da nossa mente, e temos segundos para decidir, só que no caso do Romulo foi totalmente diferente, ele não tinha dúvidas sobre partir, tudo aconteceria como combinado, normalmente.

Minha grande surpresa foi quando ouvi ele me chamar.

– Morte, oh grande morte, eu sei que você está aqui para me levar, só está esperando que eu tome o veneno. Você pode me conceber um último desejo? Eu não quero morrer sozinho!

Aquele foi o desejo mais estranho que já me fizeram [Não que me façam muitos, só pra constar], estranho a ponto de me intrigar. Por que um homem à beira do suicídio gostaria da minha presença?  Sem muito pensar a respeito decidi atender o seu último desejo, afinal não se pode negar esse tipo de coisa.

– Olha isso é pouco ortodoxo, você poderia até ser excomungado da sua religião por isso, mas como sou uma morte muito boa [ mereço até o céu das mortes. Será que existe? ] Vou atender ao seu desejo, desde que você tome o veneno rápido – Falei enquanto me tornava visível para ele.

– Muitíssimo obrigado…Dona morte.

– Vamos encurtar logo esse papo de caridade. Entorna logo o veneno, porque eu tenho outras pessoas para buscar. 

– Tomarei em um minuto. Só vou voltar a música novamente. Espero poder encontrar com a Barbara. Eu vou, né? – Falou enquanto olhava para trás esperando uma resposta

– Olha, sendo bem sincero com você, eu não faço a menor ideia, meu trabalho é só buscar as pessoas, onde elas vão parar, não é muito da minha conta – Falei enquanto puxava a cadeira para sentar

– Que consolador, a morte não sabe nem para onde vamos.

– Você pediu companhia e não uma guia espiritual. Mas já que estamos aqui e você já gastou parte do meu tempo, por que vai se matar?

– Eu amei muito uma mulher, ela era meu caminho, minha luz, minha vida…

–  Pula toda essa parte, o diagnóstico com Alzheimer, pode pular tudo isso que eu já conheço a triste saga de Romulo.

– Nossa que delicada e sensível.

– Disponha – Falei enquanto fazia uma cara de boa menina [morte no caso].

– A verdade é que a morte da Barbara me entristeceu e tirou muito da minha vontade de viver, mas ainda assim eu conseguiria continuar vivendo com as lembranças, com as memórias felizes, mas sem elas, eu não sou ninguém, me resumo à uma casca oca que respira.

– Parece uma história trágica de Shakespeare, onde os pombinhos apaixonados, desiludidos com a vida, decidem acabar com ela, só que no caso o seu amor morreu antes. A vida é realmente muito ruim e injusta.

– Por incrível que pareça, eu não concordo com isso.

– Não! Como assim? Ela tirou tudo que você tinha, sua esposa [ tudo bem que essa parte foi eu, mas não vem ao caso] e agora suas lembranças, ela te deixou brincar no seu parque particular, usufruir dele, aproveitar, rir, chorar, se lembrar e agora tira tudo de você.

Ele encarou o copo com veneno e começou a chorar, as lágrimas escorreram pelo seu rosto já úmido, quando finalmente chegaram aos lábios, ele passou a língua sugando-as.

– Sabe de uma coisa, você está completamente errada. Viver é maravilhoso, a possibilidade da decepção, do sofrimento, de amar, odiar, beijar e brigar, e tudo isso existindo e acontecendo dentro de nós. Ela é egoísta, não por termos que brincar dentro das suas leis, mas simplesmente porque sem você, estaríamos fadados a brincar eternamente.

– Como assim? – Falei enquanto me inclinava para ficar mais perto.

– Viver é maravilhoso, mas principalmente ambíguo. A mesma mão que traz a felicidade, dias ou meses depois trará a tristeza, o caos, o ódio, e sem você morte, nós teríamos que viver nessa prisão que se torna a vida. Só existe uma coisa melhor do que a vida, e é você.

– Assim, eu sei que sou simplesmente maravilhosa. Mas me ver como Moises [ versão feminina claro] é meio estranho.

– Sim. Se você não existisse estaríamos fadados a brincar eternamente no parque da vida, presos as mesmas coisas, e por mais clichê que pareça, passaríamos a não mais viver, mas simplesmente a cacas ocas sem emoções. A possibilidade de morremos é que faz a vida ser interessante, na verdade ouso dizer que a morte é o tempero diário que temos que experimentar, afinal é a possibilidade de te conhecer um dia que nos move a fazer e sermos melhores, pelo menos a grande maioria.

– É uma boa forma de pensar. Mas se você acredita que morrendo agora, estará com a Barbara no paraíso, isso não é meio contraditório ao seu discurso?

– Não. Temos a necessidade de pensar na vida após a morte na maioria das vezes porque estamos presos em empregos que não gostamos, relacionamentos sufocantes, vivemos vidas cheias de dogmas religiosos que nos entristecem e muitas outras coisas, mas se você decide aproveitar o momento e abandonar as prisões imaginárias, não terá problema se não existir um paraíso.

– Legal, bom discurso por sinal, já pode ser o próximo presidente do Brasil [ afinal ninguém está aguentando aquele que não se pode ser nomeado], mas por que você vai se matar então? Não viveu toda a sua plenitude com a Barbara?

–  Experimentamos de tudo, fizemos sexo de várias formas, viajamos, cantamos, dançamos, simplesmente aproveitamos plenamente nossas vidas, mas eu não quero esquecê-la, e me tornar uma casca oca que só respira. Cheguei à conclusão que mesmo que eu continue respirando, ainda assim terei morrido, minha alma terá deixado meu corpo.

– Não vou dizer que entendo, mas é uma ótima forma de pensar.

Ele esticou suas mãos ao encontro das minhas, fitou calmamente e carinhosamente meus olhos e disse:

– Eu te amo morte, não por que tenho vontade de morrer, mas a possibilidade de encontrar com você um dia me motivou a amar mais e ser realmente feliz. E chegou a hora de você me libertar da vida, eu à amei enquanto tive a oportunidade, agora corro para minha libertadora, você.

– Você é um velho estranho e sentimental. Mas espero que se existir alguma coisa depois dessa vida, você encontre com a Barbara – Falei enquanto expressava um sorriso discreto

– Obrigado morte, por me ouvir e principalmente me libertar – Falou enquanto pegava o copo de veneno e tomava.

Não adianta me perguntar se ele encontrou a Barbara, se existe uma vida após a morte [ no caso depois de mim], porque eu sei menos que você e continuo não acreditando no pós vida, mas aprendi uma coisa valiosa naquele dia, algo que me fez amar a vida. Percebi que não somos rivais, ou simplesmente opostas como negativo e positivo ou herói e vilão, somos complementares. Vocês precisam brincar no parquinho que a vida oferece, curtir, aproveitar as coisas boas e ruins, e então chegará um momento na velhice [ ou antes, na sua hora] que precisará transcender, romper os limites do parquinho e é nesse momento que serei sua libertadora.

Ame a vida, por mais difícil que possa parecer, ela é única e moldada especialmente para você, termino com as sábias palavras do grande Renato Russo:

“É preciso amar as pessoas
Como se não houvesse amanhã”

Anúncios

Participe da conversa! 2 comentários

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s

Sobre Rodrigo Moura

Sou um mero aspirante a poeta, filosofo e escritor. Tenho 21 anos e moro na cidade do Gama. Costumo dizer que não domino o "segredo" da exímia escrita, mas vivo para escrever, e escrevo para viver. Torno cada palavra escrita e dita um motivo para acordar, um sonho para realizar e como força para respirar. Não escrevo um só gênero, porque acho que ainda não encontrei um que me defina, ou nunca encontrarei, talvez no final eu seja um transeunte entre gêneros, cujo o objetivo seja transmitir uma mensagem, seja ela, escrita ou falada.

CATEGORIA

Livros, Textos

Tags

, , , , , , , , , ,