O que nos diferencia dos outros animais? Aquilo que mais diferencia o ser humano – e que deve ser uma de suas habilidades mais impressionantes – é a sua capacidade imaginativa:

O ser humano é um condensado irregular e caótico de dúvidas, incertezas e contradições. Ele não tem um tendência inata, ou um desejo, essência ou vocação próprios dele mesmo.

Ainda assim, o ser humano acredita piamente que o jeito correto de se viver é se comprometer “pro resto da vida” com algo: Uma pessoa, um trabalho, uma carreira, uma família.

Devido a isso, “mudanças nos planos” como o divórcio, o recomeço com outra família ou a mudança de carreira são muitas vezes vistas não como evidências inquestionáveis do caos da existência humana, mas ao invés disso, como sinais de fracasso. É evidente que apenas um animal com uma capacidade imaginativa altamente desenvolvida conseguiria acreditar em algo tão estúpido.

Pois não consigo ver de outra forma o fato de adolescentes serem tão desprezados por adultos, vistos como irresponsáveis e inconsequentes, ao mesmo tempo em que é esperado deles que escolham uma carreira e que sejam bem sucedidos nela, com um cargo e/ou título alto antes dos trinta. Espera-se também que façam boas escolhas sobre com quem se relacionar como amigo e cônjuge, e que não demore muito para ter filhos – afinal, nenhuma criança quer crescer com pais velhos. Esses filhos devem ser saudáveis e bem educados, estudar em escola particular, serem bilíngues, praticarem esportes e terem boas notas desde o começo para poderem passar no vestibular dezoito anos mais tarde.

Se tiver sorte, um dia essa criança que não pediu pra nascer vai se dar conta de todas as responsabilidades que não pediu pra ter e se perguntar: Pra quê?

A escolha feita anteriormente não te serve mais, isso você já percebeu. Então pra que continuar sofrendo? Talvez você não tenha tido escolha da primeira vez, ou talvez tenha escolhido errado por ignorância, ou talvez tenha simplesmente mudado de ideia. A questão é que não é tarde pra mudar. Não é indigno, sinal de fraqueza ou fracasso admitir que não quer mais aquilo para si. Na verdade é a única coisa sensata a se fazer.

Covardia, na verdade, é se manter preso em situações como essa por medo de ser julgado. Medo de que os outros que aparentemente conseguiram o que queriam da primeira vez o chamem de “fracassado”. Olhe mais de perto: Será que esses moralistas bem-sucedidos realmente encontraram o que estavam procurando? Ou apenas acham que encontraram? Ou apenas tentam mostrar que encontraram? Afinal, covardes costumam ser bons atores.

A vida é muito curta para perdê-la com tanta seriedade ou trocá-la pelo que quer que seja. Afinal, de que adiantará possuir qualquer outra coisa quando não houver mais nada de si para aproveitá-la?

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PS.: Qual palavra vocês acham que usei para encontrar a imagem para esse texto? “Divorce”? “Separation”? Não. Foi “failure”: Uma palavra extremamente vaga, que poderia ser representada por mil formas diferentes, mas foi logo essa imagem, relacionada a algo extremamente específico, que foi a segunda a aparecer. Talvez isso seja outro indicativo do tamanho do nosso problema.

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