Textos

180 – A liberdade ou a morte

Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim

Elza Soares

 

Ana está sentada no sofá abraçada com seu filho Christovan. Na televisão está passando Naruto, mais especificamente uma batalha entre Sakura e Sasori.

Os olhos de Ana correm pela tela da televisão. Se qualquer pessoa ver essa cena provavelmente pensará que ela está concentrada no desenho, mas na verdade sua mente está vagando, pensando sobre seu inferno particular.

Sua mão sobe ao rosto. Ela toca a lateral da cabeça, está inchada e lateja. No ouvido tem um pequeno corte que ainda não cicatrizou, com a ponta dos dedos ela consegue sentir que está começando a fechar.

Ela desvia o olhar para o relógio, são 22h34min. O marido está duas horas atrasado para o jantar. Uma mistura de medo e pânico toma conta do seu coração, um leve aperto seguido por uma falta de ar. Em sua mente um sinal de alerta é emitido imediatamente – Ele está bebendo.

Um conflito entre razão e emoção está declarado. Uma parte dela acredita na palavra dele, afinal na última vez ele prometeu que jamais tocaria nela novamente e principalmente que nenhuma gota de álcool desceria por sua garganta, ele seria um novo homem. O homem que ela precisava. A outra parte mais racional sabe que ele está embriagando-se no bar da esquina.

As lágrimas brotam em seus olhos, ela tenta contê-las, impedir que caiam, não quer que o filho de apenas 5 anos veja isso, mas são mais fortes que ela. O filho olha para trás e vê a mãe chorando.

– Fica triste não mãe. Quando assisti essa cena a primeira vez também chorei, achei que ela fosse perder, mas a Sakura é uma mulher forte, muito forte por sinal. Ela nunca desiste.

Christovan estende sua pequena mão e limpa as lágrimas da mãe.

– Obrigado meu homenzinho – Ana abraça-o forte.

Minutos se passam, a luta entre razão e emoção finalmente declara seu vencedor.

Do portão ela escuta uma voz rouca e grave, que aos berros grita insultos contra o cachorro.

Passos firmes cada vez mais aproximam-se, e seu coração é tomado pelo desespero. Pega no braço do filho, desliga a televisão e corre para levá-lo para o quarto.

– Hora de dormir meu homenzinho – Fala tentando esconder o desespero.

– Mas mãe, o episódio ainda não acabou.

– Eu sei, mas a mamãe precisa conversar com o papai.

– Tá bom, mas não deixa ele te bater não – Fala enquanto os lábios se contraem em choro.

Naquele momento a dor da realidade despenca sobre ela. Todas as vezes em que apanhou do marido o filho escutou, por mais que tentasse sempre esconder os arranhões ou não gritar quando o chinelo, pau, panela fosse arremessado e acertasse-a, o seu pequeno homenzinho de apenas cinco anos sabia que sua mãe era espancada.

A dor da realidade pesou ainda mais, a percepção de que não era capaz de impedir que seu filho presenciasse esses atos era terrível. Seu objetivo sempre foi protege-lo, ela não deixou Robson todos esses anos porque queria o melhor para Christovan., ela sabia a dor de crescer sem uma presença paterna.

Abruptamente a porta se abre com um solavanco. Robson entra pela porta cambaleando, mas ainda assim parece forte e ameaçador, afinal ele tem 1,89 m de altura, pesa 125kg, tem braços forte e uma mão do tamanho do pequeno rosto de Ana. Ela sabe disso porque apenas duas semanas atrás ele pegou o rosto dela inteiro com a mão, aproximou-se do ouvido dela e sussurrou que se ele quisesse esmagaria a cara dela inteira com uma única mão, e não daria nada, os polícias ficariam do lado dele ,todos eles sabiam que ela era uma vagabunda que ele tirou das ruas.

Ele vai até o fogão, tira as tampas das panelas e vê o que tem dentro. E logo em seguida uma explosão de fúria toma conta do seu rosto, ele se vira e olha para Ana que fica paralisada, se perguntando o que pode ter feito de errado na comida.

– Só tem arroz, feijão e frango? Você sabe muito bem que detesto frango. Você faz isso para me irritar, não é?

– Não meu amor. Mas não tinha mais carne na geladeira. Você saiu pela manhã justamente para fazer um bico e comprar – Ana fala gaguejando de medo

– Agora a culpa é minha. Tá falando que não sou capaz de prover o alimento pra essa família? Não tem carne vagabunda, levanta essa sua bunda do sofá e vai arrumar.

– Tá bom, me desculpa meu amor. Não quis te deixar estressado. – Fala enquanto abaixa o rosto

– Ainda bem que você sabe, mas agora que já cometeu esse erro vou ter que discipliná-la – Rodolfo fala tirando o cinto da calça.

– Não, por favor Rodolfo. Eu vou sair agora e peço para dona Maria aqui do lado um pouco de carne emprestada e faço rapidinho pra você.

– Piorou. Quer espalhar pela vizinhança que não consigo sustentar minha própria família? Você vai levar o corretivo que merece.

– Não papai, não bate na mamãe, ela não fez nada errado. – Grita Christovan enquanto sai de trás da mãe.

– Cala a sua boca, senão você vai aprender a me respeitar – Vocifera Rodolfo

– Vai para cama meu amor, em cinco minutos vou ler uma história pra você – Ana indica o quarto para o filho com a mão tremula.

– Não, eu não vou deixar o papai bater em você mamãe.

– Melhor ainda então, adoro ter plateia, mas antes vou te ensinar a ter medo de mim.

Rodolfo empunha o cinto em uma das mãos, vem como um gigante para cima de Christovan, ergue o cinto e acerta com a ponta da fivela em seu rosto. O garoto caí no chão com um corte na orelha, e uma marca vermelha na bochecha.

Ana ajoelha ao lado do filho caído, seus dedos percorrem a pele do menino, e as lágrimas começam a cair, o mundo perde o foco por alguns segundos, seu rosto está tomado pelo medo e o pavor, suas mãos agora tremem freneticamente e em sua testa pequenas gotículas de suor são formadas.

O mundo volta a tomar foco quando uma pequena mão gelada enxuga uma lágrima do rosto de Ana. Christovan abre os olhos e encara a mãe, antes de voltar a desmaiar.

O medo é dominado pela fúria, o rosto antes suado começa a ficar vermelho e quente de raiva, as mãos tremulas se fecham, ela ergue a cabeça.

– Você pode me bater, me xingar, falar do meu passado, mas nunca vai tocar no meu filho novamente.

As palavras de Ana são o gatilho que libera ainda mais a fúria de Robson. Ele corre na direção dela, agarra um bom tudo de seus cabelos e começa a puxar até que ela fique de pé.

– Sua vagabundinha safada. Como ousa falar comigo assim? Vou te espancar agora e quando o pirralho acordar, vou marcar o outro lado do rosto dele.

Ana sente a fúria crescer dentro dela, e tomada por ela flexiona o braço para trás e atinge com toda força a barriga de Robson. Sua cara muda de raiva para surpresa, ele nunca imaginou que ela revidaria, mas antes de perder o fôlego arremessa Ana sobre a estante.

– Como ousa vagabunda – Fala enquanto coloca a mão na barriga.

Ana sente o corpo ficar dolorido, e sabe que agora que revidou só existe uma força de sair dali com vida, matando seu algoz. Pega o cofre de barro em formato de porquinho na estante com as duas mãos. Sente atrás dela Robson se recuperar e ir em sua direção, a segundos de suas grandes mãos encostarem em seu cabelo, ela se vira e com toda a força e bate o porquinho na cabeça dele. O cofre se espatifa e joga moedas em todas as direções, entre gemidos de dor é possível escutar o tilintar das moedas caindo. A vista de Robson fica preta, ele cambaleia e apoia no armário para não cair.

No chão está jogado o cinto, ela o encara alguns instantes, pega-o, aproximasse de Robson e atinge sua virilha com um soco, ele caí. Suas mãos passam o cinto em torno do pescoço dele e começam a puxar, ele começa a ser debater tentando soltar-se, para impedir Ana encosta um dos joelhos em suas costas e empurra, as mãos antes furiosas de Robson começam a perder a força e batem no chão.

– Eu sou uma vadia, mas não sou sua. Sou dona de mim mesma. Você nunca mais vai tocar em mim ou no meu filho. Durante muito tempo me fez sentir medo de ter opinião própria, me trancou nessa casa como sua prisioneira, mas isso acaba agora. Sou uma mulher e sou forte, muito maior e mais forte que sua mão ou seus insultos – Vocifera Ana

Ela tira o cinto do pescoço de Robson e empurra-o para frente, que caí tentando encontrar ar.

– Não vou te matar, você não merece isso. Você vai para cadeia.

Ela pega o celular, disca 180 e chama a polícia. Aquele é o fim de seu algoz e o início da sua libertação. Pega Christovan no colo e vai para frente da casa esperar as viaturas chegarem, ao longe o barulho de sirenes ecoam, é o som da liberdade chegando.

Cadê meu celular?
Eu vou ligar pro 180
Vou entregar teu nome
E explicar meu endereço
Aqui você não entra mais
Eu digo que não te conheço
E jogo água fervendo
Se você se aventurar

Elza Soares

 

 

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Sou um mero aspirante a poeta, filosofo e escritor. Tenho 21 anos e moro na cidade do Gama. Costumo dizer que não domino o "segredo" da exímia escrita, mas vivo para escrever, e escrevo para viver. Torno cada palavra escrita e dita um motivo para acordar, um sonho para realizar e como força para respirar. Não escrevo um só gênero, porque acho que ainda não encontrei um que me defina, ou nunca encontrarei, talvez no final eu seja um transeunte entre gêneros, cujo o objetivo seja transmitir uma mensagem, seja ela, escrita ou falada.

1 comentário em “180 – A liberdade ou a morte

  1. Pesado, mas é isso aí! Não teve jeito… coitado do menininho!

    Curtido por 1 pessoa

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