Crônicas

Cadê a Putaria?

Tirei a camisa e me virei para ela. Ela me estendeu sua mão e eu a beijei, e ela indicou para que eu ficasse de quatro sobre o degrau. Ouvi o som das correntes tintilarem assim que ela pegou piedade – o chicote de aço. E então sussurrou em meu ouvido:

– Você lembra, né? Quando não aguentar mais é só pedir “misericórdia” – que também era o nome do outro chicote dela, uma mangueira de borracha que ela iria usar quando cansasse do outro.

Consenti, me sentindo um Willian Wallace pervertido e senti o primeiro golpe. Minha pele ardeu e eu tomei um susto, mas não foi tão ruim. E então eles continuaram vindo. Nas minhas costas, nos meus lados, nas minhas nádegas. Parece que a expectativa da dor faz você focar toda sua atenção nela e você se desliga das coisas ao redor, como num tipo de meditação. Não é à toa que os primeiros relatos de pessoas fazerem isso em si mesmas vinham de membros de ordens religiosas mais tarde canonizados: A dor era uma tentativa de atingir ao divino, antes de algum papa a proibir e ela ser considerada o passatempo dos perversos.

Tinha momentos que eu não sentia nada. Tinha momentos que eu sentia que no próximo golpe iria ceder, mas aí ela demorava, eu me recuperava e a deixava continuar.

– Você quer mais? – ela me puxou pelos cabelos e disse uma vez.

– Sim.

E ela continuou. Eu não sabia quanto tempo mais aquilo iria durar, mas aí outra pessoa interveio.

– Desculpa, mas acho que ele já apanhou o suficiente. É a sua primeira vez?

Disse que sim, mas ainda estava meio em transe. Ela disse que havia ficado preocupada e que achava melhor interromper, o que deixou minha “dome” e o namorado dela putos. Eles disseram que não havia problema, mas como era minha primeira vez ali e eu não sabia porra nenhuma, eu concordei e botei a camisa. Nós saímos da masmorra e fomos fumar lá fora.

As vezes na vida quando você já se envolveu o bastante com outras pessoas, já usou um punhado de drogas e descobriu a quantidade certa de consciência necessária pro seu dia ficar just fine, sua rotina volta a ficar entediante e você começa a pensar em coisas novas pra fazer, pra te devolver o tesão pela vida. E é aí que os homens começam a procurar por uma forma de liberação sexual, vulgarmente conhecida como putaria, que pode se apresentar de diversas formas para todos os gostos.

No meu caso, eu sempre tive curiosidade desse lado oculto da sexualidade humana onde o prazer e a dor têm o mesmo nome. Se você não sabe do que estou falando, provavelmente nunca viu Hellraiser, nem conhece Dorian Gray e não espero que esse texto faça sentido pra você.

Eu sempre havia tido pensamentos perversos, desde a infância com meus desenhos e os filmes de terror pelos quais era fascinado, o que me levou a questionar se eu não era diferente das outras pessoas. Mas tendo morado sempre em cidades do interior – conhecidas por seu povo moralista e fofoqueiro – por muito tempo minhas questões permaneceram sem resposta. Quando me mudei para a grande Babilônia, fonte dos mais diversos prazeres, eu decidi então botar isso a prova e experimentar essas coisas que gente da capital tem acesso e um dia fui em um bar de BDSM no centro.

Parte do que eu vi era bem o que eu esperava, mas outra parte me deixou surpreso: A complexidade das regras, restrições e hierarquias e grupos existentes dentro da subcultura BDSM:

Pelo que me disseram, existem os sádicos e os masoquistas, os “dom” e os “sub”, os que gostam de bater e de apanhar. E existem também os “switcher”, que são aqueles que gostam de fazer as duas coisas e alternam entre os dois papeis. Eu achei que esse seria o tipo mais comum, mas o namorado da garota que me bateu me disse que os switcher sofrem preconceito dos outros fetichistas.

– Wtf. Por que? – eu perguntei.

– Eles falam que é impossível gostar das duas coisas. Que a gente não sabe o que quer, que não nos encontramos ainda.

Além disso, ambos os grupos não viam com bons olhos os adeptos do age play, adultos que se vestem e se comportam como bebês (babies) – usando até mesmo fralda e chupeta – para serem cuidados por seus “daddies“.

Parece que até mesmo para eles a perversão tem um limite. Então para alguém que esperava encontrar algo no estilo 120 dias de Sodoma, algumas falas acabavam sendo bem surpreendentes.

– Tinha entrado num grupo de BDSM novo lá, mas aí vi que era só putaria e saí.

Ué.

 – Não bate muito forte por que aí dói de verdade.

Uh… Escolha interessante de palavras para um masoquista.

Uma hora estávamos todos sentados na masmorra, esperando o metrô abrir. Entre nós estava uma dome profissional – ela era paga para torturar e humilhar pessoas que sentiam prazer com isso. O assunto chegou no tema de um tipo de negócio/relacionamento chamado de sugar daddies/babies:

– O que é isso? – um deles perguntou.

– Pelo que eu sei é um homem ou mulher mais velho e rico que sustenta alguém mais jovem, paga jantar, pra sair, etc, com ou sem sexo – eu disse, baseado em uma matéria que tinha lido na internet.

– Isso não é fetiche de verdade. Eles distorceram a relação sub/dom. Não tem uma relação real entre os dois – a dome disse, o que foi outra das coisas que eu achei estranho: “Fetiche de verdade”, ela disse até com orgulho na voz, e isso me fez lembrar dos adolescentes metaleiros com quem eu andava, que julgavam as pessoas entre tr00 e poser.

– Mas eles não se consideram fetichistas – eu respondi.

– Eles não são.

– Eu sei. Eu quis dizer que se eles não reclamam o nome para eles, não tem como dizer que foi uma distorção. É só um negócio diferente.

– Pra mim é prostituição, simples assim – ela respondeu, dessa vez seca – como tem muita dome por aí que fala que é séria, mas mal o cliente chega e ela já abre as pernas.

Pera aí… Então você quer me dizer que ser paga para chutar as bolas de um cara (literalmente), açoitá-lo e humilhá-lo para que ele sinta prazer sexual é ok… Mas a partir do momento em que você transa com ele está se prostituindo? E isso… Não é ok?

Eu busquei conhecer esse estilo de vida achando que iria encontrar pessoas livres, de mente aberta, sem frescuras ou restrições e que respeitassem a tara alheia afinal, aos olhos da sociedade, todos eles não passam de pervertidos. Mas não. De fato, as pessoas que eu conheci naquela noite não faziam parte do grupo mais radical e exclusionista – até por que eu estava entre age players e switchers, os párias dos párias – mas a visão que eles me passaram desse mundo é que ele não passa de outra grande construção neurótica: O moralismo hipócrita acontece de outra forma, mas ele está presente.

Outro grupo com uma visão diferente sobre a sexualidade que eu busquei conhecer foram os adeptos do poliamor. Trata-se de pessoas que vivem relacionamentos poligâmicos, casais em relacionamento aberto, “trisais”, “polisais”, Homem-Mulher-Homem, Mulher-Homem-Mulher, pessoas casadas legalmente que trazem gente de fora pra relação, enfim, com tantas possibilidades de tipos e estilos e nomes que até Freud ficaria confuso.

Eu os conheci inicialmente por grupos na internet, o que é uma ótima maneira de ter uma visão ampla (apesar de superficial, é claro) antes de se aprofundar mais. Mas, assim como na maioria dos grupos de internet, o conteúdo não era muito enriquecedores. As postagens dos grupos eram:

1) Homens e mulheres se apresentando com fotos e recebendo cantadas.

2) Pessoas reclamando que poliamor não é putaria e que só tinha gente querendo isso nos grupos.

3) Feministas reclamando que só viam trisais MHM e que isso era machismo.

4) Um ou outro post interessante.

Conheci um grupo de pessoas e marcamos uma festa na casa de um deles. Alguns dias antes eu encontrei um amigo psicanalista e sexólogo e decidi conversar sobre ele com isso, perguntar o que ele achava.

– Cara, eu não posso dizer no geral, por que tive pouca experiência com isso. Mas as quatro pessoas que conheci adeptas desse poliamorismo, tinham tido relacionamentos traumáticos anteriormente e tinham problemas sexuais no relacionamento atual.

– Que tipo de problema?

– Uma mina, por exemplo, que transava com dois caras, mas nunca tinha gozado na vida. No geral, a pessoa tenta manter mais de um vínculo, mas acaba ficando com todos eles fracos, nenhum a satisfaz completamente, como um único vínculo forte talvez o faria.

– Mas você não acha que é possível que pessoas que não entrem nisso por causa de um trauma consigam manter? – teoria ou não, aquilo parecia meio preconceituoso, ou normatizador.

– Então, pelo que a gente sabe, o que acontece nesse caso é que elas acabam se vinculando uma à outra e deixam de ser poligâmicas. Como aconteceu com um dos casos que eu conheci. Mas como eu te disse, não tem como eu te dizer o quão comum é isso, pois não tenho tanto contato assim.

Eu fui no encontro – uma festa na casa de um deles – esperando encontrar pessoas que desmentissem a teoria do meu amigo. Prefiro não julgar se obtive sucesso ou não… Mas boa parte daquele grupo era composto por mulheres de meia idade (algumas delas mães) que haviam descoberto sobre o poliamor depois do término do segundo ou terceiro casamento, ou de uma relação abusiva, e de forma geral, todos ali, homens e mulheres adeptos desse tipo de relacionamento haviam sido monogâmicos infelizes no passado, passando por traições e términos frequentes. Havia também um casal feliz que tinha uma filha e moravam juntos e uma hora eu ouvi o homem dizer:

– Então, somos poligâmicos, mas no momento eu não tô procurando nenhuma mulher pra relação, nem ela tá procurando nenhum homem… Mas se a gente se interessar, é claro que pode rolar…

“Acabam se vinculando uma à outra e deixam de ser poligâmicas”. É, André… Você venceu.

Uma hora nesse encontro, o anfitrião estava falando sobre a diferença entre certas modalidades de poliamor, ou poligamia.

– Eu não entendo esse negócio de “poliamor fechado”, que as pessoas fazem. Fazem um casal de três pessoas onde as três só podem ficar entre si. Isso não é amor livre!

– Mas existe uma diferença entre amor livre e poliamor – uma das mulheres disse – existem aqueles que querem estar num relacionamento sem regras, onde possam ficar com quem quiserem, num casal, trisal, etc, mas também aqueles que querem a estrutura de um relacionamento sério com mais de uma pessoa.

– Mas aí continua tendo o ciúme, as regras, as restrições, e não deixa de ser um relacionamento baseado no sentimento de posse. Eu acho que todos deviam poder ficar com quem quiserem a hora que quiserem, isso sim é amor livre.

– Não é isso o que eles falam que é putaria? – eu perguntei, e eles pareceram surpresos, como se houvessem esquecido que eu estava ali.

– É, as pessoas do amor livre não são muito bem vistas pelas do poliamor.

E começa tudo de novo outra vez…

No final, não me pareceu existir tanta diferença assim entre as formas de relacionamento poligâmicas ou fetichistas das monogâmicas e tradicionais: Em todas elas pode existir sexo, amor, prazer, felicidade, mas também ciúmes, julgamento, restrições e dor de cabeça. Talvez por que essas mil formas de relacionamento com suas terminologias tenham todas sido criadas por seres-humanos.

Mas algo do que falei aqui diminui o valor ou desmente o desejo dos fetichistas ou poliamoristas? De forma alguma. Ou vocês acham que os relacionamentos monogâmicos e tradicionais não são também determinados por traumas? Quantas vezes um parceiro pediu que você fizesse ou deixasse de fazer algo por que um de seus ex fazia? Quantas vezes você pediu?

A mensagem é apenas que se você está procurando algo realmente livre, free for all onde você possa descarregar suas perversões e sua libido, talvez esses estilos não sejam pra você. Para isso servem as putas e, como vimos, esse povo não gosta de ser comparado com elas.

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Conatus: Substantivo. Latim para esforço; impulso, inclinação, tendência; cometimento. É um termo usado em filosofias de psicologia e metafísica para se referir a uma inclinação inata de uma coisa para continuar a existir e se aprimorar. Outros autores a chamaram de Vontade, Desejo, Pulsão, Elan Vital, a essência inconsciente que dirige suas ações para satisfazê-la quer você queira ou não. David Conatus, no entanto, não é um substantivo. É um verbo, uma ação, a ação de exorcizar em palavras minha visão da existência e do mundo, e de talvez conseguir um pouco de paz ao fazer isso. Já quanto a paz de vocês, leitores, isso eu não posso garantir. Prossigam por sua conta e risco.

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