Entrei no antiquário mais para fugir do frio do que por interesse. Lá
dentro a penumbra, as cortinas e falta de janelas davam ao ambiente
um aspecto de tão antigo que nem os móveis, muitos de um outro
século, conseguiam dar. Gostei da sensação. Não queria comprar nada,
mas, para poder ficar, comecei a olhar atentamente os objetos e peças
que ali se encontravam e, não demorou para que meu falso interesse se
tornasse real. Tão real que me vi analisando coisas que jamais me
chamariam atenção em um outro momento ou lugar. Afinal, sou uma mulher
moderna, ligada à tecnologia, a futilidades e coisas efêmeras que
devem ser trocadas todas todos os anos,senão antes.
Mas ali, naqueles corredores estreitos e mal iluminados, comecei a
sentir o odor de um passado do qual eu não fazia parte, e que no
entanto, parecia me fascinar. Percebi que um par de olhos me
analisava, talvez sondando em mim uma possível compradora. Bonecas de
porcelanas, vestidas como adultas, abajures coloridos parecendo
vitrais de igrejas, lustres que pendiam como lágrimas sobre tapetes
extravagantes de origens desconhecidas. Senti-me inebriada. Tocava de
leve as madeiras escuras de pianos cujas teclas pareciam mudas há
muitotempo.
Senti uma nostalgia antiga tomar conta de mim. Mas como antiga se eu
era jovem e jamais tinha me dado ao luxo de olhar e muito menos amar
o quer que seja que pertencesse ao passado? No entanto,conforme
caminhava, tive uma vontade imensa de possuir alguma coisa daquela
loja, de levar comigo aquele cheiro, aquela textura. Avancei para os
fundos do ambiente. E foi lá que o vi. Pendurado numa parede, ao lado
de outros, estava o mais belo, antigo e fascinante relógio que já
poderia ter existido.
Num canto, como que esquecido há muito tempo, ele marcava as horas.
Não as horas exatas. Como se até elas não pertencessem àquele momento.
E seu pêndulo dançava no pequeno espaço que lhe era permitido,
revelando uma melodia que chegava aos ouvidos e não nos deixava nunca
mais. Quedei-me. A madeira negra mostrava sinais de ranhuras em
algumas partes. Seus ponteiros vagavam através dos números numa
monotonia e me atraiam. Deixei meus olhos se fixarem naquele objeto.
Tentei imaginar quanto tempo já marcara. Quantas decisões haviam sido
tomadas ao seu comando. Que olhos teriam-noolhado? Que mãos os
tocado?
Fechei os olhos e deixei o som de toda loja me percorrer. Senti-me
mágica. Era como se todos os antigos donos me sussurrassem ao ouvido.
Tudo ali tinha uma história, um passado. Eu era o presente.
Caminhei de volta. Lá fora o frio e o vento continuavam. Não tive
vontade de sair. Perguntei pelo valor do relógio. O dono, conhecedor
de cada peça e cada história, não precisou consultar nenhum catálogo.
Achei caro. Aceitava cartão de crédito? Aceitava. E enquanto pagava,
percebi como aquela forma de pagamento destoava com tudo que estava
ali dentro. Com muito cuidado foi tirado da parede e embalado. Saí
levando aquele embrulho me sentindo como se fosse outra pessoa.
No meu apartamento, pendurei-o, acertei-lhe as horas e sentei-me
para ouvi-lo e admirá-lo. Agora era meu. Estaria ali para meu
encantamento. Fechei os olhos para senti-lo melhor. Pelas janelas e
portas de vidro entrava a claridade do dia. O celular avisava das
mensagens. A TV estampava as tragédias. E a música produzida pelo
nostálgico pêndulo se perdia em meio às futilidades e urgências da
vida moderna. Tão belo, tão cheio de histórias, tão carente de alguém
que o ouvisse e o entendesse. E, no entanto, tão inútil.
Quando cheguei de volta ao antiquário, o dono, velho e conhecedor das
vontades e carências da juventude, apenas balançou a cabeça em
afirmativo, com um breve sorriso nos lábios.
Às vezes,tenho vontade de entrar novamente naquele espaço de
penumbra e passado e ver se ele ainda se encontra lá, esquecido na
parede dos fundos da loja. Mas me contenho. Tenho medo de que de
repente, eu me curve ao desejo de me embrenhar de vez naquele mundo de
magia e descubra que possa ser feliz de uma outra maneira. Então passo
em frente sem olhar. Mas mesmo sem perceber, aspiro com mais força
para que os cheiros daquele lugar me acompanhem por alguns minutos.

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