junho 16, 2017

Bandido de Estimação

Eu tenho meu bandido de estimação. Ele é preto, drogado e pobre, e dessas condições, apesar de ser vítima das três, ele escolheu apenas uma, as drogas.

A condolência humana é seletiva, ninguém admite ter um bandido de estimação, mas tem um deus de estimação, um animal de estimação, um empregado de estimação, um amigo de estimação e até um amor de estimação. E no meio de tanta estimação, estimo que o deus dessas pessoas esteja aí para justificar suas intolerâncias, xenofobia e homofobia, que o animal está só para guardar a casa, que o empregado quase da família não pode se sentar à mesa, que o amigo tem dinheiro no bolso ou não é tão bonito, e sair com ele te torna mais atraente diante da feiura do outro e que o amor de estimação é apenas uma posse, sexo, amor doentio e crime passional.

No meu bandido de estimação, aplico todas as penalidades para os crimes mais vulgares que os meus; eu ataco o pedófilo, mas torno minha filha um objeto sexual aos nove anos, eu voto no mesmo corrupto em todas as eleições, mas o câncer do Brasil e dos países subdesenvolvidos é a ameaça vermelha, eu ataco o assassino e defendo a pena de morte – se está na legislação é para ser cumprida –. Eu preciso de um bandido de estimação, alguém tem que ser mais culpado do que eu.

Eu não movo uma palha para salvar as pessoas, eu não dou abrigo no meu país, minha casa tem sempre as portas fechadas, eu estou repleto de egoísmo e tão cheio de julgamentos. Bandido bom é bandido morto, isso está errado, eu preciso culpar alguém, eu preciso derramar minha ira e seleção social em alguém. Eu, eu e eu.

Eu preciso de um judeu para culpar o fracasso do minha nação e supervalorizar minha raça, eu preciso de um nordestino para culpar o atraso do meu Estado, eu preciso de um gay para afirmar que tenho um pau e transo com mulheres, eu preciso de um preto para expô-lo aos estrangeiros quando vierem conhecer o Safári da Rocinha ou o Zoológico do Alemão.

Em quem descontar minha insatisfação, revolta, eugenia social, ignorância e me tornar isento de não ter uma participação no resgate de uma pessoa? Óbvio, no bandido de estimação.

Se estiver muito caro adquirir um meliante numa ONG, eu recomendo esperar pela próxima infração, sempre tem um outlet de seres humanos na TV.

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Sobre renatobraga

Renato, do latim, renascido. É importante renascer todo dia. 20 e tantos anos, admirador de Caetano e apaixonado por História; cursa Jornalismo pela Universidade de Taubaté, cidade onde nasceu mas que não pertence.

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