Ela adorava a chuva. Ficava à janela aguardando o dia em que viria. Sua mãe nunca a deixara tomar banho naquele liquido transparente e convidativo que caia do céu, e este, talvez por ser proibido sempre fora seu sonho. Um dia ela veio forte, batia contra o vidro em grandes bagas.
A menina podia sentir o cheiro da chuva trazido pela brisa gelada. Mamãe ainda não chegara do trabalho. Secaria o cabelo e trocaria de roupa antes que mamãe voltasse. Estava decidido.
Abriu a porta e saiu para receber sua velha amiga. Sentiu as grandes gotas percorrer-lhe o corpo e escorrer para a terra. A chuva engrossava. Seus cabelos compridos caiam-lhe pelas costas molhados. Ela não percebeu quando começou. Seus cabelos começaram a descer em fios de água. Sua pele parecia derreter, e ela foi escorrendo-se toda para dentro da terra.
Quando mamãe chegou só encontrou seus sapatinhos cheios d’água no quintal e os pôs para secar.
Os olhinhos liquefeitos da menina puderam dar uma rápida espiadinha em sua casa e em mamãe antes de subirem para as nuvens.

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